Cine Ceará 2013- Outras considerações

Emak Bakia

Paulo Henrique Silva, Hoje em Dia (MG)

cartel_emak_bakiaO diretor basco Oskar Alegria só dispunha de algumas fotos de detalhe da casa onde o fotógrafo surrealista Man Ray filmou, em 1926, o seu primeiro trabalho de vanguarda, Emak Bakia. Assim começou um longo trabalho detetivesco em torno da verdadeira localização do cenário que serviu de palco para inovações técnicas, entre elas a “raiografia”, criada por Ray.

O que seduziu o realizador, na verdade, foi o significado de Emak Bakia, que em basco quer dizer “Deixe-me em paz”. Com seu pai, ele aprendeu que, quando as palavras morrem, as coisas também deixam de existir. Para uma etnia (a basca) que luta por sua afirmação, ocupando um pedaço dos territórios da Espanha e da França, a manutenção da tradição oral é de vital importância.

Carregando o mesmo título do curta de Ray, o documentário percorre caminhos que, na ausência de resposta que o jornalístico pode oferecer, resultam em imagens oníricas. “Onde as armas do jornalismo não funcionam, recorro à imaginação”, destaca Alegria, que apresentou o filme no 23º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema.

Jornalista de formação, tendo trabalhado como repórter dos canais Plus e CNN+ em Madri, o cineasta sentiu na pele a contradição entre a informação e a criação. Ele compara essa situação aos arados puxados por bois presentes em sua infância, numa vila nas montanhas, que reuniam as forças do homem e do animal. Choque de vontades que, segundo Alegria, era “o motor que fazia ir para frente”.

Também recorre ao aprendizado de criança quando perguntado sobre suas principais referências cinematográficas. No lugar de um Chris Marker ou de um Abbas Kiarostami, diretores de trabalhos que dialogam com Emak Bakia, Alegria cita sua mãe como grande mestra. “Não gostava de peixe e para fazer eu comer, minha mãe me enganava colocando batatas fritas sobre ele”, lembra.

Para o realizador, a tapeação promovida pela mãe é uma metáfora sobre o que ele entende como função do cinema: “O peixe é o que nos nutre, mas tem gente que não gosta e é preciso enfeitar com batatas para tornar o filme mais atraente”. No caso de Emak Bakia, esse conteúdo está nos muitos desvios que enxergou em seu caminho durante a investigação, muitas vezes mais saborosas que o próprio objetivo.

Além de encontrar personagens curiosos, Alegria radiografa a região de Biarritz, na parte basca da França, onde a casa foi construída. Descobre que o lugar era o preferido da aristocracia do início do século passado para passar as férias, entre eles um entediado monarca romeno que montou um palacete para fugir de suas obrigações políticas, dando-lhe o nome de Emak Bakia.

As casas recebiam nomes para, principalmente, servirem de mapa oral aos visitantes. Mas, no litoral, seus donos escolhiam nomes estranhos e surrealistas. O palacete usado por Man Ray hoje é, por ironia do destino, propriedade dos trabalhadores de uma empresa de construção. A última cena do documentário mostra esses operários afixando uma placa que devolve o nome original ao lugar.

El paciente interno

O diretor mexicano Alejandro Solar Luna não sabe onde está Carlos Castañeda. Mesma dúvida que o levou a iniciar, em 2009, uma investigação sobre o paradeiro e a história do autor de atentado contra o presidente ditador Gustavo Bolaños, há 43 anos.

se deus vier...A diferença é que agora Solar tem em mãos uma aguda denúncia dirigida a um governo que trancafiou Castañeda num hospital psiquiátrico da Cidade do México, ministrando doses pesadas de remédios com tarja preta, sem fazer qualquer acusação formal. Fatos que estão retratados no filme El Paciente Interno.

Apresentada na mostra competitiva do Cine Ceará, festival ibero-americano que realizado no início do mês, a produção revela os tristes bastidores do sistema psiquiátrico durante o tempo que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) ficou no poder (de 1929 a 2000), usado para punir opositores.

Não deixa de ser curioso que o filme está sendo lançado nas salas mexicanas justamente no momento em que o PRI retoma o comando do país, “fazendo um diálogo entre uma época de grande repressão e o hoje”, como destaca Luna, que só conseguir concluir seu projeto porque os partidos de oposição estavam no comando.

Só assim para o cineasta ter autorização para entrar em albergues e sanatórios da capital mexicana, após tomar contato com a história de Castañeda numa reportagem de jornal. Luna concebeu o filme como uma narrativa de investigação, contratando um detetive para, em cinco semanas, descobrir o que aconteceu ao ex-”paciente”.

Castañeda ficou preso até 1993, quando uma advogada analisou minuciosamente o prontuário de cada interno do Hospital Psiquiátrico Samuel Ramírez Moreno, levando à tona casos de injustiça. Entre eles o do homem que, em resposta ao massacre de Tlatelolco, em 1968, quis matar o Bolanõs.

O autor do atentando, que acertou um tiro na lataria do carro do presidente, ficou confinado num pavilhão em que os próprios enfermeiros não tinham a chave. Foi a advogada que, por acaso, encontrou Castañeda nas ruas e contatou Luna. “Pedi a ela para tirar uma foto com celular para o localizarmos mais tarde”, lembra.

Pouco depois o personagem já estava no quadro de sua câmera. O diretor passou algumas horas fazendo imagens de Castañeda sem abordá-lo. “À noite, fui até ele e, em cinco minutos, ele já tinha me dito que tentara matar o presidente. Ele confiou em mim e contou sua história”.

Luna descobriu que aquele senhor sexagenário quis cometer o assassinato porque o governo havia autorizado policiais a metralhar centenas de estudantes que protestavam em Tlatelolco, dez dias antes do início dos Jogos Olímpicos no México. Descobriu também que o ato dele foi marcado uma “ação” divina.

“O que fez foi um silogismo: como o povo mexicano era majoritariamente católico, o massacre foi contra Deus. Logo ele precisava matar o presidente”, destaca Luna. Sua “Bíblia” era um livro intitulado “Hector”, de Jorge Grau, que falava da participação dos católicos na Revolução Mexicana de 1910.

Coincidentemente, a vitória dos revolucionários levou o PRI ao poder. “Era um partido de esquerda que foi mudando até virar de extrema direita. Bolaños se tornou, guardadas as devidas proporções, o nosso Pinochet”, compara o diretor, que, após ajudarCastañeda,levando-o para albergues, o viu novamente se perder entre as ruas do México.

Um balanço e os premiados

Luiz Zanin, O Estado de S. Paulo (SP)

cineceara premiados

FORTALEZA – O sofisticado Emak Bakia, do basco Oskar Alegria, foi o grande vencedor do 23 Cine Ceará. Além do troféu Mucuripe de melhor filme, levou os prêmios de melhor som e também o troféu da crítica. O filme mostra a busca por uma casa citada em obra de Man Ray, nos anos 20. Emak Bakia, em basco, significa apenas “Deixe-me em paz”. Através de um processo associativo, próprio do surrealismo (e da psicanálise), Alegria investiga o que se esconde por trás das palavras e das imagens. Talvez mais palavras e mais imagens, mas a obra é um elogio da busca e da aventura intelectual.

O segundo mais bem votado foi o brasileiro Se Deus Vier que Venha Armado, com os prêmios de direção (Luis Dantas), fotografia (Hélcio Alemão Nagamine e ator (Ariclenes Barroso). É um filme ambientado em São Paulo por ocasião do segundo ataque do PCC e monta sua história sobre figuras variadas – um egresso do sistema carcerário em liberdade para o fim de semana; um menino de periferia, manco de uma perna e apaixonado; uma garota de classe média que dá aulas em bairros carentes e um policial truculento, que só pensa em vingar seus camaradas mortos.

O delicado Rincón de Darwin ficou com os troféus de roteiro e direção de arte. É mais um exemplar do cinema sutil, minimalista e levemente melancólico que vem sendo produzido naquele país.

O outrora muito forte cinema cubano se fez representar por O Filme de Ana, que rendeu o troféu de melhor atriz a Laura de la Uz. A trama é muito engenhosa, pelo menos até seu desfecho. Fala de uma atriz frustrada que percebe sua chance com a chegada de uma equipe alemã que deseja fazer um documentário sobre a prostituição em Havana. Ana resolve passar-se por “ginetera” e a interpreta de maneira tão convincente que os alemães ficam encantados. Resolvem até passar-lhe a câmera para que documente o seu meio ambiente em toda intimidade. Nessa engenhosa oscilação entre ficção e realidade, entre o fingir e o ser realmente, o diretor Daniel Diaz Torres consegue manter o interesse até quase o final. Então, um desfecho inconvincente tira pontos desse filme de outra forma bastante interessante e significativo sobre a realidade atual em Cuba.

O poderoso documentário mexicano O Paciente Interno, com seu personagem egresso do massacre da Praça de Tlatelolco, ficou com o Prêmio Especial do Júri. Olho Nu, de Joel Pizzini recebeu o troféu de melhor trilha sonora original, dado a Ney Matogrosso. O cantor estava em Fortaleza e subiu ao palco para receber seu troféu, provocando um certo delírio no cinema.

Numa premiação em que imperou o distributivismo, o único concorrente que saiu de mãos abanando foi o excêntrico Solidões, do cantor e agora cineasta Oswaldo Montenegro. Se, como se diz, o estilo é o homem, pode-se dizer que esse destrambelhado ensaio poético, documental, existencial, filosófico-metafísico sobre a solidão contemporânea tem tudo a ver com a estética musical do agora diretor. Em seu favor conta o espírito democrático com que ouve as críticas e a devida percepção da proporção das coisas: “Devemos aplaudir quem inventou a penicilina ou Beethoven, que fez nove sinfonias. Nós fazemos quatro ou cinco canções e nos achamos no topo do mundo”. É isso mesmo, só que nem por isso o filme melhora. Sua seleção foi o grande vacilo na curadoria do Cine Ceará.

Que, em seu todo acertou. Está difícil mesmo conseguir filme brasileiro inédito, disputado pelos festivais nos quatro cantos do País. De modo que impõe-se uma certa tolerância. Quanto à parte ibero-americana, foi, como tem sido hábito, mais consiste. Afora o maravilhoso filme vencedor, um ensaio poético este sim dotado de estrutura e consistência, os outros deixaram boa marca nesta edição. Casos do uruguaio Rincón de Darwin e do mexicano O Paciente Interno. Mesmo o mais convencional Mercedes Sosa serviu para mostrar o quanto está viva a cantora argentina na memória coletiva. E o cubano O Filme de Ana, apesar da fragilidade final, serviu para recordar como já foi inventivo o cinema da Ilha, com sua crítica sutil ao sistema, a permanente dúvida dos cidadãos entre ficar e emigrar, e os recursos à metalinguagem como forma de reflexão sobre o cinema, e também sobre a vida.

Tudo somado, com seus debates, seminários e mostras paralelas, tivemos um belo festival em Fortaleza. A casa nova, nas salas do Dragão do Mar, conferiram ao público um grau de conforto que não tinham em edições anteriores. Isso também é importante.

Premiação

Longas

Emak Bakia – melhor filme, de Oskar Alegria, som (Abel Hernández), Prêmio da crítica

Se Deus Vier que Venha Armado – direção (Luis Dantas), fotografia (Helcio Alemão Nagamine), ator (Ariclenes Barroso)

O Filme de Ana – atriz (Laura de la Uz)

Rincón de Darwin – roteiro (Diego Fernándes Pujol), direção de arte (Gonzalo Delgado)

O Paciente Interno – Prêmio Especial do Júri

Mercedes Sosa – A Voz da América Latina – edição (Luciano Origlio)

Olho Nu – trilha sonora original (Ney Matogrosso)

Curtas

Jessy, de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge – melhor filme

Sanã, de Marcos Pimentel – direção, Prêmio da crítica, Prêmio Canal Brasil

O que Lembro, Tenho, de Raphael Barbosa – roteiro

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Um comentário sobre “Cine Ceará 2013- Outras considerações

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