Dossiê Prêmio Abraccine 2019: Melhor Filme Brasileiro

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

 

“Desde O Som Ao Redor, Kleber Mendonça Filho gosta de trabalhar com metáforas e com camadas em seus roteiros. Nada é apenas o que parece na superfície. Em Bacurau isso não é diferente, mesmo os estereótipos são quebrados com personagens que demonstram profundidade, não podendo ser encaixados em tipos ou mesmo em funções dramáticas. Ao mesmo tempo não há um protagonista, e sim, uma comunidade que converge em objetivos que também vão além de simplesmente sobreviver.”
Amanda Aouad

Bacurau mistura ação e reflexão no mesmo produto. É um filme forte, intrigante, provocador, mas é também uma aventura, muito envolvente. Por isso, pode ser visto como um filme de gênero, embora não esteja preocupado em seguir cartilhas ou convenções. Fala ao sentimento do público, mostra uma violência que tem de ser decifrada e que, afinal, nos leva a algumas conclusões. Talvez distintas, para cada grupo de espectadores. Mas que deve mexer com todo mundo, de um jeito ou de outro.”
Antonio Carlos Egypto

“Em paralelo, a estética foge ao que seria considerado ‘polido’ para uma grande obra do circuito de festivais: a imagem é saturada demais, contrastada em excesso, enquanto a fotografia permite cenas superexpostas do sertão nordestino e a montagem aposta em recursos de transição incomuns, para não dizer anacrônicos. O espectador pode levar cerca de uma hora se questionando onde de fato a trama pretende chegar, até que o roteiro comece a fornecer suas primeiras resoluções e completar a leitura dos estranhos símbolos propostos. Em outras palavras, os diretores não facilitam a vida do espectador médio, propondo uma longa introdução hermética antes de mergulhar nos prazeres das produções B.”
Bruno Carmelo

“A grande vantagem do filme é que essa forma de ser e de pensar não parece idealizada ou glamorizada; existe muito da Bacurau do longa em diversos locais pelo Brasil, sobretudo no Nordeste, onde, a despeito da carência material, o senso de empatia e de humanidade ainda não se perdeu. O filme é um canto de amor a uma das características que o nordestino tem de mais admirável: sua capacidade de resistir e enfrentar as adversidades, sem perder a capacidade de ter compaixão e o respeito pelos demais. Mas, igualmente, de se impor quando a situação exige.”
Bruno Ghetti

“Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles criam uma fábula de invasão e vingança para falar da realidade de um país que não se conhece e faz questão de não olhar para si mesmo. Bacurau vai buscar em grandes nomes do western e da ação de tempos idos referências para subverter a lógica de um gênero, destrói mitos cristalizados pelo próprio cinema para se aproximar de uma realidade que só existe por aqui.”
Cecilia Barroso

“Kleber, desta vez dirigindo com o parceiro Juliano Dornelles, trata isso como uma espécie de subversão de expectativas, que parte do retrato que ele faz de sua região até chegar na própria condução da trama. Em primeiro lugar, mesmo localizado no coração do sertão, o Nordeste de Bacurau é verde, e a fotografia de Pedro Sotero foge dos clichês e da luz estourada para filmar o local. Isso porque o roteiro usa a comunidade da história para denunciar uma certa visão que subestima o Nordeste (e o nordestino) como um lugar frágil, indefeso, revelando-o, na verdade, como insubmisso – a típica desconfiança interiorana aqui é menos matuta que estratégica.”
Daniel Oliveira

“Mas, ao contrário do que os gringos possam esperar, não há passividade na espera da população de Bacurau. Como Sete Samurais, eles aguardam, herdeiros de uma trajetória de sobrevivência. Nem o descaso da classe política, nem a exploração do capital, nem a abordagem colonial do estrangeiro derrubam Bacurau. Orgulhosamente perguntam a cada pessoa que entra se ela visitou o Museu da Cidade, sempre recebendo respostas repletas de descaso e desdém. Não por um acaso, o Museu e a Escola passam a ser os espaços da resistência local: o primeiro como o lugar próprio da memória; a segunda protegendo as crianças que a herdarão.”
Isabel Wittmann

“Nesse futuro distópico onde mortes também são oferecidas como opção para fuga, como bem mostra a notícia vista em uma televisão ligada, encontrar a força da resistência sanguinolenta em um símbolo histórico como um museu é por demais recompensador. A História nos ensina muito. Porém, olhar ao nosso entorno e percebê-la como algo que parece inútil para 57 milhões de eleitores é por demais desanimador.”
João Paulo Barreto

“Mais do que uma suspensão ou esvaziamento da narrativa, nessa forma de se compor, o filme assume o corte abrupto diante do choque de perspectivas, de formas de invenção e fruição de mundo. Corte seco de um regime de encenação sobre o outro, da violência racializada, das desigualdades entre as partes, da fricção da invasão colonizadora com a resistência comunal. Assume-se sem síntese, sem neutralidade estabilizadora do encontro assimétrico. Os seus diretores produzem então, nesse desequilíbrio, um desdobramento ético e estético do filme que criam.”
Kênia Freitas

Bacurau desliza sobre essas camadas de intenções, utilizando o marketing e o mercado como forma de ampliar seu alcance. Entre o cinema-de-gênero e o cinema político, entre o filme-mantra da esquerda-festiva e a capa da Cahiers du Cinema, Bacurau – o filme – vai promovendo um percurso suave sobre essas possibilidades, flanando como um verdadeiro filme-coral.”
Marcelo Ikeda

Bacurau é uma espécie de repositório de parte das influências cinematográficas dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, lugar-cinema onde pulsa a intensidade do faroeste, gênero norte-americano por excelência, aqui devidamente sorvido, processado e regurgitado na tela com sabor de feijão de corda. Diferentemente de associações mais diretas de outrora do cangaço com as tramas ambientadas no Velho Oeste estadunidense, num movimento conhecido como “nordestern”, os realizadores utilizam a base da mítica dos cowboys para promover uma narrativa intensa e socialmente enraizada.”
Marcelo Muller

“O processo de renascimento do povoado é impulsionado não apenas pelo enterro de Carmelita, mas pelas condições de penúria e isolamento extremos. Essa tensão entre interior e exterior é ampliada pela intromissão de um grupo de forasteiros. Aqui, temos a relação entre controle e vigilância expressa de diversas formas – da moradora que, à entrada do vilarejo, avisa aos locais por rádio de quaisquer visitas não usuais ao drone em forma de disco voador (e, pensando bem, o que fazem os discos voadores na Terra não é uma forma altamente sofisticada de vigilância?).”
Maria Caú

“Os diretores e roteiristas estão dispostos aqui a ampliar este encontro para além do Brasil e de um contexto social, debatendo os conflitos do próprio cinema no país, entre essa herança relegada por muitos e a inescapável referência de excelência e/ou sucesso que vem do exterior. Tal qual à imagem de resistência apregoada ao filme depois de suas primeiras exibições no território nacional, abrindo o Festival de Gramado e nas pré-estreias das últimas semanas, este debate que não é novo nas telas, mas, na comicidade de Lisbela e o Prisioneiro (2003), de Arraes, e Cine Holliúdy (2013), de Halder Gomes, ele não ganhou a mesma relevância que a antropofagia cinematográfica proposta por Bacurau, seja pela reverência ao trabalho de Kleber ou pelo clima atual que exacerba suas leituras.”
Nayara Reynaud

“Nesta distopia ambientada no sertão pernambucano num indefinido futuro próximo, mesclam-se drama social, faroeste, suspense, terror e ficção científica, tudo isso enraizado em abundantes referências brasileiras, aos filmes de cangaço e ao Cinema Novo, inclusive na música (com direito a citação ao compositor Sergio Ricardo). Por todos estes sinais que embaralha, Bacurau se apresenta como uma crônica do desconforto, como um filme que pretende desafiar o espectador a se entregar ao que não decifra e seguir junto – o que é a mais legítima aspiração de qualquer cineasta.”
Neusa Barbosa

“Claro que, paralelo a essas questões narrativas, existe a alegoria política e social. Não dá para não relacionar o Nordeste atacado por supremacistas estrangeiros aliados ao poder, em Bacurau, com o Brasil atual, da extrema-direita no poder, revanchista contra a região que, no geral, votou contra sua ascensão. O contra-ataque de Bacurau é a metáfora da resistência do Nordeste.”
Renato Félix

PODCAST
Cinema na Varanda, com Chico Fireman
Cinematório Café, com Renato Silveira

Confira o TOP 10 com os melhores filmes brasileiros de 2019.

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