por Cecilia Barroso*
Ruas em conflito, praias que guardam lembranças, casas tomadas por tensões familiares, estradas que conduzem a reencontros e desencontros. O recorte analisado pelo Júri Abraccine na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – primeiros e segundos filmes realizados por mulheres – reúne títulos bastante distintos em linguagem e proposta, mas unidos por uma atenção especial aos espaços. Cada um deles encontra um elemento fundamental da narrativa no território onde se desenrola a ação.
Em A Batalha da Rua Maria Antônia, Vera Egito reconstrói o confronto entre estudantes da USP e do Mackenzie durante a ditadura militar. A rua do título concentra a disputa política e vira palco dos medos e desejos de uma geração. Já em Sem Coração, Nara Normande e Tião buscam a luz e o calor para transformar o litoral alagoano dos anos 1990 em matéria viva de memória e descoberta.
A centralidade do espaço reaparece em Pedágio, de Carolina Markowicz, que faz da periferia e de seus trajetos cotidianos um retrato de aprisionamentos morais e afetivos. O deslocamento constante da protagonista nunca produz liberdade. Ao contrário, evidencia os limites impostos por uma visão de mundo que ela tenta preservar a qualquer custo.
Tanto em Dois Sertões, de Fabiana Leite e Caio Resende, quanto em Porto Príncipe, de Maria Emília Azevedo, os caminhos percorridos se aproximam da experiência. Em tela, vemos lugares marcados por aqueles que os habitam ou deixaram de habitar e, longe de serem cenários passivos, são organismos vivos, capazes de transformar relações e trajetórias.
Em A Festa de Léo, Luciana Bezerra e Gustavo Mello a ação se concentra em uma celebração que reúne diferentes pessoas em um mesmo espaço. A casa torna-se um ponto de encontro, mas também um palco de revelações e conflitos. Algo semelhante acontece em O Barulho da Noite, de Eva Pereira, em que o ambiente doméstico abriga silêncios e presenças difíceis de ignorar.
A relação entre pertencimento e deslocamento se apresenta de forma diferente em O Estranho, de Flora Dias e Juruna Mallon. Seus personagens ocupam lugares sem jamais dominá-los por completo, deixando uma sensação de inadequação que contamina a própria paisagem. Já Mulheres Radicais, de Isabel Nascimento Silva, observa mulheres que reivindicam espaços historicamente negados, enquanto Termodielétrico, de Ana Costa Ribeiro, amplia a escala da discussão ao aproximar corpos e território.
Visto em conjunto, o recorte do Júri Abraccine desenha um mapa singular do cinema brasileiro contemporâneo feito por mulheres. Um mapa feito de experiências, com ruas, praias, sertões, casas e cidades surgindo como lugares de disputa e de transformação. Espaços em que os personagens procuram compreender o mundo e encontrar seu lugar nele.
*Cecilia Barroso fez parte do Júri Abraccine.

