
Oeste Outra Vez acompanha Totó e Durval, dois homens abandonados pela mesma mulher no sertão de Goiás. Incapazes de lidar com a perda, eles transformam a frustração amorosa em uma guerra particular, marcada por perseguições, emboscadas e violência.
Ficha técnica
Direção e roteiro: Érico Rassi
Elenco: Ângelo Antônio, Babu Santana, Rodolfo Vaz, Tuanny Araújo
Direção de fotografia: André Carvalheira
Montagem: Leopoldo Nakata, Erico Rassi
País: Brasil
Ano: 2024
Veja o que associadas e associados da Abraccine estão falando sobre o filme.
TEXTOS
Apesar de ambientado no interior de Goiás, Oeste Outra Vez se resolve em um universo muito particular, uma terra de solidão sem grandes especificidades temporais.
André Guerra, Diário de Pernambuco
Nesse mergulho no cerrado, impressiona o cuidado da fotografia para retratar o sentimento sufocante desse cenário tirano. Rimando também com a trilha sonora quase meditativa, o clima áspero emerge quando esses homens precisam conversar e percebemos que são apenas vazios, preenchidos de uma caricatura repetida por gerações.
Arthur Gadelha, O Povo
A decorrência disso tudo é que, para tentar recuperar uma mulher perdida para um outro, o mais comum é querer matar o concorrente, ou melhor, mandar matá-lo. A crença é a de que desse modo ela voltaria ao “lar” anterior. Nada mais pueril e primitivo.
Antonio Carlos Egypto, Cinema com Recheio
Em contrapartida, surpreende o humor refinado e constante ao longo da narrativa. O diretor possui carinho por seus pés-rapados, mas também adora rir da situação absurda em que se encontram.
Bruno Carmelo, Meio Amargo
Há méritos significativos nas variadas contribuições artísticas, a julgar pela qualidade do roteiro (de Rassi), da concepção visual e do trabalho do elenco, cabendo destacar as atuações de Rodger Rogério e Antônio Pitanga, que vive um homem assombrado pela solidão.
Daniel Schenker, O Globo
O tema, por sua vez, ganha força na mise-en-scène que salienta o que seria um mundo sem mulheres.
Eduardo Kaneco, Leitura Fílmica
São essas camadas que criam a tessitura naturalista de Oeste Outra Vez em seu lugar, que bebe do cinema de gênero de tradição estadunidense sendo traduzida para a nossa realidade, sem deturpar as culturas.
Francisco Carbone, Cenas de Cinema
A trama segue, criando habilmente ideia do vazio dessa disputa, de modo que Erico Rassi significa aqui o vazio do machismo, que se sobrepõe à paixão e a encobre. Ou por outra: revela uma única paixão autêntica e bem narcisista, a da demonstração sem fim do machismo, da qual a mulher não é mais que um pretexto.
Ignácio Araújo, Folha de S.Paulo
É um belo filme, de ritmo lento, mas nunca enfadonho, que nos faz sentir o vazio da existência daqueles personagens através dos planos precisos, das belas composições e pela exploração da natureza, por meio da fotografia de André Carvalheira.
Ivanildo Pereira, Cine Set
Despojado, parcimonioso, seco como deserto, o filme de Erico Rassi ambienta-se no cerrado goiano, onde homens brutos matam-se uns aos outros, não por valentia, mas por pura fragilidade.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão
Talvez a mais notável sacada do roteiro (também de Rassi) é que não há mulheres em cena. Afora um mecanismo para o próprio diretor não se comprometer com lugar de fala que não é seu, esta ausência permite a leitura de que as mulheres cansaram, ou, cansaram ao menos de um certo tipo de homem.
Ivonete Pinto, Cinema Escrito
A direção de fotografia de André Xará Carvalheira revela o sertão goiano, a partir dos planos abertos, em que os homens permanecem minúsculos subjugados à esterilidade e ao clima castigador.
Márcio Sallem, Cinema com Crítica
Esse é um filme radiográfico, visceral, para se ver os pulmões frágeis do nosso país, os rins secos e os fígados cansados de filtrar tanta cachaça. A vida sombria se afirma sem a presença feminina, que se manda, para escapar da vida opressiva reservada para si.
Marco Fialho, Cinefialho
Temos em Oeste Outra Vez uma representação perfeita da masculinidade tóxica, paradoxalmente inserida em uma obra de teor feminista. Como isso é possível se não há mulheres com destaque no elenco? Apenas uma aparece no início, de costas e indo embora. É justamente a ausência delas que confirma e reforça esse caráter feminista. Os homens estão sozinhos e a solidão os brutaliza e revela marcas do passado e uma completa desesperança.
Marden Machado, Cinemarden
Rassi não está interessado em explicitar contextos históricos ou econômicos. Fixa seu olhar nas vidas miúdas e violentas de seus personagens. Em seus atos e desejos. Porém, com sutileza, ele mostrará grandes carretas, carregadas de soja e milho, que cruzam, ao longe, a paisagem. Elas são, intuímos, a fonte geradora da riqueza dos donos do agronegócio.
Maria do Rosário Caetano, Revista do Cinema
As falas são rarefeitas, deliberadamente econômicas, como se a linguagem tivesse perdido sua função comunicativa. Os personagens de Rassi vivem num mundo esvaziado de sentido, presos em repetições, inércia e ressentimento. É no não dito, nos gestos truncados, nos olhares desviados, que o filme constrói sua poética do colapso.
Paulo Camargo, A Escotilha
Ao nos levar aos tempos do faroeste e da fundação da sociedade, Rassi nos diz que o homem está cada vez mais atrelado a sentimentos que não vislumbram um entendimento de futuro. Esse homem está falido, como bem mostra os instantes finais, quando surgem solitários, bebendo e dançando para afugentar a dor.
Paulo Henrique Silva, O Tempo
Tudo é feito de forma orgânica, preservando os silêncios e a obtusidade que ditam as relações em um ambiente seco e desprovido de laços que perdurem.
Robledo Milani, Papo de Cinema
Oeste Outra Vez é um filme de homens que não sabem amar, não sabem conversar e não sabem resolver seus problemas como adultos funcionais e civilizados.
Rodrigo Torres, Revista Cine Café
Com sua narrativa objetiva e de poucos e secos diálogos, Oeste Outra Vez inscreve-se na tradição do western crepuscular, em que não há lugar para heróis moralmente autossuficientes, lembrando ainda os policiais cínicos dos irmãos Joel e Ethan Coen como Gosto de Sangue (1984) e Fargo (2014), onde os destinos costumam ser regidos e vitimados pela estupidez e a aleatoriedade.
Roger Lerina, Matinal Jornalismo
Do mesmo modo que falar só em cinema clássico é perder aspectos essenciais do filme, falar em cinema americano, em Ford, Hawks, Eastwood, Altman, por mais que sejam referências válidas, é perder o quanto o filme é brasileiro.
Sérgio Alpendre, Sérgio Alpendre
Rassi não exclui então os símbolos clássicos, nem os modifica por completo, mas faz deles piadas sobre e com aqueles homens.
Victor Russo, Filmes & Filmes
O radicalismo de Oeste Outra Vez finca raízes não só nessa sensibilidade contemporânea, mas também na sua própria condição de cinema periférico. Um western não-americano, latinoamericano, brasileiro, pode olhar criticamente para o imaginário do gênero sem precisar carregar excessivamente nas tintas da ironia, mantendo uma compaixão sincera por seus personagens patéticos…
Wallace Andrioli, Plano Aberto



Pingback: Dossiê 15º Prêmio Abraccine - Melhores do Ano - Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema