A escolha do olhar

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Fabrício Cordeiro*

Um ano, 13 planos, um para cada jantar de uma família migrante na China. O núcleo, concentrado principalmente em um barraco minúsculo (quarto, sala e mesa de jantar estão num único cômodo), é apresentado de imediato: o pai trabalhador, operário de construção; a mãe, dona de casa; a avó, já muito idosa e sob os riscos do acaso e da fatalidade; a filha adolescente, estudante; um casal de crianças pequenas. Todos eles interagem e se espremem dentro do quadro, em meio às camas, mesas, roupas, televisão e quinquilharias diversas.

Um Outro Ano exige paciência. Não apenas por sua duração (181 minutos) ou pelo registro rigoroso daquilo que é mundano, mas também porque cobra um olhar para o que é pequeno, para o que geralmente não se vê ou não é digno de atenção. Cada plano é introduzido pelo mês a que se refere, e é possível que a compreensão desse olhar se anuncie somente por volta de março ou abril, ou seja, com mais de meia-hora de parentes reunidos. Para cada plano, porém, a jovem diretora Shengze Zhu opta por uma posição diferente de câmera, alterando a nossa perspectiva em relação ao quarto, mudanças movidas não por aleatoriedade (não se trata de deixar o filme “menos chato”), mas pelas próprias alterações na organização familiar. É dessa pequena matemática que nasce seu poder de observação.

Embora esteja constantemente rodeado de uma aparente monotonia, o método de Um Outro Ano aponta para pequeninos abalos sociais e, sobretudo, para um mapeamento econômico e afetivo deste que é um dos pilares da ideia de sociedade e país: a família. A longa duração dos planos se torna crucial para tal efeito, insistindo (jamais estimulando: os planos parados e “enfadonhos” de Zhu nos colocam quase como outro membro da família; aqueles cômodos e aquelas pessoas também precisam ser objetos da rotina do nosso olhar) para que olhemos além do óbvio, ultrapassando o que é dado de imediato e reservando, assim, tempo para micro informações.

Por meio das repetições – os próprios jantares são repetições de uma convenção social –, por exemplo, descobrimos certos hábitos: o pai que, ao chegar do trabalho para jantar, sempre bebe uma garrafa de cerveja e sempre a cada série de quatro goles; o atrito sufocante entre a mãe a sua filha adolescente; mais uma vez o pai e sua mania de limpar o nariz à mesa; os riscos nas paredes; a decoração; entre outros. No entanto, talvez as principais repetições e que tomam conta de praticamente todo mês/encontro/plano sejam os temas de conversa. Ainda que reúna, de maneira mais próxima ou distante, quatro gerações, as conversações da família sempre orbitam em torno das mesmas questões: economia (o custo de determinado item, salário, gastos gerais, pretensões, preocupações, etc), comida (assunto incentivado, claro, pela situação do jantar) e, não surpreendentemente, o que está passando na TV, elemento onipresente daquele lugar.

Tudo isso se repete, mas, ecoando um pouco as diferentes versões de vida capturadas pelo cinema de Hong Sang-soo (cineasta que também traz nas refeições um caráter elementar da vida humana), cada corte lidera o movimento de uma peça, de modo que em cada plano pelo menos um membro familiar está ausente ou retornou por algum motivo. Do mês de janeiro para fevereiro, há uma saída brusca da avó, que reconfigurará certos níveis do relacionamento entre eles, inclusive levando-nos, a partir de certo ponto, para outra casa, em outra província. O mês de março, fechado no pai e na adolescente, é dos mais reveladores: inicialmente arredia, é na ausência da mãe que a jovem parece se sentir mais à vontade e dócil, amistosa e respeitosa – não por acaso é o plano que apresenta o enquadramento mais fechado, próximo dos dois; a TV finalmente transmite outro canal, já que, na ausência dos filhos pequenos, não precisa estar sintonizada em programas infantis que os entretenham (neste plano, a câmera toma posição similar à da TV, num contraplano quase debordiano); a falta da mãe também desorganiza o jantar, que não só é comprado (pela filha, que não gostaria que o pai chegasse cansado do trabalho e ainda tivesse de cozinhar) como passa a acontecer em outro horário (o relógio na parede permite que nos situemos no tempo).

Neste filme de três horas em que cada plano estático dura, em média, 15 minutos, Zhu abre uma janela de imersão para o ambiente de convivência cotidiana entre os parentes (de sua própria família, salvo engano), permitindo que o espectador se familiarize com os detalhes, as minúcias e as características de cada indivíduo e de cada relação. Não só: ao se impor um filme dispositivo, comprometida a dividir sua montagem por mês e dirigir seu olhar para determinada situação (os jantares), a diretora também coloca Um Outro Ano diante das contingências da vida. Há, com isso, uma interessante tensão entre as regras, a disciplina do dispositivo proposto, e o respeito pelo tempo, pelo sentido de passagem e, com ele, de mudança. O que pode acontecer com uma mesma família durante 12 meses? O que pode acontecer com uma família de um mês para o outro? O que poderia ser sinalizado através outra montagem de planos, outras escolhas?

No geral, o clima é pesado. Somos inseridos numa espécie de redoma onde há exposição e aspereza, falas duras e ações possivelmente questionáveis, mas que se tornam entendíveis a partir do momento que a câmera, isenta e fisicamente distanciada no espaço, se mostra capaz de abrigar um imenso leque de complexidades em processo de ininterrupta ebulição. Delineia-se um perfil para cada membro da família, respeitando sua existência inegociável, aconteça o que tiver de acontecer. Os grilhões da vida, apesar – ou por causa – dos acasos, das fortunas e das infelicidades que nos aguardam em algum momento do calendário. As rotinas, no entanto, não se desfazem. Talvez se liquefaçam em alguma medida, mas, no interior familiar, resistem pelos subterrâneos invisíveis ao olho nu. O Ano Novo nada tem de novo. Há muito deixou de ter. Mais um jantar. Mais um ano que se inicia, podendo ser outro ano completamente diferente, mas igual a todos os outros, exceto pela maneira como decidimos observá-lo. A escolha estará sempre no olhar.

* Fabrício Cordeiro é realizador, editor da Revista Janela () e integrante da equipe de curadoria da Goiânia Mostra Curtas. Membro do júri Abraccine no 5º Olhar de Cinema de Curitiba. 

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