Clara e a resistência

Crédito: Victor Jucá

Ângela Prysthon*
Uma das recorrências mais marcantes do cinema de Kleber Mendonça Filho é a tentativa de ruptura com certo padrão de caracterização regional que tenderia ao folclórico e ao caricatural. Ainda que apareçam a “cor local”, o sotaque, a crônica urbana recifense, seus filmes evitam a celebração efusiva dos tipos regionais, o determinismo naturalista e a histeria folclórica que povoavam muitos dos filmes pernambucanos, sobretudo aqueles feitos pelos cineastas que começaram a aparecer na década de 1990.

Dos curtas até “O som ao redor” (2012), Kleber optou por não recorrer às imagens usuais do Recife (planos aéreos de suas pontes, cenas nas ruas mais antigas, edifícios abandonados ou mercados animados e exóticos) para privilegiar os planos dos arranha-céus monótonos perto da Praia de Boa Viagem e os interiores anódinos de classe média. A banalidade da crônica de rua e os personagens de vários segmentos sociais diferentes formam a base da sua visão crítica: a cidade, as paisagens de um emergente Nordeste brasileiro e do país como um todo, as ruínas de um passado não distante, como se esses elementos fossem os instrumentos diretos para a leitura do contexto mais amplo.

Mas, evidentemente, suas preocupações não são apenas temáticas. Ele descarta o tratamento cinematográfico convencional em favor de um tempo específico, de um ritmo narrativo particular e de uma atmosfera mais própria ao cinema contemporâneo (que alguns diriam “de festival”), mas ao mesmo tempo mantendo muitos traços e alusões ao cinema de gênero e ao mainstream. Em “Aquarius” (2016), KMF mantém-se em grande parte fiel a essa estética e reafirma sua intenção em apresentar imagens mais inusitadas e inesperadas do Recife a partir dessa combinação do realismo contemporâneo, da revisão da história recente da cidade e do repertório variado de citações cinematográficas, musicais e culturais.

Emergem, contudo, dois elementos até então quase ausentes no seu trabalho: o foco numa personagem central (a crítica de música Clara, interpretada por Sônia Braga) e uma dramaturgia mais delineada – derivada justamente desse foco. A primeira parte de Aquarius endereça o passado muito diretamente, primeiro nas fotografias de Alcir Lacerda dos créditos de abertura (como já em “O som ao redor”), seguidas pela boa reconstituição da Avenida Boa Viagem em 1980.

Aquarius mantém um certo didatismo nos diálogos – sobretudo na primeira parte –, agravado talvez pela dramaturgia mais convencional e por uma maior abertura ao típico, às referências turísticas/históricas tradicionais (a alusão à sorveteria Fri-Sabor, as cenas no Clube das Pás e no restaurante Leite). As citações e os modos como a música aparece (tanto sonora, como visualmente) são fundamentais para a textura do filme. Se, em alguns momentos, eles perdem a sutileza, caindo na armadilha reiterativa desse roteiro mais novelesco, é preciso ressaltar que eles não são meros apetrechos nostálgicos, cartões-postais ou marcadores culturais, eles são, ao mesmo tempo, símbolos e instrumentos da resistência de Clara e da cidade.

“Aquarius” trata exatamente da ideia de resistência, da resiliência de uma mulher contra o apagamento. Apagamento de diversas sortes: dos modos de vida, da cidade, da sexualidade, de artefatos culturais, de memória. E o filme busca revidar, desafiar esse estado de coisas, através dos pequenos atos de rebeldia da protagonista, das suas mínimas insurgências. Mas também na sua própria materialidade, seja apagando as infames “torres gêmeas” do Cais de Santa Rita numa das cenas aéreas, seja povoando de fantasmas e rastros inesperados do passado que rasuram o presente, buscam vingança, por mais tímida que essa possa ser.

Entretanto, o que realmente define Aquarius é Sônia Braga. É ela quem dá o tom do filme, quem imprime sua elegância. Não apenas por sua condição de estrela, ou por funcionar narrativamente como o centro da trama, ou por incorporar Clara numa atuação simultânea e paradoxalmente intensa, afetada e natural. Tudo isso incide sobre a força da sua presença, sem dúvida. Porém, parece que é a sua presença que ilumina e permeia o filme, contagiando os outros atores, estabelecendo uma certa unidade em torno de si e transformando com altivez os próprios espaços filmados.

* professora, pesquisadora e crítica de cinema; texto originalmente publicado na Revista Continente

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