Dossiê 43ª Mostra SP: Livro Curtas

CURTA BRASILEIRO: 100 filmes essenciais

Sérgio Rizzo

A contribuição da Abraccine para a bibliografia de referência em cinema brasileiro ampliou-se durante a 43ª Mostra Internacional de São Paulo com o lançamento de “Curta Brasileiro: 100 Filmes Essenciais”, organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva. É o quarto volume de parceria entre a associação, a editora Letramento e o Canal Brasil, inaugurada por “100 Melhores Filmes Brasileiros” (2016) e que prosseguiu com “Documentário Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2017) e “Animação Brasileira: 100 Filmes Essenciais” (2018).

A exemplo do que já havia ocorrido nos três volumes anteriores, “Curta Brasileiro” nasceu de pesquisa entre os associados e convidados com base em pré-lista de 200 títulos preparada por Arnaldo Galvão, Filipe Furtado, Heitor Augusto, Sheila Schvarzman e Zita Carvalhosa. Optou-se pela seleção de obras de até 50 minutos, “partindo do conceito de que não foram comercializadas ou distribuídas na janela do longa em festivais e afins”, como explicam os organizadores. Textos analisam cada um dos 100 filmes escolhidos, com um adendo substancial de 23 artigos sobre a trajetória do curta no Brasil.

Do gaúcho “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado, o previsível número 1 do ranking, até o paulista “Frankenstein Punk” (1986), de Eliana Fonseca e Cao Hamburger, que fecha a lista, os filmes representam majoritariamente a região Sudeste (74), com Pernambuco (8) à frente da Bahia (6) na forte representação nordestina (18 no total). Apenas quatro foram produzidos na região Sul e outros quatro na Centro-Oeste, e nenhum veio da região Norte. Os anos 1970 emplacaram 24 títulos, contra 23 dos anos 1960 — que, no entanto, têm 6 curtas entre os 10 que encabeçam o ranking.

O mais antigo é “Os Óculos do Vovô” (1913), de Francisco Santos, na 53ª posição; o mais recente, “Guaxuma” (2018), de Nara Normande, no 27º lugar. A produção do século 21, aliás, está muito bem contemplada, com 22 filmes. “Vinil Verde” (2004), de Kleber Mendonça Filho, é o primeiro a aparecer no ranking, em 13º lugar. Entre os cineastas que despontaram no século 21, Kleber divide com André Novais Oliveira o maior número de menções, três para cada — o primeiro com “Vinil Verde”, “Recife Frio” (2009), em 16º, e “Eletrodoméstica” (2005), em 29º; e o segundo com “Fantasmas” (2010), em 31º lugar, “Quintal” (2015), em 38º, e “Pouco Mais de um Mês” (2013), em 84º

Em uma lista que reúne filmes de diretores como Humberto Mauro, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Andrea Tonacci, Rogério Sganzerla e Leon Hirszman, talvez surpreenda a muitos que aquele com o maior número de curtas selecionados seja Aloysio Raulino (1947-2013). Foram cinco: “O Porto de Santos” (1978), em 40º; “O Tigre e a Gazela” (1977), em 45º; “Jardim Nova Bahia” (1971), em 57º; “Lacrimosa” (1970), codirigido por Luna Alkalay, em 64º; e “Teremos Infância” (1974), em 78º. Além de notável curtametragista, Raulino dirigiu um longa (“Noites Paraguaias” , 1982) e foi diretor de fotografia de “O Homem que Virou Suco” (1981), de João Batista de Andrade, e “Serras da Desordem” (2006), de Tonacci, entre muitos outros.

Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) e Ivan Cardoso vêm em seguida, com quatro títulos cada. O diretor de “Macunaíma” (1969) e “Os Inconfidentes” (1972) obteve um feito notável, emplacando quatro filmes entre os 22 que abrem a lista: “Couro de Gato” (1962), em 5º; “Vereda Tropical” (1977), em 15º; “O Poeta do Castelo” (1959), em 21º; e “Brasília: Contradições de uma Cidade Nova” (1967), em 22º. De Cardoso, diretor de “O Segredo da Múmia” (1982) e “As Sete Vampiras” (1986), foram selecionados os curtas “À Meia-noite com Glauber” (1997), em 33º; “Nosferato no Brasil” (1971), em 69º; “HO” (1979), em 82º; e “Moreira da Silva” (1973), em 87º.

Um dado revelador da dominação masculina no cinema brasileiro: 87 dos 100 filmes do ranking foram dirigidos por homens. Três foram codirigidos por um homem e uma mulher, e apenas 10 têm direção solo de mulheres. Entre eles, cabe destacar “Mulheres de Cinema” (1976), de Ana Maria Magalhães, em 70º lugar. No texto sobre o filme, Susy Freitas observa que ele “contempla a trajetória de figuras célebres frente às câmeras”, ao mesmo tempo em que “traça linhas gerais de uma história menos visível, contemplando diretoras, produtoras e outras personagens envolvidas com o trabalho criativo na área”. “Ainda que conte com ausências significativas em sua narrativa, sua função introdutória e instigante permanece até hoje”, afirma. A propósito: entre os 112 coautores de “Curta Brasileiro”, 29 são mulheres.

O tema é abordado também nos artigos “Mulheres no curta-metragem brasileiro: uma longa história”, de Karla Holanda, “Como desfazer o apagamento permanente?”, de Camila Vieira, e “De objeto a sujeito(s): pretos, pretas e cinema”, de Heitor Augusto. Outros recortes especialmente complementares aos textos sobre os 100 filmes selecionados são os artigos “Cinema queer”, de Carol Almeida, “O cinema de bordas e o curta-metragem”, de Rogério Ferraraz e Laura Cánepa, e “Curta-metragem indígena e as metamorfoses do documentário”, de Alfredo Manevy.

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