Tremor Iê : o manifesto contra a faxina da fé

Por Ivonete Pinto

Uma das primeiras observações que podemos fazer ao ver Tremor Iê, passado  mais de um ano de seu lançamento em festivais, é que se trata de um filme Tiradentes life style. Para o bem e para o mal. Para o bem, por todas as razões que serão expostas aqui; e para o mal, porque o festival mineiro carimba os filmes que por lá passam,  autoriza certos maneirismos de linguagem que foram resumidos justamente por um frequentador de Tiradentes, o crítico argentino Roger Koza, como “international style” (ele se referia a um perfil de filmes de festival, cuja tese cabe aqui). Um sistema carregado de planos desnecessariamente longos,  em codificações que limitam por demais seu alcance de público. Se Jean-Claude Bernardet já apontava que O Som ao Redor possuía  códigos de linguagem que dificultavam a adesão de um público maior,  imagina-se um filme em que muda o registro de atuação das atrizes, passando do teatral-recitativo ao realista, sem maior aviso. Mas esta é a feição do filme, é sua proposta de comunicação com seu público, seja ele do tamanho que for. De certa forma, é a cara da Sessão Abraccine também, que busca resgatar produções que poucas chances tiveram – ou teriam – em um circuito mais ampliado e colocá-las em discussão.

E dentro do espírito de debate,  vale destacar quea produção assinada pelas diretoras estreantes em longa  Elena Meirelles e Lívia de Paula pode ser visto como um filme-manifesto. Ok, todo filme é um manifesto de seus criadores. De A Última Tentação de Cristo à Bruna Surfistinha, têm-se ideias defendidas por um certo ponto de vista que formam uma declaração X ou Y. Mas em Tremor Iê, este manifesto é explícito, pois evidencia na forma e nos diálogos as suas declarações. Em um país no futuro, um regime totalitário assume o poder. Um regime comandando por um estado-empresa, que isola as pessoas pobres em suas casas na periferia de uma grande cidade. A única presença externa é da autoridade, representada por policiais mascarados com um figurino branco de lutador de esgrima. Um mundo distópico, assegurado  pela mão do Estado vigiando e controlando.

Ao enredo minimalista de Tremor, pode-se ainda acrescentar que tudo tem início com a personagem Janaína (Lila M. Salu) escapando e uma prisão em Fortaleza, por estar envolvida nas manifestações de 2013. Este enredo se desenvolve mais pelo relato do que pela imagem. Ao encontrar a amiga Cássia (Deyse Mara), temos duas sherazades lembrando o passado para explicar e planejar ações do presente. Como um País foi parar naquela situação de ficção científica? O que o golpe de 2016 tem a ver com isto? A entropia que vira distopia.

Neste mundo-fim-de-mundo, no qual temos claras indicações que de que tenha começado  em 2013, ano fatídico como germe do desmonte da democracia, sobraram as mulheres. Mais mulheres do que homens, pelo menos. Pichações como  “Fora Cunha” datam o enredo, mas não limitam o manifesto, a proposta  orwelliana dele. Na verdade, em função do governo atual, o enredo não fica circunscrito ao tempo de Cunha, ele é premonitório. O nome do ditador da ficção é Chico Cunha e quem sabe hoje temos uma versão piorada do dito-cujo. Uma frase deixa isto explícito: “Eles falam que são soldados do bem, chamam a gente de irmã, mas na real são só maquiagem. A violência é a mesma”.

Os diálogos são imensos, mas não só no registro teatral citado. O estilo recitativo é abandonado para dar lugar às falas realistas com jeito de improvisadas,  que passam informações sobre a polícia, a violência, o período na prisão que as personagens centrais passaram.

Se a performance das atrizes não é seu ponto forte, as soluções da direção de arte cumprem a função narrativa com criatividade, principalmente por ser  uma produção de baixíssimo orçamento. E é  preciso ressaltar que Tremor, além de seu componente distópico, altamente político, militante feminista, tem uma carga de crítica social considerável. As personagens são pobres, moram em lugares precários, andam descalças ou com chinelos de dedo. Do quintal da casa, vemos a cidade ao longe, com os arranha-céus habitados pela outra classe. Não temos acesso aquele lugar, em como estarão enfrentando o totalitarismo, mas não é difícil concluir que todo aparato repressor está voltado aos pobres, à periferia. O apartheid social é evidente, as câmeras são  onipresentes e não se trata de proteção, mas de vigilância mesmo.

A mais bem sucedida sacada da direção de arte possivelmente seja o túnel criado para os policiais identificarem as pessoas. Simples, rudimentar até, diz muito do filme. Uma solução  que a despeito do visual modesto, tem a força de nos  remeter a uma grande produção como 1984 (Michael Radford, 1984 ). Por sinal, dos 15 livros mais vendidos no Brasil na pandemia, dois são de George Orwell, um deles, “1984”. Sinal de que estamos ligados aos projetos  totalitários de controle. Mais ou menos como os filmes de Adirley Queirós, com os quais Tremor dialoga numa escala mais curta.

Quanto ao aspecto manifesto-feminista, uma outra referência pode ser buscada, entre tantas. As palavras de ordem cantadas  “Se a polícia me prende , a rainha me solta”, lembram a diretora argentina Albertina Carri, de As Filhas do Fogo (2018). Não exatamente pelas palavras de ordem, mas por ser ela também militante de um cinema que discute política através da exposição dos corpos e do sexo (sobretudo lésbico).  Em Tremor estamos num mundo igualmente de mulheres que se protegem, que se completam, que sobrevivem unidas, mas que habitam uma periferia que as difere das personagens argentinas. Estas se banham em piscinas e não parecem ter grandes problemas de dinheiro. O chão batido do quintal das brasileiras, os pés descalços, o calor, as confrontam a outro universo. Mais cru e de uma resistência, talvez, mais urgente porque mais violenta.  

Além das duas diretoras, também as duas atrizes principais assinam o roteiro, com a participação de  Petrus de Bairros.  Guto Parente, colorista do filme, e que ali faz uma ponta, simboliza uma identificação conceitual.  Ele está por trás dos projetos mais inventivos de um cinema brasileiro de uns 10 anos para cá, voltado para a experimentação narrativa através dos títulos da produtora Alumbramento, com roteiros que infiltram,  em meio ao clima pesado,  momentos de humor e ironia. Em Tremor, dois deles chamam a atenção: a placa onde se lê “Uma praça público-privada para você”, e o plano das amigas de roubar os restos mortais de Castello Branco, que, admitamos, é uma sacada e tanto. Tudo embalado pela música do grupo Tambores de Safo, que tem um forte poder narrativo,  trazendo  embutido o debate feminista.

Mulheres que resistem, que constroem uma experiência de vida em uma comunidade sitiada e que se expressam de um jeito que nem todos lugares podem compreender e aderir aos seus manifestos. Mas que há um público que busca este manifesto, não há dúvida. Lugares como Tiradentes, por exemplo.

Em sua mistura de elementos,  Tremor Iê é a bollywood-cearense-feminista-funkeira que surge como  resposta à  faxina da fé prometida pelo regime comandado por Chico Cunha.  A sua maneira, o filme é bem aterrador, nos esfregando na cara a pergunta: qual parte do fundo do poço a gente não entendeu ainda?

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