Tremor Iê: Estratégias do cinema

Por Luiz Joaquim*

Quando exibido no programa Aurora da Mostra Tiradentes, em janeiro de 2019, Tremor Iê, de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, foi projetado para uma Cine-tenda (cerca de 700 pessoas) lotada. Coletivo em diversos aspectos, o filme foi escrito a dez mãos, incluindo as de Deyse Mara, Lila M. Salú, Petrus de Barros e das duas diretoras; com todos(as) também no elenco.

O grupo criou aqui mais uma ficção cientifica cearense. “Mais uma” porque o Estado tem aparecido com bom volume de obras do gênero nos últimos anos, e elas são bem-vindas. A crítica pernambucana Carol Almeida, convidada da Mostra para debater Tremor Iê naquela 22ª edição do evento, destacou essa peculiaridade, inclusive nominando alguns curtas-metragens: Boca de loba; Cartucho de Super Nintendo em anéis de Saturno; e Antes da encanteria, do coletivo Chá das Cinco.

São títulos os quais a crítica se referiu como donos das imagens mais “delirantes” criadas pelo nosso cinema atual. E nós aproveitamos para incluir Medo do escuro, outro cearense já emblemático nesse campo, dirigido por Ivo Lopes Araújo e exibido na 18ª Mostra de Tiradentes.

Tremor Ié nos apresentam um futuro (futuro?) distópico. Nele, vivemos numa nação controlado pelo ditador Chico Cunha, não há polícia, mas há os “homens de bem” fardados, de branco (BRANCO, a direção de arte diz algo aqui), que fazem o mesmo serviço repressor da polícia contra os menos favorecidos dessa sociedade; ou seja, a negra, pobre, lésbica. “Bom era no tempo da Xuxa”, diz melancolicamente, a certa altura uma personagem ao lembrar de Chico Cunha.

O fio condutor do enredo nos mostra a fuga de Janaína (Lila M. Salu) de seu calabouço numa prisão em Fortaleza, para onde foi jogada na ocasião de sua prisão por ter participado de uma manifestação em 2013.

De volta à rua, ela escuta palavras de ordem pautadas pela fé e patriotismo, e vê símbolos onipresentes do novo poder, reforçando que os “homens de bem” tem liberdade absoluta para fazer o que quiserem.

Ao reencontrar a amiga Cássia (Deyse Mara), Janaína toma pé na nova/velha repressão e ambas, reunidas com outras amigas, decidem roubas os restos mortais do Marechal Castelo Branco para, daí, barganhar a liberdade de outras presas políticas.

Quem viu o filme em Tiradentes, parecia concordar que o momento mais forte em Tremor Iê está no reencontro de Janaína e Cássia, particularmente no diálogo formado pelos longos monólogos que cada uma delas profere; descrevendo seus perrengues derivados de autoridades violentas, as quais ambas foram vítimas – uma na prisão e a outra nas ruas – por causa de sua cor e/ou de sua orientação sexual. Perrengues que, claro, estão historicamente enraizados no establishment da cultural hegemônica branca.

Os dois monólogos do filme cearense têm força a partir do que nos conta (nos fazendo “enxergar” pela palavra), mas, aqui, eles têm tipos de elementos ricos e próprios. Um é a autenticidade do discurso, em sua forma e em sua origem, uma vez que ele, o discurso, vem da boca de Lila e Deyse, verdadeiras militantes da causa (é, portanto, autêntico); além do que, o que é dito é dito num linguajar raramente representado/reconhecível pelo cinema brasileiro.

O fato de termos acesso ao que é dito e como é dito pela boca dessas vítimas, faz desses monólogos algo muito especial no cinema. E especial é também a solução visual para como a cena é construída: na escuridão da madrugada, no quintal de uma casa suburbana, sob a luz tremulante de uma fogueira, ora revelando, ora escondendo o rosto, identidade dessas mulheres.

Novamente citando a fala de Almeida no debate em Minas Gerais, a crítica pernambucana fez uma bela relação desse contexto do filme com os estudos do escritor/pesquisador martinicano Patrick Chamoiseau. Ela explicou que para o pesquisador há, na literatura (seu campo de estudo), um imaginário dominado na linguagem. E a estratégia para minar isto é trabalhar com o próprio idioma a seu favor, ou seja, confundir seus leitores com a própria linguagem, apropriando-se em sua escrita de um idioma historicamente subjugado para construir uma estratégia narrativa contraventora.

“O cinema também pode usar dessas estratégias”, arrematou Carol Almeida. E, nos parece, que é mesmo isso o que se vê assistir Tremor Ié.

*Luiz Joaquim é vice-presidente da Abraccine

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