37º Curta Kinoforum | Questões de gênero

Por Jéssica Frazão

Na 37ª edição do Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, a Abraccine integrou, pela primeira vez, o júri de um dos mais tradicionais festivais brasileiros dedicados ao curta-metragem. Nossa tarefa era escolher, entre vinte produções da Mostra Brasil, o trabalho de maior destaque realizado por cineastas em primeira ou segunda direção.

O recorte me pareceu especialmente pertinente ao refletirmos sobre o lugar que o curta-metragem historicamente ocupa na trajetória de novos realizadores. Qual outro formato conseguiria condensar tão bem o humor, as paixões e os conflitos, lançando olhares sobre experiências que dificilmente encontrariam o mesmo espaço em circuitos mais comerciais? Foi justamente isso que o Kinoforum apresentou nesta edição: realizadores emergentes experimentando e mobilizando o cinema para falar de memória, identidade, resistência, deslocamento, marginalização, deboche.

Entre as sessões que particularmente me chamaram a atenção esteve a Mostra Brasil 12 – Fantasmas In-pertinentes, da qual também participou o curta DIU, de Camila Schincaglia, vencedor do prêmio concedido pelo nosso Júri Abraccine. Havia algo de desconcertante na sua exibição,  pela maneira como convocou o espectador a se relacionar com os personagens e situações que recusam qualquer posição confortável diante da tela: Em DIU, o desconforto é parte fundamental, tornando clara a violência dramática que os corpos femininos são submetidos em tantos e tantos filmes. 

A Mostra Brasil 12 permite aproximar DIU de alguns curtas que parecem interessados em uma mesma ideia de corporeidade: o momento em que meninas atravessam o limiar da juventude e descobrem que crescer significa também ter seus corpos submetidos a novos olhares, expectativas, ameaças e formas de controle. O adolescer, nesses filmes, não significa uma etapa de amadurecimento. É, antes, experiência social: Como nos proteger em um mundo misógino que ameaça a existência de meninas e mulheres, sem, com isso, suprimir nossos desejos? Como reivindicar espaço para que todas possam ser aquilo que desejam ser?

Brasa, de Diane Maia, vencedor do Prêmio Aquisição Spcine Play e escolhido pelo público entre os dez curtas brasileiros favoritos desta edição do Kinoforum, explicita de maneira particularmente sensível essa tensão. Analu, aos 16 anos, enfrenta uma gravidez em uma região rural do Brasil. A situação é atravessada por duas experiências afetivas opostas: de um lado, encontra o acolhimento da mãe, de outro, enfrenta o abandono do namorado. O curta parece interessado nas relações que se reorganizam em torno da personagem: a escola, a maternidade, o abandono,  a exaustão, os sonhos e a responsabilidade. Enquanto o rapaz simplesmente se retira da situação, algo tão frequente no Brasil, é sobre o corpo e o futuro de Analu que recaem imediatamente as consequências da gravidez.

Também premiado com a Menção Honrosa do prêmio Zita Carvalhosa, Mira, de Daniella Saba, percorre caminho semelhante ao colocar em primeiro plano a tensão entre desejo e expectativa social. Mira imagina para si uma vida como caminhoneira. Entretanto, à medida que as transformações da adolescência modificam a maneira como seu corpo é percebido pelos outros, tudo vai desabando. Mira  se torna inadequada à medida em que está se tornando uma mulher desejante. Mira, contudo, é insistente. Ela não pretende renunciar à vida que deseja construir.

Por fim, não deixo de citar o premiado Boiuna, de Adriana de Faria, que se insere na proposta a partir da figura da cobra-grande, uma espécie de metáfora das experiências de abuso que atravessam a vida de meninas ribeirinhas no Pará. Considero muito acertada a escolha da lenda para falar de tema tão difícil como é o abuso, justamente porque desloca uma violência concreta para o território do fantástico sem esvaziá-la de sua dimensão social.

As personagens Analu, Mira e Mara, meninas adolescentes protagonistas, vivem realidades bastante distintas, mas seus corpos são atravessados por sexualização, violência e expectativas de gênero que independem de lugar. Ao mesmo tempo, tão vivo como nunca está nelas o desejo, a imaginação, o afeto e o enfrentamento. Os curtas em questão trazem uma temática de opressão que conhecemos bem, mas sua maior força está na reivindicação de futuro.

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