37º Curta Kinoforum | Um futuro que já começou

Por Joyce Pais

Há pouco mais de dez anos, quando comecei a integrar júris de festivais, o recorte de cinema brasileiro que chegava às telas era muito menos plural. A discussão sobre diversidade concentrava-se, em grande medida, na presença ainda escassa de mulheres na direção. Raça, território, transgeneridade, povos indígenas e outras interseções pareciam pertencer a uma etapa seguinte da conversa. Falávamos em novas vozes como quem projetava um cinema futuro, sem saber quando ele ganharia corpo.

Assistir aos filmes elegíveis ao Prêmio Abraccine no 37º Kinoforum tornou esse deslocamento especialmente nítido. As assimetrias não desapareceram — as disputas em torno do acesso ao financiamento e à circulação/distribuição seguem fundamentais —, mas já não é possível dizer que essas vozes estão apenas por vir. Elas estão filmando e sua presença modifica quem ocupa a tela, assina a direção, bem como as formas e os lugares a partir dos quais o cinema brasileiro passa a se imaginar.

A própria geografia da seleção diz muito. A Pele do Ouro, realizado em Roraima, parte dos diários de uma migrante venezuelana para revelar a condição das mulheres no garimpo amazônico; Caldeirão, do Piauí, embaralha arquivo, memória e presente; O Mapa em que Estão Meus Pés vem de Alagoas; Os Arcos Dourados de Olinda faz de Pernambuco o ponto de partida para confrontar uma imagem globalizada do país. Mais do que novos pontos no mapa, sotaques, paisagens, memórias e modos de narrar.

Nos corpos, o movimento é ainda mais eloquente. Trivakra transforma a hormonização travesti em matéria de experimentação audiovisual; Comunhão acompanha lésbicas com mais de 50 anos celebrando desejo e liberdade; Abocanhada ocupa a tela com desejo lésbico sem pedir licença; Lactação tensiona as representações patriarcais do corpo que gesta e amamenta; enquanto Núbia investiga corpo, erotismo e noite. João-de-Barro e Brasa atravessam, por registros distintos, gravidez, aborto, religião e violência. DIU, escolhido pelo júri como vencedor, leva esse deslocamento ao horror, apropriando-se do sangue, da agressividade e do explícito a partir de uma autoria feminina.

E há DUWID TUMINKIZ – MAKUNAIMA É DUWID?, nossa menção honrosa. Gustavo Caboco Wapixana retorna às raízes Wapixana de Macunaíma e faz da primeira pessoa um lugar de disputa da História. Essa talvez seja a síntese dessa transformação: inserir outros personagens em estruturas conhecidas se tornou insuficiente. Transformar, portanto, demanda alterar quem narra, de onde se narra e, consequentemente, o que reconhecemos como cinema brasileiro.

O futuro que durante tanto tempo invocamos como desejo já começou. Ainda não pleno, pacificado ou igualitário, mas suficientemente concreto para que, olhando para trás, possamos finalmente perceber a distância percorrida.

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