Dossiê/Balanço para o 40º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO

Quando solicitamos colaborações dos associados da Abraccine para a confecção de um dossiê/balanço a respeito do Festival de Gramado não esperávamos tanta disposição e colaboração. Postaremos agora as matérias, críticas, balanços gerais e os diversos comentários para o filme O Som ao Redor (de Kleber Mendonça Filho), na “conta” de cada colaborador. Dessa maneira, a leitura pode representar passeios diversificados pelos instantes do evento, o que pode repetir-se na leitura seguinte, com impacto diferente decorrente da diversidade de pensamento. Bom e longo proveito!

 

 

 Por Ivonete Pinto

Gramado: 40 anos e um lamento

Em 2003 escrevi na revista Teorema um balanço do Festival de Cinema de Gramado. Naquele ano, a qualidade dos longas nacionais estava sofrível, num nível que nos envergonhávamos frente aos filmes latinos. A imprensa não especializada ignorava tal fato e ao contrário, comemorava o desfile de celebridades no tapete vermelho.  O artigo defendia a necessidade do evento ser gerido por uma fundação, criada especialmente para este fim. Enquanto a Prefeitura estivesse provendo o festival, os filmes continuariam em segundo plano, pois o objetivo primeiro sempre foi atrair turistas e movimentar o comércio local.

Continuamos defendendo a mesma tese, mas admitindo, tal como admitíamos lá em 2003, que a fundação era algo difícil, se não impossível de ser viabilizada, pois o município não abriria mão do controle de evento tão importante.

A contingência que dá base ao certame é a mesma, o que mudou é que por razões de ordem legal, que não cabe aqui detalhar, o evento ficou sob intervenção do Ministério Público, teve suas contas bloqueadas e não pode captar recursos até a véspera desta que foi a 40ª edição.

O interventor – por iniciativa dele ou não,  desconheço – chamou entidades ligadas ao cinema (entre outras, a Assoc. de Críticos de Cinema do RS/ACCIRS e FundacineRS) e começou a tratar da organização. Nova produtora para captar recursos, nova diretoria executiva, nova curadoria para os longas nacionais e latinos, nova assessoria de imprensa. E a secretaria municipal que gerencia o festival, a do Turismo, também estava sob nova direção.

Não discuto aqui méritos ou deméritos de quem entrou e de quem saiu, mas o fato é que as entidades puderam colaborar com um formato de festival menos tapete vermelho e mais filme de qualidade. Uma das entidades, o Instituto Estadual de Cinema, também ajudou a conseguir recursos junto ao governo do Estado, mas ainda assim era preciso fazer o evento com metade do orçamento previsto (os cerca de 5 milhões caíram para 2,5). A falta de dinheiro, no entanto, não derrubou o festival. Graças à qualidade da equipe de envolvidos, incluído o empenho das entidades, e à qualidade de filmes inscritos, a 40ª edição pode ser comemorada não só por ter acontecido, como por ter acontecido com êxito em seu conjunto, em especial quanto aos filmes concorrentes.

Mas não sejamos ingênuos. É  circunstancial que a qualidade das produções inscritas tenha sido como foi porque o festival de Paulínia, que teria alguns títulos selecionados  em Gramado, foi cancelado e possibilitou esta migração. A boa  safra de curtas, tanto nacionais como locais, talvez independa de Paulínia, mas a mostra de longas nacional deve muito ao município paulista. Como a mostra latina não tinha nada a ver com isto, ficou sob as intempéries do tempo exíguo do trabalho da curadoria e os filmes concorrentes refletem bem estas intempéries: sem nenhum vigor, com exceção do filme mais premiado, Artigas, de César Charlone (Uruguai/Brasil).

Desse modo, antes que entremos num torpor de comemorações, é preciso pensar Gramado 2013. Pensar no que significa o possível retorno de Paulínia para um cenário  de festivais que disputa bons filmes e onde nesta disputa valores de premiação entram em jogo. Não ter pago os prêmios em dinheiro nesta edição, pela contingência, poderá ter consequências mais graves se o fato se repetir no ano que vem.

 

Os erros ao redor

Muito de uma certa euforia que tomou conta dos últimos dias do festival deve-se à experiência de ter assistido O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho. A expectativa era grande em função dos promissores curtas do diretor e pela repercussão do seu longa de estreia na ficção (já havia realizado anteriormente um documentário longa, Críticos) em festivais internacionais. E devemos a esta nova curadoria (Rubens Ewald e Marcos Santuário) a inclusão desse título, por sinal recusado no último festival de Brasília. Se curadorias e júris podem ser elogiados por seus acertos, também podem ser criticados pelos seus equívocos.

 Um dos melhores filmes brasileiros depois de Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006), O Som ao Redor não foi aceito em Brasília, nem premiado pelo júri oficial como melhor filme em Gramado. Ou seja, dois diferentes grupos não viram nele o que a crítica e júri popular em Gramado (que de popular só guarda o nome, é júri de cinéfilos de carteirinha) viram.  O fato de não ter levado o kikito de melhor filme do júri oficial não chega a provocar grande estranhamento, tendo-se em conta o perfil dos jurados. Alguns deles, publicamente, após a cerimônia alegaram que não poderiam ignorar a plateia. Conclui-se, então, que o melhor filme para este júri foi Colegas  porque a plateia decidiu.

 Estima-se Colegas, de Marcelo Galvão, por trazer para a tela atores com síndrome de Down. Isto é magnânimo, mas não eleva sua potência cinematográfica por si só. O filme não  elabora a linguagem, em termos estéticos não traz nada novo, em termos narrativos igualmente; Também, em que pese o olhar sobre as minorias, não é capaz de propor uma visão aguda  da sociedade brasileira;  Não faz pensar. É filme para rir e nisto é bem-sucedido. Entretanto, o fato do público tê-lo aplaudido com entusiasmo não seria razão suficiente para o júri oficial dar a ele o kikito  de melhor filme (o júri popular, se popular fosse, certamente faria sentido). Por que ele venceu? Porque o júri acreditou que deveria respeitar a opinião do público e não atentar para o seu  papel que é, a partir de sua capacidade técnica, reconhecer filmes que apontem para novas tendências. Filmes cuja contundência estética, narrativa e temática possam enriquecer a cinematografia nacional. Um júri deveria ter a capacidade de perceber o potencial que um filme tem de entrar para a história ou de ser descartado num piscar de olhos.

Evidentemente, aqueles que escolhem os nomes para compor um júri, têm responsabilidade crucial e nem sempre enxergam esta responsabilidade. Na pressão do tempo – e dos recursos – acabam negligenciando parte importante de um festival.

 Colegas, o simpático filme de Galvão, se fosse uma música, poderia tranquilamente vencer um festival de MPB. E como o festival de Gramado não se chama Festival de Cinema Popular, o kikito representa um prêmio fora de lugar. E fora de lugar porque havia concorrentes que contemplavam requisitos artísticos superiores, como O Que se Move, de Caetano Gotardo, e Super Nada, de Rubens Rewald. Os dois  deixam aqui e ali alguma coisa a ser preenchida ou revista, mas O Som ao Redor transborda superioridade. Sem concessões, é  o mais bem-sucedido quanto  ao binômio forma e conteúdo e o que mais pensa o Brasil contemporâneo. Dele este dossiê já se ocupa em desenvolver reflexões de maior alcance. Fico aqui com a circunferência do festival e o trabalho dos júris.

Há quem acredite que filmes mais elaborados devem ser considerados apenas pela crítica. O que é um engano, mas parece razoável pensar que se alguma sintonia deva existir é entre os júris da crítica e os oficiais e que os júris populares é que respondem por outro tipo de olhar. Em festivais maiores, há ainda júris mais segmentados, como os compostos por associações de diretores de fotografia e os júris ecumêmicos representando a Igreja. Mas em todos o júri oficial é de quem se cobra escolhas ousadas, que possam servir de vetor para o cinema. Confirmar os aplausos do público é tarefa por demais desconectada e irrelevante.

Vencer o Festival de Gramado nos últimos anos não é garantia de audiência, sequer de lançamento assegurado. O lamento vai mais para o próprio festival que deixou de ter O Som ao Redor como seu 40º filme premiado do que para a carreira dessa produção pernambucana. A soma de atributos do filme poderia provocar uma pequena  revolução no cinema nacional, sendo discutido aos quatro ventos. Infelizmente, por ser um filme pequeno em termos de orçamento, teme-se por uma  certa cegueira da imprensa, via de regra sempre mais ocupada em gastar caracteres com  Batman e afins. Paulo Emílio faz falta.

 

 

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Ups e downs de Gramado

 Uma avaliação realista atesta a boa seleção brasileira, filmes latinos regulares, curtas de alto nível e acertados primeiros passos da nova organização da mostra gaúcha

Veredito final: faltou cinema e sobrou emoção discutível ao júri oficial de longas metragens brasileiros do 40º Festival de Gramado, dirigido pelo veterano e semiaposentado cineasta Roberto Farias. O vencedor segundo os jurados, a divertida e abusada comédia on the road Colegas, recebeu além do que merecia. O Prêmio Especial do Júri, dado ao ótimo trio “down” formado por Breno Viola, Rita Pokk e Ariel Goldenberg, já estaria de ótimo tamanho, complementado ainda com o Kikito atribuído à eficiente direção de arte de Zenor Ribas. Mas o júri preferiu desconhecer os méritos que qualquer outra comissão cinefilamente mais qualificada reconheceria – o título mais completo da seleção nacional, O Som ao Redor – e fez o que fez, reservando apenas um premio importante ao rigoroso drama recifense de Kleber Mendonça, pelo menos ele eleito o melhor diretor. Obviamente antenado e vigilante, o júri da crítica não deixou por menos e deu a réplica, conferindo a Kleber o Kikito de melhor filme brasileiro. E o um surpreendente júri popular fez coro com os críticos e carimbou mais um Kikito de melhor filme para O Som ao Redor. A injustiça, no caso, foi corrigida premonitória e preventivamente…

Entre os demais títulos que brigavam pelos Kikitos, os paulistanos O Que se Move e

Super Nada, respectivamente de Caetano Gotardo e Rubens Rewald, e cada um à sua maneira mostraram qualidades e foram recompensados com merecidos prêmios de interpretação: Fernanda Vianna melhor atriz pelo primeiro e Marat Descartes pelo segundo. Houve quem, justificadamente, reivindicasse o prêmio de interpretação feminino para o trio de grandes mulheres em O Que se Move, mas o júri preferiu ignorar a possibilidade. Os dois documentários, o carioca Jorge Mautner, Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, e Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now , de Ninho Moraes e Francisco Cesar Filho, são temáticos mais ou menos no mesmo viés, agradáveis de ver e informam satisfatoriamente sobre seus temas. Mas diferem na forma do discurso. Nova discrepância desinformada do júri, ao oferecer os Kikitos de roteiro e fotografia a Tropicalismo Now. Em ambas categorias os candidatos mais evidentes eram O Som ao Redor e O Que se Move, mas…

Restaram de fora da premiação os anódinos Eu Não Faço a Menor Ideia do Que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida (RJ), de Matheus Souza, e Insônia (RS), de Beto Souza. Afinal e de forma coerente, os jurados ignoraram os Souza, que saíram de mãos abanando.

O júri de longas-metragens latinos cumpriu seu papel à altura, mesmo não tendo grande trabalho diante da quase indigência da lista de concorrentes – no mínimo equivocados os documentários Calafate e Leontina , ambos chilenos, e Diez Veces Venceremos, argentino quase chileno. Menos mal o cubano Vinci, quase um média-metragem com sua hora justa de duração. No final deu mais ou menos o óbvio, vencendo na categoria a original cinebiografia do herói uruguaio José Artigas, realizada em coprodução com o Brasil (não reconhecida pela Ancine, a contrapartida brasileira) e levando corpos de vantagem diante dos demais concorrentes.

Na categoria curtas-metragens, uma seleção de peso, perto da excelência. O melhor filme, o baiano O Menino do Cinco, saiu com uma cesta repleta de recompensas, e seus realizadores, Marcelo de Oliveira e Wallace Nogueira, cumpriram centenas de metros subindo e descendo do palco carregando seus troféus. Justíssima a premiação, como também justos o Prêmio Especial do Júri dado a A Mão que Afaga, de Gabriela Almeida, os Kikitos conferidos a Casa Afogada, inclusive o de melhor diretor Gilson Paiva, e a O Duplo, de Juliana Rojas.

A nova coordenação do festival, sob os cuidados da secretária de Turismo de Gramado, Rosa Helena Volk, e de Ralfe Cardoso, da Um Produções, deu conta do recado e ofereceu um evento organizado, sóbrio e equilibrado, visivelmente em busca de mais acertos para a próxima edição, quando então já estará livre do peso de uma comemoração emblemática como foi esta dos primeiros 40 anos.

 

 

Por Daniel Feix

Equilíbrio possível (Superioridade dos longas brasileiros em relação aos latinos pode indicar caminho a Gramado)

Produzida em pouco tempo e com um grande corte de recursos, a festiva 40ª edição de Gramado ficará marcada por duas voltas por cima: a do próprio festival, que ainda pena para pagar dívidas de 2011, e a da mostra competitiva de longas nacionais, que pela primeira vez em muitos anos foi melhor do que a dos filmes latino-americanos.

Será lembrada também pela primeira exibição no Brasil de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (o grande filme do evento), pela inconsistência de todas as produções vindas de fora do país (à exceção de Artigas, La Redota) e, também, por uma mudança no foco das atenções: com poucas celebridades na cidade, em Gramado 2012 falou-se mais de cinema do que dos desfiles sobre o tapete vermelho.

Com um misto de satisfação e alívio, os organizadores circulavam entre o Palácio dos Festivais e o QG do evento comemorando a perspectiva de continuidade de seu projeto – que foi implantado às pressas, pouco mais de três meses antes de seu início, quando uma intervenção federal bloqueou as suas contas a fim de regularizar as dívidas da 39ª edição. Ainda que dependa do resultado das eleições municipais para seguir tocando o festival (a coordenadora-geral Rosa Helena Volk acumula o cargo de secretária da Cultura de Gramado), a equipe já se permite planejar a 41ª edição.

“Temos contratos fechados para dois anos. Quem estiver à frente do festival no ano que vem terá tempo e tranquilidade para trabalhar e não precisará sair do zero em janeiro”, disse Rosa Helena, horas antes da cerimônia de entrega dos Kikitos.

Algo a ser discutido pelos organizadores em 2013, e que é fundamental para definir o perfil de Gramado, é a presença de artistas de televisão na Serra. A escassez desta edição se deveu principalmente ao aperto financeiro, mas nem por isso diminuiu o festival. O que é preciso saber é se o exemplo será seguido daqui por diante, se os organizadores estarão dispostos a investir dinheiro público (via leis de renúncia fiscal) em passagens, hospedagem e mordomias a celebridades de pouca ou nenhuma relação com o cinema ou, ainda, se investirão em parcerias com patrocinadores específicos para trazê-los, algo já realizado nas últimas temporadas.

A questão, vital em se tratando de Gramado, só poderá ser respondida quando a nova coordenação tomar a frente do evento. O que pode ser repensado desde já são alguns de seus aspectos curatoriais. Funcionou, por exemplo, o perfil de valorização de uma certa produção independente nacional, com realizadores já conhecidos mas que ainda estão no primeiro ou no segundo longa, como Rubens Rewald (de Super Nada), Matheus Souza (Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida) e Caetano Gotardo (O que se Move), além de Kleber Mendonça Filho (do já citado O Som ao Redor).

É preciso lembrar, aqui, que a divisão da mostra competitiva de longas-metragens em dois braços, um brasileiro e outro latino-americano, foi adotada devido à fragilidade dos títulos nacionais – premiar mais filmes estrangeiros ajudou a levar Gramado, por tantos anos um espelho confiável do bom cinema brasileiro, à sua propalada crise de identidade. Já que o festival parece ter reencontrado o caminho em seu braço doméstico, talvez seja a hora de se pensar em uma reunificação, o que diminuiria a quantidade de prêmios distribuídos (são mais de 30), aumentando o valor de cada Kikito oferecido.

No palco do Palácio dos Festivais, o apresentador Leonardo Machado anunciou a cerimônia de sábado como “a grande noite do cinema brasileiro e latino”. A frase só se tornará uma verdade se Gramado trabalhar no fortalecimento, também, de seu braço internacional. Enquanto os novos longas do mexicano Carlos Reygadas e do uruguaio Pablo Stoll emendam festivais internacionais desde sua première em Cannes, enquanto o Fantaspoa exibe em primeira mão o representante argentino na corrida do

Oscar (Aballay, de Fernando Spiner), enquanto o novo Carlos Sorín dá sopa por aí, Gramado apresentou apenas cinco filmes latino-americanos, entre eles os precários Diez Veces Venceremos, vindo da Argentina, e Calafate, Zoológicos Humanos, do Chile. Este é um real desafio do festival serrano: tornar homogêneo, em sua proposta estética e no seu nível de qualidade, o recorte de longas-metragens exibidos.

O júri popular também demonstra ter perdido o sentido em sua fórmula atual – ele é constituído de cinéfilos escolhidos pelos críticos dos principais jornais do país, e não simplesmente pela plateia que assiste às sessões no Palácio dos Festivais. Mais uma vez, a decisão do júri popular de Gramado coincidiu com a do júri da crítica – os dois deram seu prêmio principal a O Som ao Redor. A escolha de ambos se mostrou mais ousada do que a do júri oficial – que preferiu Colegas. Levando-se em conta os princípios de cada categoria, trata-se de uma distorção.

É verdade que esta distorção também se deveu ao perfil do júri oficial, que não continha nenhum crítico em sua formação e acabou se deixando levar pela comoção causada por Colegas. O longa de Kleber Mendonça Filho é muito superior em sua construção narrativa e seu retrato impecável da vida da classe média nas grandes cidades pautada pela insegurança, pela grosseira desigualdade social e pela herança coronelista brasileira. Mesmo o drama cômico nonsense Super Nada e o belo e triste musical O que se Move poderiam ter superado Colegas: são dois filmes muitíssimo interessantes que levaram a mostra nacional de longas-metragens para um nível alto e em sintonia com a melhor produção brasileira contemporânea.

O que mais se discutiu nos bastidores de Gramado 2012 foi a anunciada – e não concretizada – premiação em dinheiro aos vencedores. É fato que oferecer uma bolada ajuda a motivar cineastas e produtores a inscreverem seus filmes. Mas há outros aspectos a serem repensados. De pé depois de uma nova queda, um dos mais tradicionais festivais do continente parece pronto repensá-los.

 

A premiação comentada:

Longas-metragens brasileiros

Conservador, o júri oficial errou ao não reconhecer O Som ao Redor como melhor filme. Também poderia, em vez de ter escolhido Fernanda Vianna, ter dividido o prêmio de melhor atriz entre as três atrizes-cantoras de O que se Move (as outras duas são Cida Moreira e Andrea Marquee). Além de O que se MoveSuper Nada também merecia mais. E Jorge Mautner: o Filho do Holocasto, não merecia tanto, sobretudo o prêmio de melhor roteiro.

Longas-metragens latino-americanos

Artigas, La Redota, de Cesar Charlone, só perdeu os dois Kikitos que poderia perder. É um dos grandes registros audiovisuais do mito do gaúcho e foi disparadamente o melhor filme da mostra latina, até porque os demais decepcionaram – muito embora a fotografia de Leontina e o roteiro de Vinci tenham constituído premiações justas de parte do júri.

Curtas-metragens

Foi uma das melhores mostras de curtas de Gramado em muitos anos. O baiano O Menino do Cinco, com seu retrato sensível do conflito de classes nas grandes cidades a partir da disputa de um menino de rua com outro da classe média pela posse de um cãozinho, era, de fato, o grande filme desta mostra. Mas Di Mello, o Imorrível, merecia mais lembranças. Os prêmios técnicos para o gaúcho Casa Afogada foram todos muito bem concedidos, e só fazem pensar que as produções locais poderiam ter sido mais lembradas na seleção, com curtas como Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni.

 

Algumas Críticas

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida, de Matheus Souza

Havia sentido na sensação causada por Apenas o Fim (2008), filme que o brasiliense radicado no Rio Matheus Souza lançou aos 20 anos a partir da colaboração de amigos, segundo conta, com o dinheiro de uma rifa de whisky. Não se pode dizer o mesmo de Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida, seu aguardado segundo longa. A história da estudante de medicina deslocada (Clarice Falcão), que passa o tempo exercitando atividades que lembram diferentes profissões junto a um amigo (Rodrigo Pandolfo), não tem o frescor do título anterior, além de possuir uma afetação que dá a sensação de se estar diante de algo pouco espontâneo, fake. É tudo muito “fofo” – muitas vezes forçadamente –, para usar uma palavra usada à exaustão pelos personagens do filme e por sua equipe no debate da manhã seguinte.

Entretanto, não deixa de ser positiva a sua escolha para abrir a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros em Gramado 2012. Com seus defeitos, Eu Não Faço… é uma tentativa interessante de dar conta do vazio existencial de pelo menos duas gerações: a do diretor e a de seus pais, que têm participação fundamental na construção dramática. Por se tratar de uma comédia romântica palatável, também dá conta de unir o caráter autoral e a capacidade de dialogar com um público amplo, algo que está no cerne da permanente crise de identidade do festival. E, talvez mais importante do que tudo isso, apresenta momentos de inspiração tanto de texto (o roteiro de Matheus Souza tem tiradas divertidas) quanto de interpretação (filha de João e Adriana Falcão, Clarice é uma Mallu Magalhães de belos olhos azuis cujo talento aparece em diversas sequências, a exemplo daquela em que seu desabafo diante do pai culmina numa reversão de expectativas surpreendente e estimulante).

 

Artigas, La Redota, de Cesar Charlone

É um dos melhores registros audiovisuais já feitos sobre o mito do gaúcho este Artigas, La Redota com o qual Cesar Charlone abriu amostra de longas latino-americanos do festival. A cinebiografia possível do herói “gaucho”, sobre o qual restam as impressões mais contraditórias e nenhuma imagem confiável, é original em sua abordagem, envolvente em sua construção narrativa e corajosa em sua independência.

Uruguaio de nascimento, cineasta brasileiro por sua formação e seu trabalho pregresso realizado em São Paulo, Charlone é o fotógrafo de Fernando Meirelles (indicado ao Oscar por Cidade de Deus) e o diretor e roteirista do tocante O Banheiro do Papa (2007). Mergulhou no trabalho de reconstrução da trajetória de José Artigas (1764 – 1850) a partir dos esforços do pintor Juan Manuel Blanes (1830 – 1901) para criar a imagem do mito conforme se podia imaginá-la algumas décadas após a sua morte. Blanes pintou o mais difundido retrato do fundador da identidade uruguaia usando os desenhos e as anotações de um espião espanhol que considerava Artigas nada além de um criminoso messiânico. À medida que centra o roteiro na viagem e nas consequentes observações deste espião, Charlone não se furta a registrar os questionamentos de seus opositores, o que dá a Artigas, La Redota um caráter não oficialista e uma riqueza dramatúrgica que só os filmes que respeitam as contradições de seus personagens possuem.

É o seu primeiro acerto. A partir dele e ao longo de suas duas horas de projeção, o realizador acaba forjando um herói de discurso sedutor e capacidade  e compreensão política visionária – o que revela sua admiração por Artigas. Também se trata de algo positivo: além de original, envolvente e corajoso, Artigas, La Redota é um filme honesto. Já é um ponto alto de Gramado 2012.

 

Colegas, de Marcelo Galvão

Nenhum outro filme exibido até aqui em Gramado 2012 tocou o público como Colegas. Com razão: muito bem produzido e encenado com rigor, o quinto longa de Marcelo Galvão (de Rinha e Bellini e o Demônio) tem uma capacidade de rir de si próprio que, em se tratando de um projeto protagonizado por portadores de Síndrome de Down, causa no espectador um efeito particularmente estimulante. Longe, muito longe de qualquer sentimento próximo da autocomiseração, Galvão dedicou às pessoas que sofrem com a doença uma comédia com espírito de Road-movie e uma pegada nonsense plenamente compreendida pelos espectadores presentes no Palácio dos Festivais, que o aplaudiram em meio à projeção e, ao final, postaram-se de pé para saudá-lo.

Ainda que empilhe pelo menos uma dezena de rápidas citações cinéfilas, de Psicose a 8 e 1/2, de Jules e Jim a Blade RunnerColegasnão é daqueles filmes “de festival”, que fazem da forma a sua principal força motriz. A trama dos três jovens com Down (Rita Pokk, BrenoViola e Ariel Goldenberg) que, inspirados em Thelma & Louise, fogem da instituição na qual vivem internados em um Karmann Ghiaroubado e tocam o terror numa viagem rumo ao Sul, quer encontrar um público de espírito jovem, disposto à diversão mais descompromissada – que fuja do politicamente correto e faça brincadeiras até mesmo com ofensas como “retardado” e “anormal”. Ao que indica a recepção em Gramado, não terá problemas para fazê-lo. Uma questão que fica: irá o júri de Gramado abraçar a sua proposta ouse deixar levar por projetos mais inventivos como Super Nada, de Rubens Rewald?

 

Diez Veces Venceremos, de Christian Jure

Se Colegas empolgou, o filme latino-americano exibido antes do longa de Marcelo Galvão provocou efeito contrário na plateia do Palácio dos Festivais. Representante argentino da competição, Diez Veces Venceremos é um documentário político sobre a perseguição do Estado chileno a um jovem mapuche (comunidade indígena habitante de regiões do Chile e da Argentina) que desafia as empresas florestais interessadas em ocupar as suas terras. Ele se chama Pascual Pichun e foi condenado à prisão por provocar incêndios criminosos em protesto contra a ocupação de seu território. Fugiu para Buenos Aires, onde cursou jornalismo. A câmera de Christian Jure, autor de outros documentários políticos sobre minorias latino-americanas, acompanha a sua volta às origens, sete anos depois da fuga, para rever a família, instalar uma rádio comunitária que dará voz aos índios locais e, como ele próprio espera, ser recapturado pelas autoridades para cumprir o restante de sua pena.

Os motivos de Pichun e, por consequência, de Jure, são nobres. Sua abordagem, no entanto, é duplamente ingênua: o discurso unilateral resulta numa denúncia frouxa, que deixa o público sem entender objetivamente o processo que culminou com a prisão, e que se amalgama a uma construção formal pobre – Diez Veces… é filmado de maneira precária como certos títulos de festivais etnográficos. É uma pena, porque a causa indígena inspirou filmes que renderam alguns dos bons momentos de Gramado em edições recentes – com Serras da Desordem e Corumbiara, por exemplo. Desta vez foi diferente.

 

O que se Move, de Caetano Gotardo

É estranho e bonito o longa de estreia de Caetano Gotardo, jovem diretor da turma de Juliana Rojas e Marco Dutra, os realizadores de Trabalhar Cansa (2011), que assinam respectivamente a montagem e a música de O que se Move. Triste, denso, candidatíssimo ao Kikito de melhor longa-metragem nacional, o filme é um Dançando no Escuro (2000) brasileiro: como na produção dirigida por Lars von Trier, uma tragédia familiar afeta a mãe, que põe para fora sua dor por meio da música. Em vez de uma, aqui há três mães (Cida Moreira, Andrea Marque e e Fernanda Vianna). Gotardo conta a história da primeira, encerra-a com a canção de sua vida, depois a da segunda e por fim a da última, sempre com a mesma estrutura narrativa.

E sempre com o mesmo talento na sofisticada composição dos planos, na tensão habilmente construída a partir de pistas falsas da tragédia iminente e, sobretudo, nos três desfechos musicais que sintetizam a estranha beleza do filme – com estrutura melódica inabitual, as canções narram detalhada e gradualmente a sequência de fatos que deram origem à tristeza, o que, na voz daquelas três mães, torna-se profundamente tocante. A rigor, o problema de O que se Move é encontrar um público predisposto ao seu ritmo reflexivo, difícil – o que, no fim das contas, nem é um problema do projeto, mas de um contexto exterior.

Quem tem um dilema a resolver é o júri, se não quiser dividir o Kikito de melhor atriz e resolver escolher apenas uma entre as três intérpretes.

 

Vinci, de Eduardo del Llano Rodríguez

Se O que se Move surpreendeu, pode-se dizer que o outro longa exibido na noite de quarta-feira no Palácio dos Festivais cumpriu aquilo que se esperava dele: trata-se do mais curioso entre os competidores de Gramado 2012.

Produção cubana de meros US$ 50 mil, Vinci imagina o que teria ocorrido nos dois meses em que Leonardo Da Vinci (1452 – 1519), à época com 24 anos, esteve preso devido à prática de sodomia em Florença. O aperto financeiro não compromete a realização uma vez que, durante todos os 61 minutos do filme, o que se vê é o mesmo cenário: a cela na qual Da Vinci (Héctor Medina) vai aos poucos usando sua inteligência para driblar a antipatia dos dois criminosos com os quais é obrigado a conviver (Manuel Romero e Carlos Gonzalvo, ambos melhores do que o protagonista).

A trilha sonora referenciada no tempo em que se passa a trama, os movimentos cuidadosamente marcados dos personagens e a fotografia moldada a partir do reflexo da luz das tochas sobre as paredes de pedra enriquecem Vinci, mas não disfarçam sua pobreza de produção – algo difícil de abstrair, em se tratando de um título de época. O melhor do filme são os diálogos que, devagarinho, vão evidenciando a sua real intenção: demonstrar o quanto a beleza da arte pode ser salvadora mesmo para quem parece condenado à obscuridão. Se a competição de longas latinos tivera um grande início com Artigas, mas esfriara brutalmente com Diez Veces Venceremos e Leontina, com Vinci voltou a ganhar –relativa – força.

 

Por Roger Lerina

Algumas Críticas

 

Super Nada, de Rubens Rewald

Duas frases pronunciadas nas coletivas de imprensa dão as (des)pistas sobre os longas brasileiros exibidos na competição de Gramado neste final de semana. “Pra onde eu vou com filme?”, questionou-se diante dos jornalistas o diretor Rubens Rewald a respeito de seu

Super Nada (SP), projetado no sábado. A surpresa e a heterodoxia são realmente duas qualidades do segundo longa do realizador do igualmente instigante Corpo (2007) _ ambos codirigidos por Rossana Foglia. A princípio, Super Nada parece ser um drama cômico sobre um versátil ator paulistano que batalha empregando seu talento em diversas atividades – curiosamente, esse argumento lembra o filme carioca Riscado (2011), de Gustavo Pizzi, que no ano passado rendeu o Kikito de melhor atriz para a ótima Karine Teles.

Lá pelas tantas, porém, a história começa a mudar de rumo, a leveza torna-se plúmbea e o filme toma um caminho narrativo inesperado. A relação entre o faz-tudo das artes Guto (Marat Descartes em soberba atuação, já favorito ao prêmio da categoria) e o humorista popular de TV Super Nada (vivido pelo cantor Jair Rodrigues, em uma corajosa e dinâmica performance em cena) oscila da admiração ao confronto _ um mesmo movimento pendular de empatia e repulsa que os personagens acabam provocando nos espectadores.

Super Nada, o filme, parece tatear em busca de um norte _ mas justamente esse caráter errático, que emula a própria instabilidade existencial do protagonista Guto, contribui para o fascínio enigmático da produção. O humor negro e às vezes nonsense de Super Nada remete ainda às comédias tortas e cáusticas dos irmãos Joel e Ethan Coen. Super Nada destaca-se também pela oportunidade ímpar de ver Jair Rodrigues atuando no cinema _ convidado às vésperas do começo das filmagens, o cantor acrescentou às falas suas características gírias, trejeitos e improvisos.

 

Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!, de Ninho Moraes e Francisco César Filho

O depoimento que sintetiza o longa brasileiro da competição exibido no domingo foi dado pelo músico André Abujamra: “Eu não sei exatamente que filme nós fizemos”. Híbrido de documentário, musical e ficção, Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now! (SP) já anuncia no título suas intenções: os diretores Ninho Moraes e Francisco César Filho estavam mais interessados em investigar a atualidade desse movimento artístico do que em contar como Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros músicos revolucionaram a MPB no final da década de 1960 _ tarefa que deve ser cumprida pelo documentário Tropicália, de Marcelo Machado, que tem estreia prevista para setembro.

O eixo de Futuro do Pretérito são as imagens de um show comandado por Abujamra e gravado no célebre Teatro Oficina, em São Paulo. Acompanhado de banda e uma orquestra de câmara, o músico interpreta as canções do seminal disco Tropicália ou Panis et Circensis (1968), ao lado de cantores convidados _ inclusive o “pai do axé” Luiz Caldas, que veio a Gramado divulgar o filme. Os clipes musicais são costurados com comentários de pesquisadores e intelectuais e por textos ditos pelos atores Gero Camilo, Carlos Meceni e Helena Albergaria _ as dramatizações confrontam com o presente as questões artísticas, estéticas, comportamentais e ideológicas dos tropicalistas. Um dos destaques dessa abordagem criativa _ tropicalista? _ do assunto é a presença em cena de Alice Braga, filha do realizador Ninho Moraes: a atriz aparece como uma versão contemporânea e em carne e osso de Lindonéia, a Gioconda do Subúrbio _ quadro do pintor Rubens Gerchman que inspirou Caetano a compor a canção Lindonéia, instigado pela cantora Nara Leão. Alice/Lindonéia surge em fotos projetadas no palco do Oficina, nos muros da cidade e até em uma página pessoal no Facebook. Futuro do Pretérito inclui ainda uma entrevista e cenas atuais com Gilberto Gil _ mas Caetano não fala no filme: segundo Ninho, o compositor baiano já aparece em muitos documentários comentando o período do tropicalismo.

 

Leontina, de Boris Peters

Como o título argentino exibido na noite anterior, o longa estrangeiro da competição na terça-feira também foi um documentário. O chileno Leontina (2012) acompanha o cotidiano de uma solitária octogenária que vive no sul do país _ a avó do diretor, que dá nome ao filme. Leontina guarda um segredo que aos poucos vai sendo revelado: há 50 anos, o marido desapareceu a bordo de um barco – e desde então a decidida senhora nunca mais quis rever o vizinho mar.

O cineasta Boris Peters contrasta a domesticidade da casa da avó com a beleza selvagem das paisagens meridionais do Chile e a vastidão do mar. Tanto no detalhe quanto no plano geral, Leontina, o filme, procura extrair lirismo das imagens – a sensível direção de fotografia é um dos destaques da produção. Peters ousa – e acerta – ao literalmente desnudar a avó, filmando de perto a protagonista no banho, expondo na tela a ação do tempo em seu corpo. Essas cenas íntimas remetem aos retratos de despojada humanidade que caracterizam a pintura de Lucian Freud _ e os closes de Leontina dormindo em um hospital assemelham-se aos desenhos da impressionante série Minha Mãe Morrendo, do artista brasileiro Flávio de Carvalho.

O problema de Leontina é o excesso de gravidade que o autor pretende imprimir em sua obra: os planos são desnecessariamente longos e redundantes, o teor poético dos letreiros que legendam algumas cenas é ralo e o silêncio sugerido pela austeridade das imagens é violentado pela trilha sonora melodramática e reiterativa. Peters acaba entorpecendo seu filme pela overdose de solenidade.

 

Insônia, de Beto Souza

Representante gaúcho na disputa pelo Kikito de longa brasileiro, Insônia (2012) é o mais recente título da filmografia de Beto Souza. O diretor é veterano do Festival de Gramado, onde já exibiu Cerro do Jarau (2005), Dias e Noites (2008) e Enquanto a Noite Não Chega (2010), e levou o Prêmio Especial do Júri e o de Melhor Filme do Júri Popular com Netto Perde sua Alma (2001), codirigido por Tabajara Ruas. Adaptação da novela homônima do escritor Marcelo Carneiro da Cunha, Insônia teve uma produção tumultuada: rodado em 2007, o filme só foi concluído agora, depois de passar pelas mãos de cinco roteiristas – o crédito de roteiro ficou como “criação coletiva”, com supervisão final do próprio autor da história literária.

Insônia é narrado a partir do ponto de vista de Cláudia (Lara Rodrigues), garota de 15 anos filha de argentinos que vive em Porto Alegre com o pai viúvo (o argentino Daniel Kusnieka, de filmes como Cavalos Selvagens e Cinzas no Paraíso, ambos do cineasta Marcelo Piñeyro). Ao mesmo tempo em que enfrenta as inseguranças e descobertas típicas da adolescência  – principalmente em relação a amizade e sexo -, a protagonista vê na nova amiga Déa (Luana Piovani) uma possível companheira para o pai. Cláudia divide suas dúvidas e angústias com uma colega de escola (Larissa Resende) e um misterioso internauta que usa o pseudônimo Insônia.

Voltado ao público juvenil, o longa utiliza recursos narrativos de olho na garotada, como as divertidas vinhetas em animação que invadem e comentam algumas sequências e os clipes poético-musicais que Insônia manda para Cláudia via internet. O filme, porém, patina às vezes no ritmo e tem sérios problemas de interpretação _o jovem ator argentino Nicolás Condito, por exemplo, é péssimo e compromete a credibilidade da história. A boa trilha sonora de Léo Henkin é excessivamente presente, como se a intenção fosse preencher com música o espaço dramático na tela.

Já a espontaneidade de Luana Piovani em cena é adequada ao papel, enquanto o frescor e a franqueza da jovem Lara Rodrigues empresta verdade a seu personagem e impõe-se inclusive a suas limitações de atriz iniciante. Buscando uma pegada tipo Malhação, Insônia não tem o perfil de “filme de festival”, mas pode encontrar seu caminho no emergente mercado brasileiro focado nas plateias teen, ao lado de títulos recentes como As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Antes que o Mundo Acabe (2010) – igualmente baseado em um livro de Carneiro da Cunha.

 

Calafate, Zoológicos Humanos, de Hans Mülchi

O último longa-metragem estrangeiro da competição foi outro documentário – dos cinco competidores, apenas dois títulos eram de ficção.

Calafate, Zoológicos Humanos (2011) foi ainda o segundo representante do Chile no certame – lembrando também que o documentário argentino Diez Veces Venceremos tem como personagem um indígena chileno e foi filmado em boa parte no país vizinho. O filme de Hans Mülchi recupera um traumático episódio da história dos povos originários do sul do continente: o sequestro em fins do século 19 de aborígenes patagônios e da região da Terra do Fogo para serem exibidos em cidades da Europa como atrações exóticas de “zoológicos humanos”.

Calafate adota o estilo de investigação histórica para retraçar o caminho desses índios arrancados de suas terras por empresários europeus com a conivência do governo chileno. Alternando entrevistas com pesquisadores, fotos e documentos de época e depoimentos de representantes contemporâneos desses grupos nativos chilenos, o filme prende a atenção graças ao tom detetivesco – que remete aos bons programas de TV nessa linha de canais como History Channel. Esse tema já rendeu um grande filme recente de ficção: Vênus Negra (2010), impressionante drama do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche sobre uma mulher africana apresentada na Europa como número de feira popular. O problema de Calafate é que, da metade para o final, a narrativa vai perdendo força ao se concentrar nos trâmites para o traslado dos restos de índios, encontrados em um museu antropológico de Zurique, de volta para Punta Arenas, no Chile. Por excesso de respeito e solenidade com o processo de reparação de um crime cometido há 130 anos, o filme abre mão de seu caráter cinematográfico, apequenando-se como um registro meramente documental.

 

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

A bruxa voltou: um dos filmes mais aguardados desta edição do Festival de Gramado, a sessão oficial de quinta-feira de O Som ao Redor (2012) foi interrompida perto do fim por problemas de… som. A ironia vai além do título: o longa do diretor Kleber Mendonça Filho tem um desenho de som primoroso, em que ruídos, barulhos e músicas ganham corpo como um personagem a mais da história. A queima do driver da caixa central, responsável pelas altas frequências do som do cinema, tornou os diálogos incompreensíveis – lembrando transtornos ocorridos nas primeiras sessões do festival. O defeito, felizmente, foi solucionado, e na manhã seguinte o filme foi reexibido sem incidentes.

O Som ao Redor coloca uma lupa sobre um bairro de classe média de Recife, em que os moradores aceitam a vigilância oferecida por uma milícia, comandada por Clodoaldo (o sempre excelente ator Irandhir Santos). Boa parte dos imóveis da região pertence à família do corretor João (Gustavo Jahn, realizador catarinense que dirigiu uma série de filmes experimentais em Porto Alegre). A chegada desse grupo de seguranças aparentemente não altera a banalidade do cotidiano dessa comunidade urbana _ mas ao longo do filme percebe-se um rumor que denuncia o subterrâneo mal-estar das coisas. Como nos curtas Vinil Verde (2004) e Recife Frio (2009), Kleber flerta com o cinema fantástico e de horror em sua estreia no longa de ficção, criando um clima de mistério e tensão dramática que vai envolvendo o espectador de maneira crescente, até o clímax do desfecho. Ao mesmo tempo, O Som ao Redor faz uma sutil radiografia da singular acomodação de classes no Brasil, em que patrões e empregados dividem os mesmos espaços em enganosa harmonia – apesar da evidente estratificação social que, no caso do filme, reproduz no ambiente urbano o coronelismo rural nordestino. Uma produção de estridente contundência temática e estética, que lembra o cinema do austro-alemão Michael Haneke – uma espécie de Caché (2005) nos trópicos.

 

 

Por Marcelo Müller

Curtas Gaúchos

Nos dias 11 e 12 de agosto, o Palácio dos Festivais abrigou a exibição da Mostra Gaúcha – Prêmio Assembleia Legislativa do RS de curtas-metragens do 40º Festival de Cinema de Gramado. Ao todo, 21 produções desfilaram pela tela, entre filmes de figurinhas carimbadas e de jovens realizadores (muitos deles apresentando seu primeiro trabalho). No geral, uma programação bastante irregular, sendo que a inclusão de obras universitárias na seleção, com claras limitações provenientes desta ou daquela especificidade, contribuiu para nivelar por baixo ambos programas.

Sábado

O apanhado do sábado foi marcado pela discrepância entre títulos interessantes, ou pelo menos possuidores de alguns pontos de importância, com outros, de fragilidades que não justificam a vitrine lhes conferida pela seleção. Estrada, de Marcel Kunzler, Fez a Barba e o Choro, de Tatiana Neguete, ressaltaram-se, respectivamente, pela construção dramática e o delicioso registro em preto e branco de uma barbearia porto alegrense. Rigor Mórtis, de Marcello Lima e Fernando Mantelli, foi outro dos bons títulos, bizarrice que contou, inclusive, com um personagem coveiro necrófilo onanista. Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni, fechou a tarde de curtas atraentes, por sua abordagem espirituosa e criativa de um papo com o enxadrista Garry Kasparov. Filmes como: Quem é Rogério Carlos?, Paraphilia, As Irmãs Maniacci, 24 Horas com Carolina, Brisa, O Beijo Perfeito e Todos os Meus Ídolos Estão Mortos, ficaram bem aquém da tradição de um festival já com 40 edições.

Domingo

Se o sábado foi caracterizado pela baixa qualidade dos curtas apresentados, então o que dizer do domingo, um dia ainda menos animador? Dos nove filmes exibidos, apenas três deixaram rastros positivos: Casa Afogada, de Gilson Vargas (técnica vistosa) Ignácio e Saldanha, de Boca Migotto (inteligente, embora de final fragilizado) e Elefante na Sala, de Guilherme Petry (boas construções, atmosférica e de roteiro). Só Isso, de Iuli Gerbase (experiência esvaziada com enquadramento incomum), A vida da Morte, de Maciel Fischer (escrachado e bobo), Boa Viagem, de Claiton Mosmann (inocente e banal), Lobos, de Abel Roland e Emiliano Cunha (desenvolvimento falho),Noite Um, de Rafael Duarte e Taísa Ennes Marques (sub-vampiro que se leva a sério) e Rua dos Aflitos, 70, de Leandro Daros (meloso e artificial), deram bem a tônica da baixa qualidade dos programados para o segundo dia da mostra.

PREMIAÇÃO

A cerimônia de premiação da Mostra Gaúcha de curtas-metragens fechou a noite de domingo, 12, no Palácio dos Festivais. Sentida mesmo, apenas a falta de prêmios para o ótimo Estrada. De resto, foram laureados, com justiça, filmes relevantes em meio à amostragem acidentada desta edição.

 

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Experiente enquanto crítico de cinema, Kleber Mendonça Filho também é tarimbado na realização de filmes, pois construiu ao longo dos anos uma sólida carreira como curta-metragista. São dele alguns títulos como Recife Frio (2009), no qual faz a insólita dedução de como seria a capital pernambucana caso o calor fosse subitamente trocado pelo frio mais comum aos brasileiros do Sul. Aliar sua erudição cinéfila à vontade e ao talento para produção iria, hora ou outra, desembocar na seara do longa-metragem ficcional (ele já havia dirigido o longa documental Crítico, 2008). Dessa maneira, O Som ao Redor é o debut de Kléber no formato. Vem angariando prêmios e aplausos em diversos festivais pelo mundo. Será que “perdemos” um crítico arguto e “ganhamos” um cineasta não menos interessante?

Em O Som ao Redor, há a observação do cotidiano de uma vizinhança recifense, com todas as diferenças existentes entre seus moradores. Na verdade, o foco se estreita sobre uma rua que passa a ser monitorada por determinado serviço particular de vigilância, consequência da necessidade de proteger-se contra a violência urbana desenfreada das cercanias e do próprio vandalismo de alguns moradores. Mesmo calcado num choque social evidenciado por alguns (e reveladores) planos aéreos que delineiam na tela os limites entre a classe média amedrontada e a vida pobre crescente no entorno dessas propriedades duramente supervisionadas, O Som ao Redor passa ao largo do mero choque, até por que não se restringe formalmente ao contraponto social. Então não espere algo como “ricos versus pobres”, pois a observação dos desníveis dessa natureza apenas sublinha a construção, não a definindo inteiramente.

Estamos novamente diante das diversas histórias amalgamadas, tão caras ao cinema contemporâneo. A estrutura multiplot funciona em O Som ao Redor, pois Kleber não busca criar ou investigar rigorosamente seus personagens, mas registrar à sua maneira um “estado das coisas”, abstraindo qualquer significância mais tonalizada de seus tipos em prol de algo mais abrangente. É percorrendo essa corda bamba, sem perder o equilíbrio, que o filme instaura-se na deliciosa zona de risco habitada enquanto lhe convém, para logo a transpor quase com habilidade de veterano. Assim sendo, não é indicado deter-se em demasia aos núcleos encerrados em si, mas sim entendê-los como frações indivisíveis de um todo. O rapaz que cuida dos imóveis do avô, um anacrônico senhor do engenho enclausurado em suas propriedades, é tão importante ao filme quanto a mulher de cotidiano perturbado por um cachorro que late intermitentemente, afeita a cigarros de maconha e simples afazeres domésticos.

Chama a atenção o desenho sonoro de O Som ao Redor, aliás, título mais que pertinente a um filme construído muito fora do quadro, justamente por meio dos sons e ruídos de um bairro orgânico mesmo que inserido num contexto puramente cinematográfico. O uso expressivo da sonoridade mostra a pulsão da vida na rua e confere um tom acima do real ao encenado. O filme, então, fica circunscrito num espaço físico determinado, mas o transcende pelos barulhos externos infiltrados nos planos. Numa cinematografia como a nossa, pelo menos me valendo de olhar retrospectivo recente, não lembro algo empenhado dessa maneira em utilizar as sonoridades, sobretudo os ruídos, com caráter tão significativo.

O Som ao Redor é uma obra madura, impressionante tecnicamente, assim como exemplar no rigor proposto por seu diretor que, mesmo ainda tateando a identidade criadora, mescla experiências com sensibilidade. O filme é bastante pensado, mas não soa distante como muitos por aí, e isso se deve, em grande parte, à maneira como os personagens são dinamizados na trama. As referências a alguns filmes que volta e meia passeiam na tela, não apoiam o criador como se fossem muletas ou elementos de afago aos espectadores, surgindo mais como piscadelas discretas àqueles que compartilham da paixão pelo cinema. O final evoca de maneira engenhosa a tradição nordestina do coronelismo e dos jagunços vingativos que tanto povoam nosso imaginário relacionado àquela região do país. Kleber Mendonça Filho quase chega a ser brilhante em O Som ao Redor, certamente um belo cartão de vistas (como se precisasse) de alguém que ajuda a construir cinema enquanto escreve e desempenha a crítica quando filma.

 

Por Luiz Joaquim

 

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (A radiografia humana de Kleber Mendonça Filho)

A cerimônia de premiação do Oscar de 1981 sempre é lembrada pelo seu resultado equivocado por ter eleito Gente Como a Gente, de Robert Redford, como melhor filme, quando concorriam Touro Indomável, de Martin Scorsese, e O Homem Elefante, de David Lynch; filmes hoje consagrados na história do cinema mundial.

O 40o Festival de Cinema de Gramado, encerrado no sábado, corre o risco de no futuro ser lembrado, alem da data efeméride, por uma situação similar. O júri oficial premiou como melhor filme o trivial Colegas, de Marcelo Galvão, quando havia os consensualmente ótimos O Que se Move, de Caetano Gotardo, e O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho também em competição.

Este último, era o mais aguardado filme do festival em função da exitosa carreira no exterior iniciada em janeiro, quando ali já levara o prêmio da critica internacional (Fipresci) no festival de Roterdã. Contemplado em Gramado pela direção, pelo desenho de som, pelo júri popular e o da critica, O Som ao Redor, poderá facilmente ser lembrado no futuro como um dos mais representativos filmes brasileiros dessa década que inicia.

Isto porque, esta estreia num longa-metragem de ficção do pernambucano nasceu cercada não só de significados que remetem o espectador à sociedade em que vive nos dias de hoje, como também a uma série de referencias estéticas cinematográficas mundialmente consagradas e aqui amalgamadas pela perspectiva de mundo de Mendonça.

Na coletiva de imprensa na tarde de sexta-feira não faltaram citações de jornalistas às opções estéticas e temáticas do diretor relacionando-as com as de mestres como Lynch, Michael Haneke, Ettore Scolla entre outros. Quem apurar o olhar vai poder enxergar também ecos do cinema russo, do cinema de John Carpenter, como assume o próprio realizador, ou ainda o de Stanley Kubrick, um já sabido ídolo do pernambucano.

Mas é preciso que o olhar seja mesmo apurado, pois aqui Mendonça apropria-se de tudo isso em função do que ele quer contar. O Som ao Redor funciona pela comunhão entre seus discurso temático e a eloquência linguística. E é nessa comunhão – que deveria ser obrigatória para a um filme ter razão de existir – que a assinatura pessoal de Mendonça emerge.

Em suas mãos, a desenvoltura estética é parte integrante da narrativa, agregando ainda mais informação ao(s) assunto(s) em questão(ões). Ou seja, ela não estão lá apenas como demonstração de conhecimento. Um bom exemplo é a primeira imagem em movimento do prólogo embalado pela marcante trilha sonora de DJ Dolores exibida logo após a série de fotografias de arquivo apresentando um cenário rural oprimido no interior do Nordeste do Brasil.

Quando chega a imagem contemporânea de uma menina sendo puxada de patins por um garoto numa bicicleta dentro do estacionamento de um condomínio coalhado de carros, enquanto outras tantas crianças brincam “aprisionadas” numa quadra de futebol e vigiadas por empregadas domésticas encolhidas num canto, a forma como a câmera flutuante de Petro Sotero apresenta o espaço já situa o espectador no cenário claustrofóbico e sob custódia ao qual está submetido o universo do filme (que é nosso também).

Logo depois, a imagem e o som são a de um serralheiro debruçado numa grade de ferro. É um símbolo constante no filme, a grade de ferro, para a ideia de “segurança doméstica” na região de Setubal, Recife, na qual toda a história se desenvolve numa rua. O serralheiro e as grades são apenas um dos diversos ícones que Mendonça utiliza com sutileza para ilustrar a bagunça urbana e, depois, as neuroses dali derivadas.

Seja com a música baiana medíocre tocando estridente num carro de CD pirata (com policiais consumindo), seja pela frase melancólica “Lu, que triste te amo” escrita no asfalto e borradamente chorosa pelo molhado da chuva, seja com os flanelinhas ofensivamente “cuidando” dos carros que amanhecem arrombados, ou com os adolescentes que se beijam escondidos entre os prédios, O Som ao Redor surge como o filme sobre a urbe mais próximo de qualquer brasileiro da classe media nos dias de hoje (tendo comovido também o estrangeiro, vale ressaltar).

O som ao redor aqui não se resume ao primor técnico de desenho de som projetado por Kleber Mendonça e Pablo Lamar para impressionar os ouvidos de seus espectadores, mas diz também respeito aos ruídos humanos que nos cercam na cidade, e aqui nesse filme nos soam/surgem de forma muito familiar.

Nesse sentido, o núcleo que abre o filme – com Maeve Jinkings como uma dona de casa perturbada pelo insistente latido do cão da vizinha – é o único voluntaria ou involuntariamente engraçado dentro dos três módulos intitulados Cão de Guarda, Guarda Noturno e Guarda-costas.

Neste caleidoscópio sócio-pernambucano de Mendonça, ela é apenas uma personagem entre tantas que está de uma forma ou de outra em torno de Francisco (W. J. Solha), uma espécie de Senhor de Engenho, que ainda visita suas terras no interior, mas vive numa rua em Setubal, da qual foi possuidor de boa parte dos imóveis.

Compondo o cenário humano, esta João (Gustavo Jahn), neto de Francisco que viveu sete anos na Alemanha e de volta ao Recife não se conforma com a postura obtusa e mesquinha da classe media em relação aos mais pobres e subordinados; além de Clodoado (Irandhir Santos), o chefe de um grupo de segurança que se instala na rua oferecendo seus serviços aos moradores.

Ao redor desses quatro personagens, Mendonça se espraia com personagens secundários para colocar uma visão de mundo ora flertando com relacionamentos amorosos (pela garota – Irma Brown – de João), ora chamando a atenção para o rumo da economia no mundo, quando a opção na aula de idioma dos filhos da mãe vivida por Jinkins é o mandarim, e não o inglês.

São nesses pequenos detalhes, como o de uma arruela perdida no topo de um prédio da paisagem de infinitos espigões opressores sobre casebres na Zona Sul recifense que O Som ao Redor mostra sua riqueza imagética, ao mesmo tempo em que Mendonça excita nosso pensamento para uma questão que nos pergunta se os especuladores imobiliários de hoje seriam os Senhores de Engenho de ontem, ou vice-versa.

 

 

Por Ernesto Barros

Gramado quer retomar a força

Matéria publicada no Jornal do Commercio (Recife), no dia 13/08

Um dos mais importantes eventos fílmicos do País, festival tem se esforçado para recuperar o interesse dos cineastas e do público

GRAMADO (RS) – O Festival de Cinema Gramado, que este ano comemora seu 40º aniversário, talvez seja o mais conhecido do espectador brasileiro. O segundo dia do festival, na noite de sábado (11/08), mostrou que o evento não perdeu seu interesse, a despeito das dificuldades financeiras e das variações de perfil dos últimos anos. Estranhamente, o vasto público que superlotou o hall do Palácio dos Festivais – situado num boulevard ao lado de casas de shows e restaurantes – não foi o mesmo que assistiu aos filmes. Apesar de não lotar o luxuoso cinema, agora reformado e com novas poltronas, a plateia que conferiu os curtas e longas-metragens da noite do sábado percebeu que a curadoria do festival se esforçou para trazer bons títulos para Gramado.

A Mostra de Longas-metragens Estrangeiros foi aberta com a exibição do representante do Uruguai. Artigas, la redota, de César Charlone, é um belo retrato do herói nacional do país. José Artigas tem a mesma importância histórica de Simón Bolívar e José de San Martín na luta pela libertação das colônias espanholas. César Charlone, cidadão uruguaio de coração brasileiro – como já disse uma vez, aprendeu cinema no Brasil, onde é mais conhecido pela direção de fotografia de Cidade de Deus – criou uma espécie de mosaico para mostrar a importância de Artigas para o Uruguai.

Charlone buscou vários elementos para reconstituir a memória de Artigas. Em 1884, um ditador ordena que o pintor Juan Manuel Blanes faça um retrato do libertador. As únicas referências visuais são os esboços de Gúzman Larra, um espião espanhol que em 1811 foi contratado para assassinar Artigas. Estas duas narrativas se entrecruzam durante o filme, com maior destaque para o momento em que Artigas organiza um exército popular no interior do país. Charlone explora a riqueza dos povos – índios, brancos, crioulos e negros – que seguiram Artigas e traz para os dias de hoje seus ideais de igualdade.

Com Super nada, de Rubens Rewald, a Mostra de Longas-metragens Nacionais já apontou para a diversidade do atual cinema brasileiro. Enquanto o longa Eu não faço a menor ideia do que tô fazendo com a minha vida, de Matheus Souza (exibido na sexta-feira, dia 10/08), trafega pelos dilemas da adolescência nerd carioca, o filme de Rewald é um mergulho na vida de um ator que luta para sobreviver com a sua arte. Apesar das diferenças, os dois longas se destacaram pela força com que seus diretores defendem suas escolhas e universos estéticos.

Na coletiva com a imprensa, Rewald contou que seu filme explora a crise do anonimato: “Nem o direito a 15 minutos de fama as pessoas estão tendo mais”, disse. Super nada traz uma excelente interpretação de Marat Descartes (de Trabalhar cansa) e do cantor Jair Rodrigues, que faz um comediante de TV. Já no filme carioca, quem brilha muito é a pernambucana Clarice Falcão. A multiartista – cineasta, escritora, compositora e atriz – encanta como a adolescente que não se sente bem ao entrar no curso de medicina só para seguir a tradição familiar. Clarice e Matheus Souza, que tem 24 anos e fez primeiro longa, Apenas o fim, aos 19 anos, disseram que fazem parte da chamada geração Y. Eles vivem às voltas com a revolução digital e fazem do quarto um mundo próprio. “Eu só sei falar de mim e de meus amigos. E esse título me veio à mente quando me olhei no espelho em certo momento da minha vida”, comentou Matheus.

HOMENAGEM

Na abertura, sexta à noite (10/08), Gramado homenageou uma das atrizes brasileiras mais identificadas com a história do festival. Antes da criação do festival, Eva Wilma já participara de uma mostra de cinema realizada durante a Festa das Hortênsias, no final dos anos 1960, na cidade. Com o Troféu Cidade de Gramado nas mãos, a atriz de falou de uma lembrança muito particular: “Dividi um carro aberto com Grande Otelo. Tive o meu momento de Rainha da Inglaterra aqui em Gramado”, lembrou.

O longa-metragem 360, de Fernando Meirelles, foi exibido em avant-première. Produção britânica, o filme tenta captar momentos de mudança na vida de algumas pessoas em várias partes do mundo. Apesar de não haver agradado muito – grande parte da crítica considerou o filme frio emocionalmente – Meirelles disse que estava feliz por haver trabalhado com atores que ele admirava, como os britânicos Anthony Hopkins, o francês Jamel Debbouze, além dos brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré.

A nota negativa dos dois primeiros dias do Festival de Gramado é que a bruxa dos problemas técnicos está à solta. Por conta de problemas elétricos, a projeção já parou duas vezes. Mas o que tem mais irritado os cineastas e o público é o som de restaurantes com música ao vivo que vaza para o Palácio dos Festivais durante as exibições.

 

Tropicália revisitada com olhar inusitado

Matéria publicada originalmente no Jornal do Commercio, no dia 14/08

Em Futuro do pretérito: Tropicalismo now, de Ninho Moraes & Francisco César Filho, André Abujamra refaz canções dos anos 1960 misturando MPB, música búlgara e rock

GRAMADO (RS) – A terceira noite do Festival de Cinema de Gramado, no domingo (12/08), teve como principal atração a exibição de Futuro do pretérito: Tropicalismo now, dirigido pela dupla Ninho Moraes & Francisco César Filho. Trata-se de mais um filme – quase subgênero do documentário brasileiro – a inventariar a história do País a partir da música. Na verdade, a música é apenas a cereja do bolo. Afinal, o movimento se estendeu às artes plásticas, ao teatro e à literatura transformando-se num projeto político e comportamental dos artistas brasileiros que viveram as mudanças nos anos 1960.

Estruturado como uma obra que olha para a permanência do tropicalismo no Brasil do século 21, o filme se apropria de várias linguagens e da mistura de gêneros para provar sua tese. Aliada à pesquisa histórica (imagens de arquivos e depoimentos de estudiosos) a obra cede espaço para esquetes ficcionais, trechos de peças de teatro e intervenções imagéticas. Um show com clássicos da tropicália, com novos arranjos de André Abujamra e gravado no Teatro Oficina (SP), serve como ponto de convergência às liberdades narrativas dos realizadores.

Para o show, Abujamra convidou músicos que não são facilmente associados ao tropicalismo para cantar versões de músicas do lado B do movimento, como o baiano Luiz Caldas, o ator Alexandre Nero, a paulista Suzana Salles e a cantora lírica Madalena Bernardes. Os arranjos, mistura de MPB, música búlgara e rock, dão roupagem inédita a canções como Lindoneia (Caetano Veloso) e Futurível (Gilberto Gil).

Na coletiva de imprensa, o músico contou que se sentiu na maior responsabilidade ao ocupar o lugar do arranjador Rogério Duprat (1932-2006). “Mesmo sem nenhuma citação a ele no filme, o trabalho de Rogério está por trás de tudo. Ele foi um gênio”, comentou Abujamra.

Apesar de contar com a presença de Gil, que fala, canta e toca com grupos da nova geração, há ausências de pessoas como Caetano Veloso. As memórias e ideias do cantor e compositor, expostas no livro Vereda tropical, são lidas e comentadas por estudiosos como Laymert Garcia dos Santos, Celso Favaretto, Cláudio Prado e José Miguel Wisnik. Muitos dos depoimentos apontam para a importância política do movimento, cujas ideias perturbaram o governo militar.

Para justificar a ausência de Caetano, Tom Zé e Mutantes, Ninho Moraes disse que seu filme é um complemento a Uma noite em 67, de Ricardo Calil & Renato Terra, e a Tropicália, de Alexandre Machado, que também abordam o tropicalismo. ”O nosso é diferente porque ele é datado. Queríamos fazer um filme com o olhar de hoje. Dentro de 10 anos, a ideia será completamente diferente”.

 

Inclusão nas telas de Gramado
Matéria publicada originalmente no Jornal do Commercio (Recife), no dia 15/08

GRAMADO (RS) – Umao sessão para entrar na história de qualquer festival de cinema. Pode ser descrita assim a exibição de Colegas, do carioca Marcelo Galvão, segunda-feira (13/08), na quarta noite da Mostra Competitiva de Longas-Metragens Nacionais do Festival de Gramado. Afinal, poucos filmes podem se orgulhar de ter como atores principais um trio de portadores de Síndrome de Down. Símbolo máximo de inclusão, o longa-metragem recebeu aplausos calorosos ao final, além de palmas ocasionais durante sua exibição. Pode-se até dizer que foram os muitos convidados – portadores de deficiência visual assistiram ao filme com recursos de audiodescrição – que puxaram os aplausos, mas tudo bem.

Projeto acalentado há mais de cinco anos por Marcelo Galvão, que já realizou os longas Quarta B (2005) e Bellini e o demônio (2007), Colegas se espelha no imaginário cinematográfico para existir. Se não fosse essa licença poética – fazer com que seus personagens remetam ao mundo do cinema – talvez seus atores especiais não convencessem a plateia. Mas o trio formado por Ariel Goldenberg (29 anos), Rita Pokk (30 anos) e Breno Viola (30 anos), que passou vários anos ensaiando com Galvão, dá conta do recado direitinho. É impossível esquecer que são portadores de Down se comportando como pessoas normais, claro. No entanto, os personagens que eles interpretam se metem em tantas encrencas que, na maior tempo do tempo, abstraímos por completo a condição deles.

A produção de Colegas é classe A. Nota-se que o cuidado de Marcelo não se deu apenas na preparação dos três atores. A história também foi escrita para privilegiar a escala grandiosa do filme. Uma narração em terceira pessoa feita por Lima Duarte, que interpreta um homem que cuida dos alunos de um internato, conta as peripécias de Stallone (Ariel), Aninha (Rita) e Márcio (Breno). Responsáveis pela videoteca da escola e apaixonados por Thelma & Louise, de Ridley Scott, um dia eles pegam a estrada e vão em busca de seus sonhos: Stallone quer conhecer o mar; Márcio, voar, e Aninha, casar.

O trio sai alucinado num automóvel vermelho pelas estradas do interior de São Paulo e só vai parar na Argentina, quase sempre com músicas de Raul Seixas na trilha sonora. No caminho, eles roubam lojas de conveniência, enganam pessoas, são perseguidos pela polícia, perdem o carro e vivem mil aventuras. Filmado sempre com lente grande angular, tomadas aéreas e um uso intensivo de grua, o filme toma partido de grandes espaços exteriores para mostrar sua escala. Talvez o excesso de situações e de citações a filmes atrapalhem o road movie no seu terço final, fazendo com que Colegas fique um tanto longo demais.

Antes da exibição do filme brasileiro, a produção argentina Dez vezes venceremos, de Christian Jure, foi visto na Mostra Competitiva de Longas-Metragens Estrangeiros. Documentário reconstituído, o filme conta a luta de Pascual Pinchón, um jovem mapuche (comunidade indígena no Sul do Chile) que é condenado a sete anos de prisão por terrorismo. A princípio, ele foge do país para a Argentina, onde cursa jornalismo.

No entanto, antes de ser formar, Pascual volta para sua região e é detido pela polícia, sendo levado à prisão. O filme acompanha a odisseia de Pascual e de sua comunidade na luta para expulsar empresas florestais que usurpam as terras onde sempre viveram. Apesar de não possuir grandes lances dramáticos, Dez vezes venceremos é um manifesto político de respeito.

 

Estreia de O Som ao Redor cria expectativa

Publicado originalmente no Jornal do Commercio (Recife), no dia 16/08

Filme pernambucano é exibido hoje no festival e, pela trajetória de sucesso em eventos internacionais, tem tudo para ser premiado. Já Insônia, visto terça-feira, não agradou

GRAMADO (RS) – A penúltima noite da Mostra Competitiva de Longas-Metragens Nacionais do Festival de Cinema de Gramado acontece hoje (16/08) com um dos filmes mais esperados do evento: a produção pernambucana O som ao redor, que ganha sua primeira exibição no País, do cineasta Kleber Mendonça Filho, ex-crítico do JC. Como a competição tem se mostrado morna, a exibição do longa vem sendo cercada da maior expectativa. Além disso, sua trajetória de prêmios em festivais internacionais é uma credencial e tanto.

A quinta noite do festival, anteontem (14/08), foi marcada pela homenagem ao cineasta argentino Juan José Campanella, que foi agraciado com o Kikito de Cristal pelo conjunto de sua obra, composta por filmes como O filho da noiva e O segredo dos seus olhos (Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011). No seu discurso de agradecimento, Campanella “lamentou o fato de que o Brasil e a Argentina não partilham a forte cultura que distinguem os dois países, ao invés de perder tempo numa folclórica rivalidade futebolística”.

Representante gaúcho da competição de longas nacionais, Insônia, de Beto Souza, provou porque passou cinco anos para ser concluído. Adaptado de uma história original do escritor Marcelo Carneiro da Cunha (o mesmo de Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luíza Azevedo), o filme tenta entrar no universo adolescente, mas erra feio ao copiar cacoetes de programas televisivos (Malhação, por exemplo) e de videoclipes.

Beto Souza suja a imagem com uma infinidade de intervenções e entulha a trilha sonora com canções pop inúteis, que atrapalham o desenvolvimento dos personagens e da história que ele está tentando contar. Basicamente, Insônia acompanha um momento de transformação da adolescente Cláudia (Lara Rodrigues), de 15 anos. A partir da história da menina, que praticamente vive para o pai, um biólogo marinho, e parece travada para dar seus primeiros passos na vida, Beto Souza mostra como vive uma adolescente de hoje, com sua vida paralela na internet, os dilemas das primeiras relações amorosas e por aí vai.

Com o elenco formado por atores do Rio Grande do Sul e da Argentina (o filme é uma coprodução entre o país e o Brasil), o diretor importou Luana Piovani do Rio de Janeiro. Ela vive uma amiga de Cláudia e se transforma no interesse romântico do pai dela. Com as caras e bocas de sempre, Luana passeia pela tela com a beleza que Deus lhe deu e mais nada. Lara Rodrigues, por seu lado, interpreta bem seu personagem, mas sua performance é sempre atrapalhada pelo roteiro mal desenvolvido do filme. A descoberta de um amigo virtual de Cláudia, que se chama Insônia, faz com que o espectador não leve a sério o que está assistindo. Como outros filmes gaúchos, fica a dúvida se Insônia conseguirá ser lançado fora de suas fronteiras.

Na Mostra Competitiva de Longas-metragens Estrangeiros, a produção chilena Leontina, de Boris Peters, causou o maior desconforto na pequena plateia que compareceu ao Palácio dos Festivais. Com apenas um personagem em cena, o documentário segue o cotidiano de uma idosa que vive sozinha numa região costeira do Chile. Apesar do visual bonito e da história difícil da mulher, que sempre viveu isolada depois que o marido sumiu numa viagem de barco, o filme é prejudicado por uma trilha sonora melosa que está presente do começo ao fim. Uma verdadeira tortura.

 

Enfim, um favorito ao Kikito

Publicado originalmente no Jornal do Commercio (Recife), no dia 17/08

Filme O que se move, do diretor estreante em longa-metragem Caetano Gotardo, confirma as expectativas

GRAMADO (RS) – Já na sua reta final – a um dia das últimas exibições nas mostras competitivas, que acontecem hoje –, o Festival de Cinema de Gramado tem se pautado por um sobe e desce de emoções. Quarta-feira (dia 15/08), na sexta noite do festival, a temperatura emocional subiu às alturas com a produção paulista O que se move, do estreante em longas Caetano Gotardo. Como muita gente esperava, o filme cumpriu as expectativas e desde já pode ser considerado um dos mais fortes candidatos aos Kikitos de Gramado. Na categoria de melhor atriz, é quase certo que o troféu fique nas mãos de uma das três mães do filme de Gotardo – ou, quem sabe, talvez o júri resolva premiar a interpretação conjunta das atrizes Cida Moreira, Fernanda Vianna e Andrea Marquee.

Elas são a alma de O que se move, um filme emocionado e emocionante que não tem medo de falar diretamente para o coração da plateia. São três pequenas histórias – pequenas em duração, mas grandes pela força de cada uma – que mostram mães em situações de extrema e imensurável perda. Os entes queridos mais próximos delas – os filhos que carregaram na barriga – saem das suas vidas de uma maneira que nem a dor mais pungente é capaz de explicar. Com simplicidade para apresentar cada um de seus longos esquetes – resguardado pela complexa rede de sentimentos por trás dos personagens –, Gotardo faz parte de uma novíssima geração de cineastas brasileiros que se apropriou do cinema de gênero – terror, suspense, melodrama, musical – como modelo orgânico de narrativa, mas sem necessariamente pender para o fetichismo da cinefilia.

Em cada segmento de O Que se Move, Gotardo parte de cenas corriqueiras – coisas e conversas banais que acontecem a cada segundo nas vidas de todos nós. Como a própria vida, no segundo seguinte somos surpreendidos com algo que está além das nossas forças e que não estávamos preparados para entender. As histórias guardam em si os segredos mais sutis, daqueles que não devem ser mencionados para não estragar a surpresa e a emoção que as assiste. Para fechá-las, Gotardo buscou um recurso que se coaduna com o rigor formal que marca o seu filme como um todo. Aproveitando os recursos de suas atrizes – especialmente de Cida Moreira, uma exímia cantora e pianista –, as mães cantam lamentos – quase incelências, poderíamos dizer – para louvar seus filhos perdidos, ou perdidos e recuperados (como no episódio protagonizado por Fernanda Vianna). Um filme forte, que ainda vai dar o que falar.

A noite ainda teve a apresentação de Vinci, uma produção cubana que concorre na Mostra de Longas-metragens Estrangeiros. Dirigido por Eduardo del Llano, o filme é um curioso episódio da vida do italiano Leonardo da Vinci. Aos 24 anos, ele é encarcerado por um crime que não fica muito claro. Na cadeia, convive com dois presos que o assediam sexualmente. Del Llano aproveita o filme para se concentrar na suposta homossexualidade do gênio renascentista italiano, que já dava mostras de tudo o que ele iria criar na vida adulta ao pintar esboços nas paredes da prisão. Com cara de telefilme e a ação centrada num único espaço, Vinci não justificou por completo sua inclusão na mostra competitiva de sua categoria. Que, diga-se passagem, tem sido muito fraca.

 

Kleber faz barulho em Gramado

Matéria publicada originalmente no Jornal do Commercio (Recife), no dia 18/08

O Som ao Redor foi exibido pela primeira vez no País no festival gaúcho e foi ovacionado, depois de enfrentar problemas técnicos

GRAMADO (RS) – A expectativa em torno da exibição de O som ao redor no Festival de Cinema de Gramado era tanta que nem mesmo a interrupção da sessão oficial do filme, na noite de quinta-feira (16/08), atrapalhou sua calorosa recepção. Uma caixa de som estourou a cerca de 40 minutos do final e centenas de espectadores – uma das maiores plateias de todo o festival – ficaram com um gosto de decepção na boca.

Na sexta-feira (17/08), o longa-metragem de estreia do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho foi à forra: ganhou duas exibições no Palácio dos Festivais – uma às 10h e outra às 14h – quando finalmente pôde ser ovacionado pelo público presente (na sessão da manhã, a plateia era formada majoritariamente por jornalistas e pessoas ligadas aos outros filmes que estão participando das mostras competitivas).

Antes de chegar a Gramado, O Som ao Redor fez uma longa peregrinação pelo mundo. Desde janeiro que o filme vem angariando prêmios e elogios nos mais distintos festivais internacionais de cinema – da Holanda à Austrália, da Suíça aos Estados Unidos, onde estreia comercialmente na próxima sexta-feira com direito a duas páginas de destaque no jornal New York Times.

Se o público e a crítica estrangeira foram os primeiros a ter acesso à visão crítica de Kleber em relação à disputa de classes, à violência atávica e ao crescimento desordenado do Recife, isso não diminuiu o impacto que o filme causou em Gramado durante a sua primeira exibição no Brasil.

As várias tramas que compõem o mosaico social de O som ao redor captam o aqui e agora do Recife da mesma maneira que uma radiografia descobre uma doença. Com o rigor de cirurgião, Kleber expõe, sem meios termos, o tecido social gangrenado de uma sociedade verticalizada onde o poder do mais forte não está mais imune às revoltas do extrato humano que sempre viveu de cabeça baixa.

 

RACISMO

Durante a coletiva de imprensa, que contou com Kleber e parte da equipe do filme  – entre eles a produtora Emilie Lesclaux e os atores Irandhir Santos, Lula Terra, Maeve Jinkings, Albert Tenório e W.J. Solha -, questões sociais que estão na ordem do dia – seja no Recife ou em qualquer grande cidade do Brasil – estiveram em exposição devido ao teor político de O som ao redor. “Sou filho de uma historiadora que estudou o fim da escravidão no Brasil, no final do século 19, e viu que a sociedade brasileira da época não se preparou para receber estes novos cidadãos. A sociedade brasileira é racista sem nunca usar a palavra racismo” afirmou o cineasta.

A visão das ruas do bairro de Setúbal, onde se passa a maior parte da trama, e do seu contraste com os arranha-céus de Boa Viagem também foram debatidas por Kleber. ”Há vários bairros interessantes no Recife, mas Setúbal não é um deles – trata-se de “um não-lugar” com pessoas. O filme é fruto da minha observação. Como fotografo muito, eu já tinha a ideia de onde colocar a câmera. Atualmente, como o Recife em geral, Setúbal é um canteiro de obras. Mas, o que acho mais legal é que o pessoal ligado às artes está contra este estado de coisas”, comentou.

A próxima parada de O som ao redor no Brasil é no Festival de Brasília, onde vai ganhar uma exibição especial. O filme será distribuído pela Vitrine Filmes, mas ainda não tem data de estreia. Para a sua trajetória junto ao público e de olho na bilheteria, pela urgência do seu tema, quanto mais cedo entrar em cartaz, melhor.

 

Gramado foi quase perfeito

Matéria publicada originalmente no Jornal do Commercio (Recife), no dia 20/08

Premiação do filme O som ao redor confirma o cinema pernambucano como um dos mais importantes do País desde a retomada

GRAMADO (RS) – O júri do 40º Festival de Cinema de Gramado perdeu uma boa chance de fazer história na cerimônia de entrega do Troféu Kikito, na noite de anteontem. Ao conceder o Kikito de Melhor Filme a Colegas, de Marcelo Galvão, em detrimento da produção pernambucana O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, o júri fechou os olhos para o que de melhor está sendo feito no cinema brasileiro. Apesar de toda a boa vontade do longa-metragem paulista, que tem três atores portadores de síndrome de Down como protagonistas, Colegas é pouco mais do que uma curiosidade. Com o tempo, será lembrado unicamente por sua tentativa de inclusão.

Ao contrário, O som ao redor é um filme tecnicamente impecável e que abre todo um caminho de observação política e social que o cinema brasileiro estava sentindo falta. Não é por outro motivo que o cinema pernambucano é considerado um dos mais importantes do País desde a retomada. “Eu não acho que o reconhecimento de O som ao redor é um fator novo. Se você pegar a trajetória dos curtas e dos longas, você vai ver que ela é ascendente. Por exemplo, no próximo grande festival, o de Brasília, nós vamos comparecer com sete filmes pernambucanos. Acho que o que aconteceu aqui é um trailer do que vai acontecer lá”, afirmou Kleber logo após a premiação.

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