Dossiê/Balanço para a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo + Textos de Jurados da Abraccine

Dossiê/Balanço para a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Aqui, alguns balanços mais amplos, sem restrições, de filmes, questões, “pacotes” da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

FACES EX-SOCIALISTAS NA MOSTRA

Por Ivonete Pinto

Considerando a impossibilidade de se fazer um balanço abrangente da 36ª Mostra, tal o seu tamanho, optamos aqui por recortar um conjuntos de filmes cujo potencial pode vir a representar uma ideia, ou pelo menos desenhar um contexto do universo em que estão inseridos. Trata-se de cinco títulos oriundos de quatro países ex-socialistas, alguns deles que fazem fronteira entre si e que trazem vivências políticas e culturais similares. Os países são Bulgária, Romênia, Hungria e Bósnia. Deles, a Mostra exibiu vários títulos: portanto, este é um fragmento de um fragmento. Em comum entre a maioria deles, a participação da Alemanha nas produções. Além do dado histórico do país ter sido dividido e até a reunificação, com a queda do muro de Berlim em 1989, a parte Oriental ter sido socialista, há o fato de hoje a Alemanha estar sobrevivendo à crise europeia, e ter dinheiro suficiente para investir em cinema, incluindo o do Leste europeu.

Da Bulgária, país socialista até 1989, vimos na Mostra Última Ambulância de Sófia (Sofia’s Letzte Ambulance), um documentário ao estilo observativo, onde as situações nos são apresentadas sem qualquer intervenção do dispositivo. Mas, embora a ausência de entrevistas e os olhares para a câmera, há uma predominância de planos fechados e de closes. Natural, pois na maior parte do tempo temos os personagens dentro do espaço fechado da ambulância. Como um reality-show da saúde na Bulgária, vemos a equipe de médico, enfermeira e motorista tentando atender chamados de casos que vão desde tentativas de suicídio, drogados em surto, até ataques cardíacos e óbitos naturais. É assunto grave nos países ex-socialistas, pois se antes o estado cuidava da saúde, hoje esta área está a descoberto, deixando as populações em total desamparo. Sófia, a capital, segundo a sinopse do filme, possui 13 ambulâncias para atender população de 2 milhões de habitantes. Quem anda pelas ruas cheias de bares, restaurantes e lojas sofisticadas, não vê o sofrimento que corre nos arredores.

A Última Ambulância tem direção do búlgaro Ilian Metev, em seu longa de estreia, e produção da Alemanha e da Croácia. A Bulgária, mais conhecida entre os amantes da literatura como o país de Elias Canetti, apresenta uma mais ou menos sólida produção cinemagtográfica, herança ainda de quando foi grande produtora e marcava época com clássicos como The Peach Thief (1964). Nos últimos anos, ostenta sucessos nacionais como Zifts (2008) e Eastern Plays (2009), coproduções com a Europa rica (Alemanha em especial) que fortalecem o cinema búlgaro. Zifts e Eastern Plays, somados ao documentário de Metev, revelam a necessidade dos jovens diretores em falar de situações atuais, como as drogas e as dificuldades econômicas. Se a estética e a linguagem dos filmes ainda não surpreende em mostras internacionais, ao menos já ganham visibilidade, como esta A Última Ambulância, selecionado para a “Semana da Crítica em Cannes”.

Outro título da Mostra exibe uma Hungria de 30 anos atrás. O Lago Balaton, dirigido por Péter Forgács, até poderia servir de prólogo a este conjunto de filmes que retratam a Europa após a queda da URSS. O famoso lago já foi tema de um drama húngaro em 1932 (The Verdict of Lake Balaton), e este agora é um documentário que trata da relação da Hungria com a então Alemanha Oriental. Imagens de arquivo, incluindo videos domésticos, e imagens feitas pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha socialista, indicam como era a vida nos anos 60, 70 e 80 no balneário húngaro e como ele servia de paraíso para os alemães confinados da Alemanha Oriental. Um documentário convencional, recheado de depoimentos de quem viveu àquela época, mas que chegam a assustar. Afinal, há tão pouco tempo os alemães viveram situações surreais, não lhes sendo permitido cruzar fronteiras, exceto com a Hungria.

Situação surreal é a enfrentada pela Romênia nos dias atuais. Se com o insano Nicolae Ceaușescu os romenos eram obrigados a viver num dos regimes mais fechados do mundo, num clima de terror, agora precisam conviver com seres abjetos, os novos ricos romenos. Ao menos este é o tratamento dado pelo diretor Dieter Auner no documentário Fora do Caminho (Off the Beaten Track). Este romeno que nasceu na terra do drácula, a Transilvânia, região onde o filme é rodado, mostra um ano na vida de uma família e seus vizinhos num cenário rural.

A Romênia, que no período Ceausescu era conhecida apenas pela campeã olímpica Nadia Comanecci, é um dos países do Leste Europeu que mais exportam cidadãos para trabalhar na Alemanha. E entre imagens bucólicas das lides dos pastores com suas ovelhas, temos as idas e vindas de donas de casa que deixam suas famílias por meses para trabalhar como operárias na Alemanha. Com os euros ganhos com muito suor trazem roupas e bugigangas entre eletrodomésticos e eletrônicos. Como crianças, encantam-se com o acesso até então proibido ao mundo do consumo, mas é possível percebermos o amargor que emerge disto tudo.

Concebido como documentário observativo, não temos o comentário do diretor, mas nas escolhas que faz ao parar sua câmera em determinado personagem, em determinado objeto, notamos sua intenção de expor as mazelas que a nova configuração da Europa impõe. Os seres abjetos ficam por conta dos espertos empresários de última hora que desfilam com carros de luxo pelas estradas enlameadas da Romênia interiorana. A cena em que um desses novos ricaços açoita o animal de carga que empacou numa estrada é de brutalidade difícil de digerir.

Religão

Outro romeno, Além das Montanhas (Dupã Dealuri), através da ficção consegue nuançar melhor seus personagens. Dirigido por Cristian Mungiu, premiado com a Palma de Ouro em Cannes com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, seu segundo longa adentra o mundo do cristianismo ortodoxo para falar de duas romenas que eram namoradas, tendo crescido juntas em um orfanato. O tempo do filme acontece quando Alina volta da Alemanha para buscar Voichita, por quem é ainda apaixonada, e encontra a amiga vivendo num convento regido por um padre cristão ortodoxo. O embate religioso-filosófico entre a moça revoltada e o padre configura-se como uma das forças deste filme que irá concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. A beleza e o exotismo do cenário, somados ao drama que pode ter caráter universal, dão ao filme sérias chances de bilheterias razoáveis e prêmios pelo mundo. Um deles já conquistado, como o de Melhor Atriz, dividido em Cannes pelas atrizes Cosmina Stratan e Cristina Flutur. E o melhor do diretor Mungiu, características presentes no longa anterior, é como trabalha a forma, investindo em planos-sequência sem exibicionismo; e como trabalha o conteúdo, não demonizando personagens. Mesmo o padre, que num primeiro momento pode ser visto como vilão, na verdade está “protegido” pela crença religiosa, fato este respeitado pelo filme. O bem e o mal não estão na superfície e Mungiu tem maturidade suficiente para não cair na tentação de alguns jovens diretores do Leste Europeu, que delineiam o perfil dos seus personagens entre as vítimas e os que rapidamente estão ganhando dinheiro, dividindo a sociedade entre uma casta de indefesosos e outra de predadores, inescrupulosos, criminosos, desprezíveis.

Personagens assim estão presentes no representante da Bósnia, Crianças de Sarajevo (Djeca, co-produção com Alemanha, França e Turquia). Neste registro ficional, dirigido pela cineasta Ainda Begic, temos como protagonistas dois órfãos da guerra dos Balcãs: Rahima, de 23 anos, e seu irmão Nedim, de 14. Crescidos em orfanatos, agora é a irmã quem cuida do irmão, lutando para que ele não se envolva na criminalidade. O diferencial deste filme em relação aos outros comentados aqui é o componente da religião islâmica. A Bósnia Herzegovina, mais conhecida entre os cinéfilos por ser o país de Emir Kusturica, tem maioria étnica de bósnios, seguida por sérvios e croatas: e isto significa que possui maioria muçulmana. Mas à época de Tito, os conflitos estavam controlados e o país era compulsoriamente laico. Com a guerra, países muçulmanos como a Arábia Saudita, passaram a injetar dinheiro para a construção de escolas e hospitais. A ajuda tinha (tem ainda) seu preço: para dar uma bolsa de estudos a uma menina, por exemplo, é exigido que ela passe a usar o véu para cobrir os cabelos, e as mulheres da família devem fazer o mesmo. Por outro lado, entretanto, as mesquitas também oferecem apoio espiritual, e é isto que se subentende tenha acontecido com a personagem de Rahima. Ela passou a usar o véu para suportar o peso da responsabilidade para com o irmão e o trabalho numa cozinha de restaurante. Seus problemas se agravam com o comportamento delinquente do irmão, e neste aspecto temos novamente um procedimento que chama a atenção.

Mais uma vez, nos parece que existe a necessidade desses jovens diretores denunciarem o que restou das experiências socialistas, e para isto colocam em cena, sem matizes, vítimas e algozes, bons e maus. Se no filme romeno vimos uma cena brutal de espancamento, sem que o personagem algoz nos fosse ao menos apresentado, em Crianças de Sarajevo temos um ministro que não titubeia em cobrar favores sexuais de Rahima, na frente da própria esposa. O político, a estas alturas já milionário, é hediondo com as mulheres, e ponto final.

A ânsia de mostrar as populações que sofrem leva os diretores, ao menos neste recorte, a trabalhar maniqueisticamente personagens como se fossem tipos de novelas ligeiras. A objeção, no entanto, não elimina a sugestão de que estes filmes sejam vistos quando, otimismo à parte, estrearem nos cinemas, ou quando lançados em DVD. Apenas que os espectadores devem vê-los com a consciência de que são obras a retratar um universo nada plano e em plena ebulição.

OS ANTI-MUSICAIS DE MIGUEL GOMES

Por Alysson Oliveira

Se os três longas do cineasta português Miguel Gomes têm um ponto de intersecção, este se dá particularmente pela música. Em todos há ao menos um personagem cantando em cena. Mas nem por isso se pode dizer que são musicais no sentido estrito do termo. Seria possível até chamá-los de antimusicais, pois neles a música não é a razão de ser do filme, mas um intruso que destoa e introduz um colorido especial.

Seu primeiro longa, A Cara que Mereces, de 2004, apresenta logo no começo uma fada cantando para um caubói, debaixo de chuva torrencial. Ele é Francisco (José Airosa), que está completando 30 anos, idade a partir da qual, segundo um ditado luso, vai ter então a cara que merece. Ele é mal humorado, e sua namorada (Gracinda Nave) tenta, em vão, animá-lo. Está preparada uma festa-surpresa para ele, mas, depois que uma das crianças da escola onde trabalham se acidenta, ele manda cancelar.

Na segunda parte, Francisco está sozinho numa casa de campo, de cama com sarampo, e surgem sete amigos para cuidar dele. O sujeito cria uma série de regras e obrigações para os colegas, e nunca sai do quarto. Não é difícil relacionar esses personagens com a encenação de “A Branca de Neve”, feita na primeira parte do filme pelos alunos de Francisco.

O segundo longa do diretor, Aquele Querido Mês de Agosto – o único até agora lançado comercialmente no Brasil -, ganha o seu título a partir de uma música cantada por uma personagem. No longa de 2008 – ganhador do prêmio da Crítica da Mostra daquele ano – há um experimento formal: um filme com seu making off embutido no meio da narrativa. Para apreciá-lo é preciso mergulhar em sua história fraturada, na qual o canto de uma personagem é o guia.

Já em Tabu , seu mais recente longa – premiado em Berlim, exibido na Mostra, e com previsão de estreia para o próximo ano –, um dos personagens centrais é baterista, e este trabalho é o que lhe possibilita sair da África, onde mora, e fugir de um amor complicado. Com diálogo, tanto com Almodóvar quanto Murnau, o longa escrito e dirigido por Gomes (e coproduzido pelos brasileiros Caio e Fabiano Gullane) transita entre Lisboa e o coração da África, remetendo igualmente à herança colonialista de Portugal.

Na primeira parte, Pilar (Teresa Madruga) ajuda a sua vizinha Aurora (Laura Soveral), mulher de idade e sem muito juízo, que está sob os cuidados da empregada, Santa (Isabel Cardoso). O trio de personagens tem um quê de Almodóvar, com suas excentricidades e cumplicidades femininas. Gomes se inspira no colega espanhol para fazer um retrato feminino engraçado e tocante.

A segunda parte distancia-se completamente da primeira, inclusive no cenário. Quando Aurora cai gravemente doente, deixa com Santa instruções para procurar Ventura (Henrique Espírito Santo), uma figura essencial de seu passado e que, agora velho, desvenda para Pilar e Santa sua conturbada paixão por Aurora. Por meio de flashbacks, acompanhamos o desenrolar dessa história de amor – com os personagens jovens interpretados por Ana Moreira e Carloto Cotta.

Rodado num belíssimo preto e branco, Tabu ganha força com a paisagem da África e, ao mesmo tempo que desenvolve o drama pessoal de Aurora e Ventura, também faz um retrato da presença portuguesa no Continente. As contradições e tensões sociais do lugar vão aparecendo de forma sutil nas entrelinhas desse filme, que no Festival de Berlim ganhou os prêmios Alfred Bauer (concedido a longas que abre novas perspectivas artísticas), e da crítica internacional.

ECOS DA 36ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Por Antonio Carlos Egypto

Este ano acompanhei a Mostra com mais parcimônia: vi 38 filmes. Levando em conta que minha média histórica tem sido ver em torno de 60, até que foi um número modesto. O suficiente, porém, para destacar entre os que vi alguns ótimos, algo já esperado pelo histórico de seus realizadores, descobrir algumas pérolas, vindas de filmografias menos conhecidas: além dos diretores de primeiro ou segundo trabalho.

O filme que mais apreciei, como um fruto extremamente saboroso, pelo cuidado da sua construção e profundidade de alcance foi Além das Montanhas, do cineasta romeno Cristian Mungiu, que já havia me entusiasmado por seus trabalhos anteriores, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o melhor filme sobre o aborto na ilegalidade que eu já vi, e a ótima comédia Contos da Era Dourada, que detona o totalitarismo de forma hilária e foi concepção dele, que também dirigiu um dos episódios.

Gostei muito de ver o inovador Tabu, do cineasta português Miguel Gomes, de quem foi exibida a sua produção, ainda pequena. Já havia visto e apreciado Aquele Querido Mês de Agosto, que foi novamente apresentado. E conheci A Cara que Mereces, menos interessante, mas uma brincadeira no mínimo curiosa, apesar de arrastada, para um longa.

Foram ótimos programas, Perder a Razão, de Joachim Lafosse, diretor que já havia me entusiasmado com Lições Particulares, de 2008, e Propriedade Privada, de 2006. Marco Bellocchio fez um belo filme sobre a eutanásia, em A Bela que Dorme. O dinamarquês Thomas Vinterberg filmou o outro lado do abuso sexual, a incriminação de um inocente, em A Caça, que complementa o seu famoso Festa de Família, de 1998. O mestre português Manoel de Oliveira, aos 104 anos de idade, não decepcionou com O Gebo e a Sombra, uma peça teatral filmada com beleza e simplicidade, que fala ao nosso tempo, apesar da aparência em contrário. Gostei também de Reality, o novo filme do italiano Matteo Garrone, de Gomorra, de 2008. E revi O Espelho, do Tarkóvski, o que valeu a pena. Mas, convenhamos: não há grandes surpresas aí.

Já os filmes, O Guia Pervertido do Cinema e O Guia Pervertido da Ideologia, para mim, foram boas surpresas. Dirigidos pela inglesa Sophie Fiennes abrem espaço para as ideias, às vezes originais, às vezes polêmicas, do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek e, apesar do estilo palestra, nota-se qiue ela encontrou meios visuais ligados aos filmes abordados, colocando o intelectual dentro deles, o que realçou alguns aspectos do assunto tratado, driblando o cansaço, inevitável, nesses casos.

Sonata Silenciosa, de Janez Burger, da Eslovênia, conta história sem palavras, faladas ou escritas (exceto “Circus Fantasticu”, no caminhão da trupe): e o faz com eficiência.

Gostei também do filme alemão-turco de Shiar Abdi, Vidas Curdas, visualmente bonito, embora com elementos de difícil compreensão para nós. Também trata de vidas curdas em vias de cometer suicídio a produção do Irã e Iraque, 111 Garotas, de Nahid Ghobadi e Pijan Zamanpira: uma viagem alegórica de belas imagens, que acaba por nos remeter à dura realidade daquele povo. A Última Sexta-Feira, de Yahya Alabdalla, da Jordânia, também tem uma bela fotografia, e trama razoavelmente estruturada. Mais intenso, e ao mesmo tempo econômico no uso da fala e das emoções, Estudante, de Darezhan Omirbayev, do Cazaquistão, faz uma boa adaptação de “Crime e Castigo”, de Dostoievski. O faroeste português Estrada de Palha, de Rodrigo Areias, não chega a ter uma trama muito bem armada, mas é bonito, visualmente. E, óbvio, curioso.

Em Família, primeiro filme do diretor norte-americano de ascendência oriental, Patrick Wang, trouxe a abordagem do relacionamento humano forte e madura. Istambul, de Török Ferenc, da Hungria, trata com propriedade da libertação feminina, ainda digna de estranheza em certas situações e contextos.

O documentário Lado a Lado, de Chris Kenneally, dos Estados Unidos, discute os métodos de criação no cinema digital e em película a partir de depoimentos de quem faz cinema: cineastas, técnicos, artistas. O Amante da Rainha é uma produção dinamarquesa, de Nikolaj Arcel, capaz de agradar públicos diversificados. Já O Rei do Curling, de Ole Endresen, da Noruega, é bem mais específico, tanto pelo assunto, quanto pelo tipo de humor: mas funciona. Renoir, de Gilles Bourdos, da França, tem a beleza plástica das locações e da procura dos tons das cores dos quadros do pintor retratado, valendo por isso.

Dos brasileiros da Mostra, o destaque foi para O Som ao Redor: uma situação que vai se construindo com muita perícia e nos impacta ao final: sem falar do som, que é mesmo envolvente e personagem da história. O trabalho de Kleber Mendonça Filho é muito bom.

Deixei para o final a citação de uma verdadeira pérola: o filme do Azerbaijão, Nunca Houve um Irmão Melhor: fui a uma sessão regular do evento apenas para conferir, garimpar, alguma curiosidade ou novidade, e fiquei muito bem impressionado. O filme do diretor Murad Ibragimbekov tem tratamento visual rico e caprichado. A construção da trama é consistente, sensível. Consegue lidar com o conflito entre intenção e desejo com sutileza, e ainda conta com a metáfora das abelhas para explicitar/explicar o desfecho. Só para encontrar um filme como esse já vale o empenho em frequentar regularmente essa Mostra.

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Textos de Jurados da Abraccine

Aqui, considerações de alguns jurados que compuseram o Júri Abraccine, sobre uma fatia mais delimitada de filmes, já que tiverm de julgar sobre 14 títulos nacionais pré-determinados.

OS DOCUMENTÁRIOS

Por Gabriel Carneiro

Dos 14 filmes inéditos de diretores brasileiros com até segundo longa-metragem colocados à avaliação do Júri Abraccine, nove eram documentários, que seguiam a cartilha do gênero. A saber: A Arte de Interpretar – A Saga da Novela Roque Santeiro, de Lucia Abreu; A Porta Larga, de Aleandro Tubaldi; Antes do Fim do Mundo, de Sabrina Marostica e Herbert Gondo; Embu – Terra das Artes, de Maria de Fátima Seehagen; Francisco Brennand, de Mariana Brennand Fortes; Rapsódia Armênia, de Cassiana Der Haroutiounian, Cesar Gananian e Gary Gananian; Muito Além do Peso, de Estela Renner; Pra Lá do Mundo, de Roberto Studart; e Metro, de Guilherme B. Hoffmann.

Um mal presente do documentário brasileiro em geral é a completa falta de preocupação estética e narrativa, como se documentário não fosse gênero cinematográfico, como se bastasse apenas o registro, meia-dúzia de informações novas (às vezes nem isso), e o filme estaria pronto. Isso, claro, pensando-se em documentário para cinema. Outros suportes como televisão, internet, home-vídeo, etc, são todos legítimos e devem ser feitos. Mas cada qual tem sua linguagem, e deve-se saber adequar o produto ao seu suporte. Se tal problema é visto freqüentemente em nosso cinema, a seleção de filmes em competição da 36ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo não só fez notável panorama desses documentários, como agregou alguns dos piores do gênero.

Um filme como Embu – Terras das Artes, por exemplo, é o pior tipo de panfleto que existe: não considera a parte técnica, narrativa, visual ou estética. A única preocupação do filme estava em repetir exaustivamente os problemas que têm acometido a cidade de Embu das Artes (SP): especialmente a transformação da cidade cultural em cidade industrial. E as queixas sobre como o governo não liga para o turismo ou para o artesanato chovem à exaustão. Entende-se a opção da diretora em dar uma versão da história, mas será que o fato de se repetir, sem ter qualquer percepção do que está fazendo em termos fílmicos, só não afasta as pessoas desse caso? É aquele tipo de trabalho que só congrega os já congregados. Há tentativas de dar um respiro: porém, colocar poesias de artistas locais ao som de música melódica e bonita no talo só faz o momento lembrar um power-point mal feito que circula em correntes via web. No mais, o filme se resume a diversas entrevistas, quase todas com o mesmo conteúdo.

Aliás, cabeças falantes foi um dos principais problemas atentados. Documentário para cinema não é (mau) jornalismo e não deve se ater apenas a entrevistas didáticas, com pessoas sentadas, geralmente à frente de uma mesa e atrás de uma estante de livros, com quadro fixo nelas. Filmes como Antes do Fim do Mundo e A Porta Larga sofrem do mesmo problema. O primeiro, sobre como diversas religiões vêem o fim do mundo, com exceção da evangélica, e o segundo, sobre uma prisão para mulheres que se tornaram mães, não conseguem levar além suas propostas – se é que há uma definida. Pior: dificilmente conseguem boas entrevistas ou depoimentos, já que as pessoas ouvidas raramente acrescentam algo novo. São poucas as vezes que se preocupam em observar: mais A Porta Larga do que Antes do Fim do Mundo. Porém, A Porta Larga mais parece versão piorada de Leite e Ferro, de Cláudia Priscilla – que já não é um grande filme -, pois não tem nenhum foco narrativo.

Falta de foco é o principal problema de Rapsódia Armênia: filme que até apresenta bons momentos, especialmente quando se põe a retratar os armênios, com concepção cinematográfica no momento de enquadrar, muitas vezes, mas que não sabe para onde atirar. Em 63 minutos, parece querer abarcar tudo que há na Armênia: dos problemas sociais ao casamento exótico. O trio de diretores, que fez praticamente tudo sozinho, não sabe o que quer. Os depoimentos são muito fracos – o que denota que os entrevistadores não eram bons -, e são inseridos de maneira que não façam o menor sentido. O filme tem outro grande problema, de ordem técnica, que influencia bastante o resultado: a falta de foco da câmera, que nunca se fixa em um ponto, além da má qualidade da captação do áudio.

Pra Lá do Mundo, pelo contrário, é muito bem resolvido tecnicamente: belos planos, controle das imagens, premissa interessante. E o melhor: consegue ótimos depoimentos. Porém, o diretor não sabe quando terminar o filme sobre uma comunidade na Chapada Diamantina que está perdendo suas características de paraíso natural. E aí o filme padece do mesmo problema de Embu, virando quase um panfleto contra a modernidade, em depoimentos que se repetem à exaustão. Daria um bom curta-metragem.

Saber quando parar o filme é outro problema freqüente em documentários. Os diretores tendem a achar tão fascinantes seus objetos que simplesmente prolongam a duração de suas obras: não importa se são estão se repetindo, se muitas coisas não são tão interessantes, deixando o filme irregular, etc. Metro, experimento solitário de um brasileiro estudante de cinema em Paris, também tem seus acertos, especialmente quando assume sua precariedade. É filme que aposta na observação do metrô parisiense, acompanhando personagens, alguns bastante interessantes e enigmáticos, mas que não sabe até que ponto ir. O diretor entende quais são seus melhores personagens e volta a eles o tempo todo, o que os torna não tão interessantes, em particular o mendigo, que por si só daria um curta-metragem, mas que em Metro parece sobrar, depois de certo tempo. Isso sem contar a desnecessária e “infantilóide” introdução e encerramento com voz over em primeira pessoa.

Outros, como A Arte de Interpretar – A Saga da Novela Roque Santeiro e Muito Além do Peso, não são ruins, mas estavam completamente perdidos dentro de uma seleção de filmes para cinema. A Arte de Interpretar, que apesar do título pouco fala da arte de interpretar é um interessante making of da novela “Roque Santeiro” e funcionaria bem como extra de DVD, porque o que interessa à diretora é retomar, sem qualquer análise crítica, a história de um fenômeno cultural, calcado em imagens de arquivo e entrevistas, com direito a grafismos e cartelas típicas do vídeo. Muito Além do Peso é bastante simpático, e até importante, sobre a obesidade infantil. Deve ser visto, especialmente por pais e educadores. É trabalho para circular na TV e na internet e, principalmente, em espaços educativos. Muito didático, com entrevistas com especialistas brasileiros e estrangeiros, e acompanhando crianças obesas, que sofrem de doenças diversas por conta do sobrepeso, o filme tem função social muito acima da questão cinematográfica. É isso apenas que interessa à diretora, que consegue bons momentos, como, por exemplo, quando mostra alguns vegetais para a criançada. Diversamente de Embu, Muito Além do Peso, sabe qual caminho trilhar para impactar o espectador.

A exceção fica por conta de Francisco Brennand, o único filme realmente cinematográfico da seleção de documentários. Dirigido pela sobrinha do artista plástico pernambucano que dá nome ao filme, mas sem cair em possíveis armadilhas afetivas que o parentesco pode trazer, com produção da Videofilmes, e com bastante estrutura por trás, Francisco Brennand dá conta de seu personagem e de sua complexidade enquanto artista, sem precisar legitimá-lo através de depoimentos de terceiros. Apenas Brennand é entrevistado, raramente sentado. Mariana Brennand Fortes acompanha-o em suas tarefas, observa seu palacete e sua arte, e busca narrativa introspectiva, pessoal e original. A partir de trechos incomuns do diário do escultor, narrados pela atriz Hermila Guedes, que serve de modelo para pinturas suas, em determinado momento, a história transcorre. Pouco importando a didática, a cronologia, etc, a informativa factual e pontual está em segundo plano. O importante ali é entender o personagem. Não à toa, foi o filme premiado pelo júri.

ABRACCINE ELEGE DOCUMENTÁRIO COMO MELHOR FILME

Por Tatiana Babadobulos

Pela primeira vez a Abraccine compôs júri para Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: responsável por eleger o melhor filme entre os selecionados para na categoria Novos Diretores. A comissão julgadora ficou com Francisco Brennand, documentário de Mariana Brennand Fortes.

Os jurados tinham que fazer sua escolha entre 14 filmes, numa categoria em que estavam cineastas com até o máximo de dois longas-metragens realizados. No concurso, a maioria era composta por documentários: mas nenhum com tema pulsante ou atual para animar os espectadores, tampouco o próprio júri.

Dois filmes da competição preferiram a fotografia preto e branco, o caso de Cores e Sinfonia de um Homem Só: dois longas de ficção. Por serem no formato digital, o p&b não enriqueceu as obras. Ao contrário: ficaram mais cinzas.

Outros, fizeram escolhas de temas ultrapassados, sem justificativa alguma para retomada de assuntos, como foi o caso de A Arte de Interpretar, sobre a novela dos anos 1980 “Roque Santeiro”, e Pra Lá do Mundo, que aborda a Vila do Capão, na Chapada da Diamantina – filme que retoma o tema do conflito entre locais e turistas/novos moradores. A Porta Larga retoma o assunto que já foi filmado uma vez – presidiárias que acabaram de ter filhos – , mas sem trazer novidades: apenas cansa o espectador quando resolve projetar um culto evangélico inteiro…

Francisco Brennand conta, poeticamente, a história do artista plástico que vive fechado em sua propriedade no nordeste do país, onde cria esculturas e pinta quadros. A história dirigida por Mariana Brennand Fortes é contada a partir dos seus diários, o que justifica, em parte, uma cansativa narração em of. Mas há depoimentos bem-humorados do próprio artista para justificar sua opção.

Outro ponto positivo do filme da diretora (sobrinha-neta do retratado) é a fotografia de Walter Carvalho: como se fosse um adicional que nenhum outro diretor da categoria teve.


BALANÇO DA 36ª MOSTRA – JÚRI ABRACCINE


Renato Silveira

Menos da metade dos 14 longas-metragens selecionados pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para a competição “Novos Diretores” se mostrou merecedora de participar de um festival deste porte. Esta constatação a que o júri ABRACCINE chegou revela menos um despreparo dos diretores que se arriscaram a assinar um longa, e mais um descuido da curadoria ao selecionar os concorrentes ao prêmio.

Mas vamos começar por cima para não desanimar o leitor. A produção premiada por nosso júri foi Francisco Brennand, documentário dirigido por Mariana Brennand Fortes sobre o artista plástico que dá título ao filme, um personagem, um artista, um homem fascinante e que recebe da jovem cineasta retrato cativante e que instiga o espectador a conhecer sua obra além da tela de cinema. Francisco Brennand é de fato um grande filme, e que não se sobressaiu aos outros simplesmente por serem eles inferiores. É um filme que pudemos escolher com a consciência tranquila, mas lamentando por ele não ter tido mais de um ou dois concorrentes à altura. Cito aí duas ficções que fizeram frente ao documentário nas discussões do júri: Sinfonia de Um Homem Só e Cores.

O primeiro, dirigido por Cristiano Burlan (segundo longa), aposta corajosamente na introspecção de seu protagonista para construir uma atmosfera urbana opressiva, que leva o personagem a se transformar num encontro com ele mesmo, na calmaria e no falso silêncio do campo. Filme que atinge notas altíssimas ao não fraquejar na duração e na construção de sentido dos planos, mas que também vacila ao escolher alguns simbolismos desgastados. Já Cores, de Francisco Garcia, ainda que seja mais irregular que Sinfonia de Um Homem Só, também foi capaz de levantar discussões tanto por sua estética (a escolha pelo preto e branco, que acaba por limitar o pontecial fotográfico – um problema que também afeta o filme de Burlan) quanto por seu discurso (a conjuntura política em que ele mesmo se insere para refletir um ponto de vista que não seria condizente com a realidade social do país).

Alguns outros títulos da competitiva apresentaram, ao menos, aspectos cinematográficos e narrativos que justificam não meramente a inscrição na Mostra, mas sua presença na competição. Dentre as ficções temos, inclusive, filmes que dialogam entre si: Nove Crônicas de um Coração aos Berros, de Gustavo Galvão, que monta mosaico de personagens confinados em suas rotinas e dramas particulares, e Lacuna, de André Lavaquial, que também fala de jovens que têm em comum certo apocalipse pessoal – são filmes irmãos de Cores na temática abordada.

Mesmo Jardim Atlântico, de Jura Capela, trabalho que apresenta boas cenas em meio a roteiro desconjuntado sobre um triângulo amoroso, você vê e entende ele ter sido selecionado. Já entre os documentários fica a dúvida do critério utilizado pela curadoria. Alguns títulos são minimamente interessantes, como Metrô, de Guilherme Hoffmann, Rapsódia Armênia, de Cassiana Der Haroutiounian, Cesar Gananian e Gary Gananian, e Pra Lá do Mundo, de Roberto Studart. Já, Muito Além do Peso, de Estela Renner, Antes do Fim do Mundo, de Sabrina Marostica e Herbert Gondo, A Porta Larga, de Aleandro Tubaldi, A Arte de Interpretar – A Saga da Novela Roque Santeiro, de Lucia Abreu, e Embu – Terra das Artes, de Maria de Fátima Seehagen, estão muito aquém do que a Mostra pode apresentar e do que o público merece assistir. Aqui, o diálogo entre os filmes existe na pobreza da abordagem temática e no amadorismo da realização, que em alguns casos nos leva a crer estarmos diante de um making off, um extra de DVD (A Arte de Interpretar): ou até mesmo vídeo institucional (Embu, pelo qual a diretora chegou a se justificar diante da plateia, antes da apresentação do filme, afirmando não ser uma cineasta). Cabe a reflexão, uma vez que tantos filmes abaixo da média acabam por enfraquecer a seleção como um todo, e colocam em dúvida a capacidade e méritos artísticos dos realizadores que se destacaram.

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