Dossiê/Balanço do “45º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília” + Especial (Seminário Paulo Emílio e a Crítica Cinematográfica)

Por Ivonete Pinto

Pernambuco ataca

O 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibiu em competição nada menos do que sete filmes de Pernambuco: três longas de ficção, um documentário e três curtas.   Não concorrendo, ainda havia O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, na mostra Panorama Brasil.

Esta invasão pernambucana faz lembrar que um dos ciclos mais conhecidos da história do cinema brasileiro aconteceu naquele Estado, na década de 1920, e que talvez neste distante tempo comecemos a encontrar a semente para a quantidade de filmes produzidos lá, agora. No entanto, não é simplesmente por ter sediado ciclos que o cinema pernambucano exibe a qualidade que exibe. O Rio Grande do Sul também teve seu ciclo e hoje, mesmo que com um expressivo número de longas, produz um cinema anódino, salvo exceções.

A semente nordestina demorou para germinar. Conforme o site criado recentemente para dar conta do tema (www.cinemapernambucano.com.br), somente nos últimos dez anos foram produzidos mais filmes do que nos cem anos anteriores. O fato da capital, Recife, só há quatro anos ter um curso de graduação em cinema (Universidade Federal de Pernambuco) também não serve para explicar o boom pernambucano. Não há alunos formados ainda, e tomando por exemplo o Festival de Brasília, não havia produção  originada no curso. O que se pode prever é que, do gás que se armazena ali, emerjam filmes no mínimo interessantes.

Aliás, os inúmeros cursos de cinema no Brasil alteram o quadro da produção no aspecto da mão de obra, mas ainda não têm revelado talentos na linha de frente. Não têm aparecido nomes, ao menos na perspectiva da crítica e dos editais, em que se possa afirmar: fulano de tal fez um grande filme e sua formação se deu na universidade.

De um lado, o fomento público, através de editais e concursos; de outro, a existência de coletivos, o frescor, a carga provocativa, o investimento na linguagem e a temática que encara  os problemas mais urgentes do Brasil (a violência, principalmente). Estes são os aspectos que mais chamam a atenção neste “novo” cinema pernambucano que (re)começou lá com Baile Perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Calda, 1997) e hoje já está na segunda geração.  A turma, para ficar nos que estavam em Brasília, na faixa dos 30 anos, composta por, entre outros,  Gabriel Mascaro, Pedro Severien, Marcelo Pedroso, Marcelo Lordello e Daniel Aragão,  convive com a turma  em torno dos 50, com nomes como Lyrio Ferreira, Cláudio Assis, Paulo Caldas e Marcelo Gomes. Entre eles, numa geração intermediária, Kléber Mendonça Filho, por sinal o nome que mais êxito obtém na operação forma-conteúdo e cujo filme, O Som ao Redor, é sua melhor realização.  A convivência entre os grupos não pressupõe sintonia absoluta e há quem, da geração pernambucana mais jovem, tenha reclamado do prêmio de melhor filme em Brasília dado a Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes. Em compensação, como houve empate, o também “melhor filme” foi para Eles Voltam, de Marcelo Lordello.

Destaco aqui alguns dos títulos, começando por Era Uma Vez Eu, Verônica, cujo diretor causou forte impacto com seu Cinema, Aspirinas e Urubus (2005). Quando Marcelo Gomes lançou Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009), o impacto foi maior ainda, pois apresentou um filme criativo, que demonstrava ser possível encontrar algo novo na linguagem sem esquecer de mostrar um Brasil que não aparece nas reportagens festivas sobre a ascensão das classes C e D. “Viajo”, codirigido com o cearense Karim Aïnouz, trouxe uma energia, uma vontade de falar de cinema brasileiro que há algum tempo não aparecia (mais uma vez, ressaltando a perspectiva da crítica). Esse filme, com seu protagonista que não aparece e de quem temos apesar disto toda sua complexidade, representa uma retomada de oxigenação no cinema nacional. Por isso, Marcelo Gomes era um nome de quem esperávamos muito. Veio Era uma Vez Eu, Verônica, um dos bons filmes do festival, mas que deixou aquela sensação de “só isto”?

Fosse esse o primeiro filme do diretor, certamente seria mais celebrado (o excesso de expectativa em geral é nosso inimigo). Este pode até ser seu projeto mais esmerado, com personagens explorados em seus vários ângulos e com um trabalho de direção de atores mais pesado. No entanto, a ausência de uma ambição maior em termos temáticos e estéticos pode ter deixado a crítica – ou parte dela – um tanto frustrada.  O filme abre e fecha com um grupo de mulheres e homens nus numa praia, numa mise-en-scène que vulgarmente é chamada de suruba. Ora, para o comportado cinema brasileiro produzido em outros estados, esta provocação é bem-vinda. Mas como a proposta é ser apenas naturalista e não realista, não nos convencemos muito com a encenação. Como em outras sequências envolvendo sexo – a personagem de Hermila Guedes, Verônica, pratica o sexo com liberdade, sintonizada no seu tempo – falta algo a persuadir o público. Os órgãos genitais masculinos em total ausência de ereção nos dizem que o prazer dos personagens acontece apenas através da expressão facial. E isto, num filme em que se enaltece o trabalho dos corpos dos atores, soa com uma contradição. É preciso buscar os “estados de alma” e os “estados de corpo” saudados por Serge Daney, a propósito de Leos Carax. É evidente que não são os membros flácidos que frustraram a expectativa do público, eles são apenas a ilustração. O filme de Cláudio Assis, Febre do Rato (2011), também padecia desta exteriorização como forma de apresentar o real, mas saltava da tela um personagem visceral (o poeta de Irandhir Santos), e talvez o que falte à  personagem Verônica seja uma intensidade  e uma potência queo filme de Gomes como um todo  não tem.

E a potência pode vir já no projeto.  Os dois documentários, Câmara Escura e Doméstica, por exemplo, são filmes que nos deixam pensando para além do tempo da sessão. Marcelo Gomes, no debate no dia seguinte à exibição, discorrendo sobre o que torna um filme clássico, citou Calvino: um clássico é uma obra que persiste como rumor. É cedo para saber se “Verônica” irá persistir nesta dimensão, mas se depender de impacto, Câmara Escura e Doméstica têm mais chance.

Os docs

Concorrendo na mostra curta-documentário,  Câmara Escura, de Marcelo Pedroso, foi injustiçado ao não levar prêmio algum. Pena não existir, entre as sete dezenas de prêmios em Brasília, um para argumento original.  A realização dele, como o do longa Pacific (2009),  também de Pedroso, pode incomodar os que preferem produções de aspecto mais asseado, com enquadramentos e luz elegantes. Mas é da natureza deste argumento que vem a forma: uma câmera é deixada em casas de um bairro de alto poder aquisitivo do Recife. A reação das pessoas que recebem o presente inusitado é a matéria-prima de Pedroso. Num diálogo estreito com Pacific, onde as imagens usadas foram capturadas por turistas de um navio, Câmara Escura é um expoente desse cinema pernambucano que quer entender a origem da escalada da violência naquele Estado. Violência esta encontrada, também em escala ascendente, em outras regiões. E a complexidade, no curta, se dá pelo papel das imagens na sociedade. A mesma família que poderia estar em Pacific pavoneando-se para as câmeras, poderia ser a que tem medo da câmera suspeita e, ato contínuo e paradoxal, serve-se das imagens que sua câmera de vigilância capta na rua.  Big brother, sim, mas só até onde interessa.

Em Doméstica, de Gabriel Mascaro, a câmera, ou melhor, sete câmeras são as indutoras de toda a ação. Os equipamentos foram entregues a sete adolescentes para que filmassem as empregadas domésticas de suas casas nas suas rotinas. O documentário, ao revelar as relações entre patrões/empregados, lança um olhar que atualiza Gilberto Freyre. E mais, ao colocar no projeto casas de família C e D, com suas domésticas, reflete sobre esse novo País, herdeiro do patriarcado e da escravidão, apontando para a violência interna e externa existente. O filme, ao buscar um equilíbrio de perfis para não cair na manipulação de patrões bons e ruins, alcança um patamar de rico estudo sociológico. Quem pensa o Brasil de modo crítico, profissionalmente ou para consumo próprio, precisa ver estes dois filmes.

E precisa ver, também, especialmente por causa das cenas do hospital, Era Uma Vez Eu, Verônica, porque embora as restrições expostas acima, o filme não se recusa a tratar do Brasil urgente e mostra que se existe um País que prospera, há outro que convulsiona.

E não pode perder, claro, O Som ao Redor, que continua sendo a obra mais bem acabada vinda do Recife nos últimos tempos. Acabada no que se refere àquela ideia de Paulo Emilio Salles Gomes sobre a necessidade do filme não se desconectar da realidade, e ao mesmo tempo vir imbuído de uma proposta formal poderosa. A discussão desta tragédia da violência crescente que nos assola, desde o Laçador de Porto Alegre, ao Marco Zero do Recife, encontrou em O Som ao Redor sua melhor expressão ficcional. O filme estreou nos festivais brasileiros em Gramado, tendo lá recebido o Prêmio da Crítica/ACCIRS (o Júri oficial preferiu uma comédia que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, e este não é um elogio tolstoniano). Brasília, que não o selecionou no ano passado por motivos obscuros, corrige agora o erro e enche a sala de 1.300 lugares do teatro Nacional Cláudio Santoro para uma sessão da mostra Panorama Brasil.

Sempre dizemos que os filmes precisam “encontrar seu público”. No caso desta nova onda pernambucana, que expõe nossas mazelas de modo inspirado, torcemos para que o público encontre esses filmes, pois é quem tem mais a ganhar.

 

Por Luiz Zanin

Considerações

Extintos os fogos de artifício da premiação, pode-se fazer um balanço mais sereno do 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Como vocês sabem, este ano foram 30 filmes em competição: 12 longas (seis ficções e seis documentários) e mais 18 curtas (ficções, documentários e animações).

Essa segmentação me pareceu muito retrógrada, em especial quando proliferam projetos híbridos como foi o caso explícito de Esse Amor que Nos Consome, que foi inscrito nas duas categorias para ser selecionado em uma (ficção). Parece piada, mas não é.

A segmentação não tem qualquer justificativa conceitual. Aparece aí, a meu ver, apenas para inflar o número de filmes e de prêmios. Por falar nisso, na cerimônia de encerramento atribuíram-se mais de 70 prêmios. Se isso não é banalização de troféus e distinções, não sei o que seja. Para efeito de comparação: um festival de tradição como o de Veneza oferece oito prêmios oficiais em sua categoria principal.

A verdade é que essa estrutura foi herdada pela nova direção do festival. Ela foi proposta pelo diretor do ano passado, Nilson Rodrigues, que caiu após conceder uma entrevista bombástica ao Correio Braziliense. Assim, a fórmula já estava pronta e apenas foi implantada pela nova direção, com Sérgio Fidalgo à testa. Ele mesmo disse que era provisória e será repensada, o que é animador.

Mesmo com mudanças, será preciso enfrentar o principal problema de Brasília: a ausência de um conselho curador composto por gente com pensamento sobre o cinema. A Capital dispõe de excelentes quadros para compor esse conselho. Além disso, poderia incorporar gente de outros Estados da federação, devolvendo ao festival o caráter com que foi criado por Paulo Emilio Salles Gomes: de ser uma janela para o cinema nacional como um todo, e dotado de caráter reflexivo como seu eixo principal.

Esse conselho curador não seria responsável pela seleção de filmes, mas apenas pela manutenção de uma filosofia de trabalho. Não elimina as comissões de seleção, mas as orienta. É importante que as comissões de seleções sejam formadas a cada ano e com um mínimo possível de repetição de nomes para que não se criem vícios ou vieses de preferência ou bairrismo. Precisa haver multiplicidade de gostos e de pensamentos.

Outro ponto que Brasília não deve abandonar: o “tapete vermelho” (simbólico, claro) é estendido para os filmes e não para celebridades. Por isso, discordo de colegas que propuseram homenagens a atores, atrizes ou diretores, mesmo que desvinculados dos filmes. Estes, os filmes, devem ser os senhores absolutos da mostra de Brasília, o que a faz diferente das outras do País.

Esperemos, enfim, pelas novidades para o próximo ano, torcendo para que Sérgio Fidalgo e Graça Coutinho recoloquem o festival nos trilhos de sua inspiração inicial.

Apesar dos equívocos da formatação, e dos excessos dela decorrentes, acho que a mostra, em seu todo, foi boa. Tivemos um apreciável número de filmes estimulantes para o exercício do nosso métier. Além disso, com exceção dos curtas, eram todos inéditos, o que é imprescindível para um festival de primeira linha. A julgar pelas reações no Teatro Nacional, acho que o público também curtiu a programação.

Como todos sabem, houve um predomínio de concorrentes pernambucanos, com a consequência final dos prêmios partilhados entre dois representantes deste Estado: Era uma Vez Eu, Verônica e Eles Voltam. Gosto dos dois, com leve preferência por Verônica que, por sua aparente simplicidade, foi subestimado por colegas.

Mas, enfim, a divisão tanto de prêmios como de opiniões qualificadas serviu para escancarar algo que deveria ser óbvio: é inegável a força no cinema pernambucano atual.

Mas não existe algo que se possa chamar de uma “escola pernambucana” de cinema, à maneira dos antigos movimentos estéticos. Pelo contrário, vimos uma amostragem de preocupações temáticas e estilos muito diferentes entre si, embora saídos do mesmo caldo cultural. Seria preciso observar mais de perto se existe parentesco ou não desse conjunto de filmes com expressões mais afastadas no tempo como o “mangue beat” ou o “árido movie”. Ou mesmo se estas expressões, já consagradas, ajudam a esclarecer alguma coisa, ou servem apenas como slogans publicitários.

Essas dificuldades me parecem positivas, embora coloquem problemas suplementares para quem mantém ambição de generalizações e análises de conjunto. Se ficarmos no “filme a filme” não conseguiremos olhar para o todo. Se buscarmos traços comuns, corremos o risco de forçar a barra em busca de generalizações. Enfim, elaborar conceitos é sempre muito trabalhoso e arriscado. Conceito exige paciência, como dizia o filósofo Gérard Lébrun (La Patience Du Concept é o título do seu livro mais importante). Acho o desafio estimulante.

Por fim, duas palavras sobre a nossa participação em Brasília. Entendo que a nossa entidade participou de maneira intensa do festival, na presença massiva dos nossos sócios (acho que éramos mais de 30 abraccineiros em Brasília), na promoção do prêmio da crítica e na organização do seminário dedicado Paulo Emilio. Este encontro, desenvolvido ao longo de três dias, conseguiu, a meu ver, evitar o principal problema das homenagens, o de ser meramente laudatório. Pelo contrário, acho que ao longo desses três dias discutiu-se o legado de Paulo Emilio no que ele pode ter de atual, intelectualmente instigante e inspirador para a nossa atividade. Quem lá não esteve, deve buscar o livro Paulo Emilio Salles Gomes – O Homem que Amava o Cinema e Nós que o Amávamos Tanto, organizado pela Maria do Rosário Caetano e editado pela Secretaria de Cultura do DF e lançado durante o festival.

 

Por Luciano Ramos

Balanço da Premiação

É possível dizer que a premiação seja a essência de qualquer festival competitivo ou, para muitos nele envolvidos, a sua

própria razão de ser – por causa dos prêmios em dinheiro e pela visibilidade desfrutada pelos ganhadores –, ainda que a mera presença num acontecimento nacional do porte deste 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro já seja de grande valia para qualquer profissional de cinema. Nesta edição, entretanto, justamente os prêmios representaram os furos nesta complexa e bem costurada rede de atrações oferecida ao público e aos participantes, composta de filmes inéditos, debates, seminários, oficinas, entrevistas coletivas, lançamento de livros, concerto sinfônico e até o patrocínio de uma cuidadosa pesquisa original seguida da publicação de um livro sobre Paulo Emílio Salles Gomes, o célebre crítico paulista que foi seu idealizador. A quantidade excessiva de prêmios causou efeito semelhante ao da inflação no sistema financeiro, ou seja, a desvalorização do símbolo criado para ser o mais importante naquele contexto.

A entrega dos doze troféus atribuídos pela Câmara Legislativa do Distrito Federal aos competidores de uma mostra brasiliense roubou tempo demais da cerimônia da premiação e funcionou como um inoportuno anticlímax para a distribuição dos prêmios principais, ou seja, os da competição nacional. O júri oficial não esteve, por sua vez, à altura da organização geral do evento, mais uma vez primorosa em todos os sentidos. Para começar, não demonstrou segurança e discernimento suficientes para escolher o melhor longa-metragem de ficção, optando por decretar um absurdo “empate” entre duas produções pernambucanas: Eles Voltam, de Marcelo Lordello e Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes – realizadores de gerações e estilos diferentes. Além de reduzir pela metade o prêmio merecido por cada um dos vencedores, tratou-se esta competição como se fosse algo equivalente a uma partida de futebol, em que vale a quantidade de gols marcada por cada equipe. Ambos os trabalhos apresentavam qualidades, mas muito mais acertada foi a decisão do júri da crítica – composto pela ABRACCINE – em ficar com Eles Voltam, esteticamente mais elaborado e bem resolvido.
Os jurados se esquivaram, assim, do problema enfrentado pela maioria dos certames em que se julga qualidade e não quantidade. Aqueles títulos forçados a dividir o prêmio possuem pouca coisa em comum, aparte o fato de serem rodados em Recife e de centralizarem a trama em figuras femininas. Como melhor atriz foi premiada a que interpretou a figura principal de um desses dois filmes – Maria Luiza Tavares, de Eles Voltam, uma iniciante de 12 anos que demonstra talento, mas fez uma personagem que, apesar de central, funcionou mais como coadjuvante. Trata-se de uma menina que é abandonada pelos pais à beira de uma estrada e passa quase o tempo todo calada, apenas reagindo às circunstâncias que o acaso lhe oferece, isto é, à deriva – assim como a garota vivida por Laura Neiva no filme À Deriva (2009) do igualmente pernambucano Heitor Dhalia. O diretor Marcelo Lordello não gostou dessa comparação objetiva entre as duas obras que eu desenvolvi no debate. Mas o fato é que esse ponto diferencia o trabalho dessa futura atriz com o de Hermila Guedes de Era Uma Vez Eu, Verônica. A atriz pernambucana de O Céu de Suely (2006) e Boca (2012) constrói uma personagem contraditória e, portanto, muito mais complexa, e criada em consonância com a ousada proposta do diretor, no sentido de elaborar um retrato feminino naturalista, social e psicologicamente adequado à realidade contemporânea.

Ou seja, o júri oficial errou na premiação de atriz e vacilou também na área dos documentários de longa-metragem, optando aí por uma atitude distributiva. Deu um “Prêmio Especial” para Um Filme Para Dirceu, da paranaense Ana Johann – que, de fato, apesar de sua aparente descontração, foi o documentário mais criativo e consistente do Festival. Mostrou-se, porém, aturdido com o requinte visual de Otto, do consagrado Cao Guimarães e o elegeu como o melhor, descartando a densidade dramática e o esforço narrativo de Elena, mas atribuindo o troféu de direção à sua realizadora Petra Costa. Os equívocos continuam no setor de curta-metragem de animação, premiando Valquíria de Luiz Henrique Marques – um razoável exercício formal na técnica de stop-motion – e ignorando o sintético e requintado Linear, de Amir Admoni, o qual, por meio de diversos procedimentos de animação, em apenas seis minutos sintetiza toda a gigantesca irracionalidade do tráfego em São Paulo. Quanto ao documentário de curta metragem, o vencedor foi o vibrante A Guerra dos Gibis, de Thiago Mendonça e Rafael Terpins, uma bem humorada e oportuna recuperação da memória de um aspecto gráfico e editorial umbilicalmente ligado à “Boca” do cinema paulista, que corria o risco de se perder. Esse foi um prêmio merecido, principalmente por que o excelente A Cidade de Liliana Sulzbach (O Cárcere e a Rua – 2004) foi apresentado em uma versão reduzida, com 15 minutos. Cortado pela metade, o filme perdeu muito do impacto original, responsável por seu sucesso no festival “É Tudo Verdade”, deste ano. Mesmo assim, a cineasta gaúcha ficou com o prêmio de direção – o que, para esta comissão julgadora, parece ter valido como um atestado de segunda colocação, como também aconteceu na disputa elo melhor documentário de longa metragem. Ironicamente, neste ano a vinheta que antecede a exibição dos filmes documenta e homenageia a confecção física da estatueta do “Candango de Ouro”, que corporifica a excelência dos artistas e técnicos vitoriosos. No meio da cerimônia de entrega os prêmios, inclusive, duas patinadoras vestidas de colant dourado entraram no palco, deslizando ágeis e sorridentes, como que para lembrar que o candango também simboliza a força da juventude e a energia do trabalho criativo.

 

———————————————————————————————————————————————————————————

 

Por Fatirmarlei Lunardelli

Seminário Paulo Emílio e a Crítica Cinematográfica

Existem momentos que são históricos e é uma felicidade estar presente na ocasião. Assim foi o Seminário Paulo Emílio e a Crítica Cinematográfica, proposto e organizado pela ABRACCINE no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, entre os dias 20 e 22 de setembro, no Kubistchek Plaza Hotel.  Paulo Emílio foi um dos maiores historiadores e teóricos do cinema brasileiro e o grande homenageado do festival que ajudou a criar. Para lembrá-lo, além do seminário, o belíssimo livro Paulo Emílio Salles Gomes: O Homem que Amava o Cinema e Nós Que o Amávamos Tanto, organizado por Maria do Rosário Caetano, constituíram-se em pontos altos de discussão e reflexão.

Dos três dias de palestras e debates emerge a atualidade do pensamento desta figura fundamental para a prática e a teoria do cinema. Tal constatação deve-se ao fato da produção textual de Paulo Emílio Salles Gomes (1916 – 1977) ainda desafiar seus leitores e, de outro, a postura como intelectual participante da cena da qual fez parte. Esse dado, de que Paulo Emílio vivia o presente de maneira visceral, mas ainda assim com lucidez e distanciamento crítico, apareceu já no primeiro dia.

O tema inicial, Cinema Brasileiro – Atividade ainda Cíclica?, partiu do seminal ensaio Cinema:  Trajetória no Subdesenvolvimento, publicado em 1972 e contou com a presença de duas gerações de pesquisadores sob mediação da vice-presidente da ABRACCINE, Ivonete Pinto. Alfredo Manevy, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, afirmou ter chegado ao pensamento de Paulo Emílio através dos textos: “faço parte de uma geração que acessou esse pensador por meio de seus escritos, sou testemunha e produto disso”. Para Manevy, formado no ambiente da Escola de Comunicações e Artes da USP, um dos aspectos mais originais da produção de Paulo Emílio, especialmente nos textos dos anos 70, foi o exame da recepção dos filmes, ou seja, como as plateias reagiam às novas produções, especialmente a classe média emergente após o chamado “milagre econômico”.

O momento alto do primeiro encontro foi a participação de Ismail Xavier, um dos principais teóricos do cinema no Brasil, ex-aluno de Paulo Emilio e professor da Universidade de São Paulo (USP). Familiarizado com o pensamento do mestre em virtude do convívio próximo, discorreu sobre os principais aspectos teóricos lançados pelo ensaísta nos anos 60 e 70, começando por problematizar a leitura equivocada do conceito de ocupante e ocupado formulado no final do livro. Para Ismail, Paulo Emílio utilizou a fina ironia que lhe era característica para se referir a uma luta de classes em que o Cinema Novo, formado por egressos de uma elite sócio-econômica, era o “ocupante” do imaginário das classes populares, e não como foi compreendido: o mercado cinematográfico brasileiro “ocupado” pelo cinema hollywoodiano.

Ismail explicou que o texto-chave de Paulo Emilio parte de uma concepção teleológica de subdesenvolvimento, na qual é entendido como “estado” e não “estágio”. Esse pensamento é semelhante àquele formulado por Antônio Cândido em Formação da Literatura Brasileira. Ambos pensadores foram mais do que colegas de geração na revista Clima: eram amigos que compartilhavam ideias semelhantes sobre a cultura brasileira. A escritura de Paulo Emílio também foi elogiada: “Seus textos nada tinham de eufóricos, pelo contrário, eram disfóricos. Escrevia com força de estilo, uma habilidade incrível de trabalhar a ironia e a provocação”, destacou o professor, que encerrou citando passagem de Paulo Emílio para enfatizar sua habilidade em extrair interpretações esclarecedoras da análise de “maus filmes”: “o filme ruim, pelo simples fato de emanar de nossa sociedade, tem a ver com todos nós, e adquire muitas vezes uma função reveladora. Abordar o cinema brasileiro de má qualidade implica numa luta tenaz contra o tédio, mas é raro que o esforço não seja compensado. O subdesenvolvimento é fastidioso, mas sua consciência é criativa”.

No segundo dia o tema foi Presença de Paulo Emilio no Pensamento Cinematográfico Brasileiro: Ela ainda Existe? Sob a mediação do jornalista e crítico de cinema José Geraldo Couto, o seminário foi iniciado pelo cineasta, crítico e professor da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Augusto Calil, que também foi aluno do mestre. O ex-diretor da Embrafilme, e atual Secretário da Cultura do Município de São Paulo, revisitou dois textos fundamentais –  Uma situação colonial (1960) e O cinema no século (1970). O primeiro ensaio foi publicado no suplemento do jornal O Estado de S. Paulo e nele Paulo Emilio examinou a situação social brasileira a partir da falência do estúdio Vera Cruz, que revelava a hostilidade que havia com a indústria nacional de cinema. De acordo com Calil, esse ensaio constituiu a matriz do que veio a ser o mais emblemático dos seus escritos, justamente o texto Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento. Calil chamou atenção para o fato de Paulo Emílio já ali relacionar mercado e estética, destacando a mediocridade como denominador comum e marca cruel da conjuntura do subdesenvolvimento.

Ao comentar o segundo texto, O cinema no século, sublinhou o estilo da escritura de Paulo Emilio, que se valia de artifícios como o uso da primeira pessoa, dando ao leitor uma sensação de proximidade. Indagando sobre o surgimento do público cinematográfico, Paulo Emílio aponta a origem pobre e proletária, mesmo nos Estados Unidos. Naquela altura, constata que o cinema é manifestação de um passado já constituído, não tendo, portanto, ilusão quanto a seu “papel revolucionário”. Tal constatação deve-se à observação de que em 1970 o público de cinema já havia se deslocado para a televisão, e por isso, a única saída para o cinema seria reinventar-se, destacou Calil, ao falar sobre o pensamento de Paulo Emílio.

Logo após, o historiador, pesquisador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernão Ramos enfatizou a atual falta de vanguarda nos estudos e pensamento sobre o cinema, ao contrário do exemplo de Paulo Emílio:
“Percebo que se discute o que é história, mas não se faz história de cinema, e Paulo Emilio foi, além de potente crítico, um grande historiador”. Lamentou que hoje os estudantes façam apenas resenhas fílmicas meramente descritivas, sem analisar nada. Fernão Ramos também abordou o conceito tão difundido de “mau filme brasileiro”, formulado num contexto de filmes como Bandido da Luz Vermelha, Mulher de Todos, Matou a Família e Foi ao Cinema e outros. Pelo humor, Paulo Emílio fala em subdesenvolvimento não como uma hierarquia, enfatiza Ramos, mas como “revelação” do rosto, da face do brasileiro e abre espaço para recuperar o filme ruim e encontrar nele a cara do país.

Para responder à pergunta sobre a permanência de Paulo Emilio no pensamento cinematográfico no Brasil, o crítico Luiz Zanin Oricchio, presidente da ABRACCINE, começou lembrando que os textos foram publicados em jornais. Mas hoje, entre a crítica, “Tem faltado aquilo que Paulo Emilio defendia: o real da obra, a paixão pelo concreto e a iluminação que o contexto agrega para a sua compreensão”, afirmou. O que predomina atualmente são críticas estruturalistas e conteudísticas. Em sua opinião, especialmente a crítica acadêmica “padece de hipertrofia teórica, adoção excessiva de teorias, em que as obras são meras ilustrações, ou, então, sofre com um estruturalismo tardio, no qual persiste análise fílmica que propõe uma espécie de “fetichização” da própria obra, como se ela falasse por si, fosse imanente, não considerando elementos contextuais e biográficos que a cercam”.

A lição de Paulo Emílio, enfatizada também por Ismail Xavier, foi a habilidade de conhecer a teoria, mas no momento de escrever, poder agir sob o efeito dessa teoria sem que ela se impusesse no texto. Segundo Zanin, outro elemento que falta na crítica atual é o “salto de imaginação” que Paulo Emilio tinha, e fazia o bom texto, com ousadia de propor questões de análise além do conteúdo. “Trata-se de ver como os aspectos formais do filme se articulam com o contexto, pois, se um contexto não explica a obra, não deixa de iluminá-la”, defendeu o crítico de O Estado de S. Paulo.

Com o tema O Estágio Atual da Crítica na Imprensa Escrita e nas Plataformas da Internet o seminário chegou ao último dia com a presença de Fábio Andrade, editor da Revista Cinética, e Sérgio Rizzo, professor universitário e crítico de cinema, com a moderação do crítico João Sampaio. A pedagogia proposta por Paulo Emílio, de ensinar o leitor a olhar os filmes, é o que Fábio Andrade procura imprimir como orientação para formar o “espectador ativo”. A ideia do público como uma comunidade tão cara a Paulo Emílio ganha uma nova e ampla dimensão com a internet, que “permite uma agilidade de retorno, na qual naturalmente nos implicamos no processo, e esse diálogo entre a produção e a escrita pode ampliar-se a esferas inimagináveis”, enfatiza Andrade.

Para Sérgio Rizzo, o pensamento de Paulo Emilio na crítica contemporânea, assim como os clássicos referidos por Ítalo Calvino, permanece como rumor. Com o objetivo de caracterizar o tipo de crítico que ele foi, Rizzo citou obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, recentemente lançada no Brasil, sobre o papel dos intelectuais. Em Legisladores e Intérpretes pode ser encontrada a ideia pauloemiliana que se consolida com a internet, pela qual mais pessoas podem se constituir em críticos. Rizzo destacou que não existe uma única crítica, mas tipos distintos de críticos, em decorrência de diferenças de idade, formação cultural, etc.

Ao mesmo tempo em que apontou a crise do jornalismo cultural, especialmente a decadência da chamada grande imprensa, na qual o crítico ficou reduzido a um orientador de consumo, o professor enfatizou que a crítica não morreu: “ao contrário, borbulha de forma impressionante na internet”. A partir desse cenário, apontou quatro desafios para os críticos: a necessidade de organização, sendo a ABRACCINE um exemplo positivo; a participação em curadorias, atuando na programação dos espaços culturais; a representação junto de entidades políticas da área e, por fim, a presença nas instâncias de ensino formal e informal, através de oficinas e cursos livres. Para Sérgio Rizzo, é uma questão de compreender o mundo e atuar sobre ele, uma lição deixada por Paulo Emílio que foi um intérprete de seu tempo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s