Considerações do júri da Abraccine na 37a Mostra Internacional de Cinema de SP (I)

O realizador e seu universo

Por Orlando Margarido (SP)

oloboatra_f01cor_2013130384Na safra de diretores brasileiros estreantes na ficção selecionada pela 37ª Mostra e analisada pelo júri Abraccine, uma boa fatia se marca, para além da qualidade, também por um domínio exemplar do universo explorado. Em poucas palavras, são realizadores em sintonia com o tema proposto, o que nem sempre, sabemos, converge com êxito na tela. Alguns desses longas-metragens chegaram ao calendário do evento já premiados por júris oficiais em seleções anteriores, a exemplo de De Menor e O Lobo Atrás da Porta (acima). São dois casos que se somam a outros dois analisados aqui e que me parecem mais representativos desse teor. Vistos ou revistos sob a perspectiva da comparação, critério inerente na atribuição de um prêmio, percebe-se o aspecto comum de obras surgidas de interesses pessoais definidos e então contextualizados e estruturados com rigor na dramaturgia do cinema. Um interesse que pode se dar pela temática da atualidade, pela construção de uma atmosfera ou mesmo pelo gênero, apontando igualmente para uma diversidade recente e próspera no cinema brasileiro.

Entre essas perspectivas, a do gênero surge com maior surpresa por ser justamente rara na produção das últimas décadas. O suspense, princípio de linguagem de O Lobo Atrás da Porta, é ainda mais inusitado e torna a opção do diretor Fernando Coimbra um desafio que ele soube enfrentar com soluções bem articuladas. Tanto mais porque a história parte de um fato real do qual muitos ainda tem memória e portanto não estaria na resolução final do mistério o maior trunfo. Coimbra transfere para a psicologia dos personagens a força deste fait divers que tomou conta das páginas policiais dos anos 60, quando uma jovem sequestrou e matou uma menina de 4 anos, filha do amante de quem quis se vingar quando este a deixou.

No filme, a exposição das relações que ainda envolve a mulher oficial é acompanhada de forma embaralhada nos tempos, confrontando a linearidade dos acontecimentos com o testemunho posterior da jovem suspeita na delegacia. Pesa ainda um jogo de ilusões e mentiras, além de um caráter obsessivo da protagonista, estimulante a uma compreensão de sua personalidade e propósitos, mais do que saber dos desdobramentos até sua atitude final. Ao compor esse quadro também afiliado a uma época, Coimbra nos remete a uma estrutura dramatúrgica reconhecível, aquela das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, exposta com ênfase na família apática e desatenta a realidade desta jovem fera.

de menorÉ uma apreensão semelhante, mas de chave diversa em um lar desestruturado, a de Caru Alves de Souza em De Menor (ao lado). No drama temos a princípio a convivência de dois irmãos, uma jovem advogada e o caçula adolescente, no interior de uma residência classe média. Aos poucos nos são dadas essas e outras informações da situação que os envolve, inclusive com sentidos dúbios, a exemplo da sugestão amorosa com a qual se pode supor um casal. Com a morte prematura dos pais, ambos estão as voltas com conflitos pela condição de órfãos. Há questionamentos por parte do rapaz quanto a poder levar uma vida livre, sem o suposto controle de adultos, embora ainda não tenha direito legal a parte financeira que lhe cabe. Para a irmã é tanto mais desafiador no que concerne a educação de que deve se encarregar involuntariamente porque como profissional lida com o problema da violência e abandono entre menores de idade. O dilema se tornará mais grave quando o rapaz se une a uma gangue de delinquentes e usuários de drogas. Entre o problema familiar e os casos que lhe surgem no tribunal, a irmã enfrentará então sentimentos pessoais e éticos.

Esse deslocamento, de um drama intimista dos irmãos ao um cenário mais amplo de um problema social complexo, é uma das virtudes do filme de Caru. Ela o maneja com conhecimento de quem se vincula ao cinema, mas também ao tema que pretende abordar, com um esclarecimento que supõe boa pesquisa. Filha da cineasta Tata Amaral, ela mantém compreensivelmente laços com o cinema da mãe, em especial no dispositivo do huis clos que Tata tanto aprecia, embora aqui em dimensão menos decisiva. Caru vai além dessa herança justamente quando faz de seu filme um registro de preceito muito atual e bem contextualizado, inclusive na opção de situá-lo em Santos, cidade do litoral paulista que prevê em sua lei peculiaridades no tratamento ao menor necessárias ao filme.

A filiação a uma cidade, e agora com status de metrópole e seus problemas crônicos, é determinante em outros dois filmes que requisitam especialmente uma postura e envolvimento direto do realizador. O caso de Riocorrente, o longa premiado pelo júri Abraccine entre a seleção vista, torna-se mais exemplar porque a visão urbana de Paulo Sacramento sobre São Paulo e seu caos confere sustentação a trama a ponto de se tornar protagonista e não apenas cenário. A mínima história, no sentido mesmo do banal na escala exponencial da cidade, se esgarça na medida em que o terror em torno cobra sua existência dos três personagens envolvidos num triângulo amoroso. Ao não conseguir se impor ante as mazelas, o jornalista, o ladrão de carros, tentado a se regenerar, e a amante de ambos perdem seu espaço a males que melhor se acomodam a situação, representados na figura alheia a tudo de um garoto de rua. Protegido pelo marginal, será este Exu, seu apelido, a apontar alguma saída ao caos, ainda que num voto dúbio e radical, como é afinal tudo o que se refere a cidade. Consciente e determinado em suas ações, o realizador não se exime de extravagâncias visuais, recursos alegóricos e dispositivos que potencializam a agressividade deste quadro, sejam eles o som e os ruídos sistemáticos e a montagem incisiva.

A crítica a um estado de coisas detectável em razão de uma metrópole dilui-se um tanto mas está lá em Amor, Plástico e Barulho. Desta vez é Recife e seus bairros populares invadidos pela especulação, num recorte comum a nova geração de realizadores locais, a base para um drama mais empenhado em investigar um universo específico. A diretora Renata Pinheiro busca a comunidade da música brega para mostrar como funciona a engrenagem perversa do star system, na substituição de uma cantora de sucesso ainda em plena carreira por uma novata ambiciosa. Não estamos aqui no circuito de glamour e dos grandes negócios, mas sim em um grupo que se desloca por periferias, hotéis baratos, programas de televisão capengas e boates decadentes. As regras, contudo, se equivalem, e ainda que a muitos possa surgir um pouco obscuro o movimento de transição urbana debatido pelo filme, em incisões de clipes imobiliários, a mensagem resta suficiente no que toca a mudança de posto das protagonistas. Há uma alteração em curso e ao que parece inevitável, que dramas como esse, ao conjugar uma perspectiva de cunho pessoal a circunstâncias sociais, analisam com vigor incomum.

Riocorrente, os gêneros e o novo cinema brasileiro

Por Luiza Lusvarghi (SP), convidada da Abraccine

A discussão de gêneros no cinema brasileiro é fonte permanente de polêmicas. Jean-Claude Bernadet, em seu O Autor no cinema: a política dos autores, França, Brasil, anos 50 e 60 (1994), foi quem abordou de forma magistral a questão do cinema de autor e o modelo herdado pelo Cinema Novo marcado pela tradição do cinema francês, o que teria engessado as análises posteriores sobre a produção nacional. Pois bem, a mostra de novos diretores do Cinema Brasileiro da 37ªMostra de Cinema Internacional de São Paulo provou que esta discussão necessita de atualização. Filmes como Riocorrente, de Paulo Sacramento, o escolhido pelos jurados Abraccine na mostra Novos Diretores Nacionais, e O Lobo atrás da Porta, de Fernando Coimbra, Amor Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, provam que podemos falar tranquilamente em gêneros e crítica social no cinema nacional a partir de elementos do presente, e sem sair do cinema. De doze filmes de ficção inscritos, apenas três fazem alusão ao sertão e ao homem simples e puro que, para gerações passadas, seria a salvação do país na luta contra o capitalismo selvagem. E nos três, o sertão, curiosamente, é alegoria, alucinação. O mito romântico do herói revolucionário caipira se foi. Em seu lugar, nada de heróis. As cidades globais não permitem ilusões redentoras.

riocorrenteabraccinePerturbador, provocante, não são poucos os adjetivos para qualificar a estreia de Sacramento como diretor. Em Riocorrente (ao lado), um trângulo amoroso alinhava a narrativa. Marcelo (Roberto Audio) é jornalista e crítico de arte, e Carlos (Lee Taylor) é um ex-ladrão de automóveis que está tentando reiniciar a vida com uma lojinha de peças. Renata (Simone Iliescu) é uma mulher que se divide entre os dois. Mais que dois amores, eles se revelam como duas trajetórias de vida totalmente cindidas. Exu (Vinícus dos Anjos) é o companheiro de moradia de Carlos, mas a relação foge completamente do que poderia ser qualificado de familiar, é apenas solidária. Todos esses personagens são conceituais, não existe nenhum tratamento empático que faça deles uma referência subjetiva. É a partir dos diálogos que eles se revelam e se articulam.

Personagens infantis, em boa parte das realizações cinematográficas, surgem representando a esperança, o olhar ingênuo sobre a realidade. Exu (Vunícius dos Anjos), o garoto de Riocorrente, representa o novo olhar, nada pueril, sobre o nosso futuro. Drogas, violência, solidão, a cidade global é o fim da infância, e não oferece nenhuma perspectiva democrática de sobrevivência.

Filme-ensaio

O filme de Sacramento introduz uma discussão filosófica sobre o (mal) estar no mundo hoje em forma de narrativa audiovisual. A São Paulo do filme materializa a cidade global, que é a convergência entre o centro econômico, cultural e político, nas palavras de Octavio Ianni, e, portanto, cenário privilegiado dos conflitos sociais e da violência nem sempre simbólica das relações. Sua obra, que se alinha a realizadores como o filipino Lav Diaz, presente na Mostra deste ano, Sergio Bianchi, Carlos Reichenbach (homenageados nos créditos), pode ser classificada como filme-ensaio, categoria em que encontramos nomeadas películas tão diversas como “Quanto vale ou é por quilo”, “Ensaio sobre a cegueira”. A origem do termo vem de Serguei Eisenstein, que vai abordar a narrativa nos filmes conceituais, e a edição como formadora do discurso, em que os planos ordenados na montagem é que produzem os sentidos sobre o tema que o diretor pretende abordar.

De maneira distinta, críticos como Jacques Aumont e Gilles Delleuze defendem a ideia do cinema ser também uma forma de pensamento tão eloquente quanto um ensaio filosófico. Filmes-ensaio seriam ainda as produções experimentais que vão subverter a relação entre o espectador e a realidade, o autor e sua obra, realidade e ficção. Sacramento, em sua curta trajetória, experimentou ambas as formas. Em Prisioneiro da Grade de Ferro, um documentário de longa-metragem, ele deu aos prisioneiros do Carandiru a chance de segurar uma câmera e produzirem assim uma visão da própria realidade, assumindo o ponto de vista da narrativa. Em Riocorrente, o ponto de vista é o do autor, sem sombra de dúvida, mas a narrativa se constitui a partir de imagens, sem necessariamente apresentar um enredo clássico. São as situações protagonizadas pelos personagens que se articulam em indagações sobre o sentido da vida e da arte, numa cidade opressiva e curiosamente vazia, que ao final domina a tela com suas ruas, emolduradas pelo rio que é puro lixo e putrefação, mas também renovação. Para expressar esse imaginário, ele contou novamente com o apoio da magnífica fotografia de Aloysio Raulino, aqui em um de seus últimos trabalhos. Se a discussão sobre o triângulo amoroso assume função de metalinguagem para abordar os conflitos sociais e a violência da cidade, o Rio Tietê, com todas as suas contradições, se converte no próprio fluxo da vida.

A arte como subversão

Um dos grandes méritos de Sacramento em Riocorrente foi ter construído personagens extremamente verossímeis para compor essa narrativa, o que definitivamente o afasta do filme documental, forma clássica de aproximar o cinema do ensaio. A cidade é presente, claustrofóbica, mas ela não substitui a história dos personagens. A trilha sonora exerce papel essencial, com participações da Patife Band, Arnaldo Baptista, ícones da vanguarda musical do final da década de 80, com o país em pleno processo de redemocratização. Da mesma forma, a presença de inúmeras referências às artes plásticas, provavelmente um universo familiar ao diretor, filho do crítico Enok Sacramento, remete à função da arte dentro desta atmosfera – mero ornamento ou a dinamite que destrói porque se expande em novas ideias? Singular é o curso de arte que o personagem de Marcelo oferece num circuito pelo cemitério da Consolação, onde estão algumas das esculturas mais importantes da arte brasileira.

Os cemitérios representaram um marco decisivo na história da cidade, quando as novas ideias sobre higiene e saúde dividiram para sempre os vivos e os mortos, que passaram a ser enterrados longe das igrejas. Os dilemas enfrentados pelos movimentos sociais de junho de 2013, que o filme preconiza, fazem das ruas um divisor de águas na história do país. Vale a pena seguir as regras? Marcelo, que é jornalista e crítico de arte, surge com expressão desolada diante da célebre obra modernista de Victor Brecheret, Sepultamento, no túmulo de Olívia Guedes Penteado, patrona do movimento, no Cemitério da Consolação. Marcelo não consegue mais viver a Nova Ordem na redação, mas tampouco se decide a trocar o novo pelo novo, evidente num dos diálogos mais interessantes do filme, entre ele e Renata.

Para Carlos, não resta mais nenhuma dúvida. Montar seu próprio negócio está longe de ser a solução para os seus problemas. E ele pode até não ser a mão que vai lançar o coquetel Molotov sobre a cidade em chamas, mas sabe que vivemos sob um modelo social falido, que promove sistematicamente a exclusão. Para que esperar? Na cena em que Exu se aproxima de um carro estacionado com intuito aparente de roubar e apenas risca a pintura, a frase em voz over de Carlos lembra Zack de la Rocha, vocalista do Rage Against the Machine: “Tem de começar em algum lugar. Tem de começar alguma hora. Que lugar melhor que esse, que momento melhor que agora”. No desfecho, impactante, ele está só, diante do rio, ao lado do menino Exu, palavra que em ioruba designa tanto os porta-vozes que levam os pedidos e oferendas humanas aos orixás maiores, como o pequeno demônio que oscila entre o bem o e mal.

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