Morre Cyro Siqueira, maior nome da crítica de cinema em Minas Gerais

cyro

por Marcelo Miranda

O jornalista e crítico de cinema Cyro Siqueira morreu no sábado, dia 29 de março, aos 84 anos, em Belo Horizonte. Maior referência na reflexão cinematográfica em Minas Gerais e um dos mais importantes de sua geração em todo o país, Cyro trabalhou nos Diários Associados desde 1949. Pelos jornais “Estado de Minas” e “Diário da Tarde”, escreveu centenas de artigos, críticas e comentários de cinema.

Em 1951, foi um dos artífices da fundação do CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), entidade independente que agregou grande parte da intelectualidade mineira naquela década e em anos posteriores. Junto com Jacques do Prado Brandão e Guy de Almeida, Cyro fundou, em 1954, a mítica “Revista de Cinema”, publicação que foi lida, comentada e reverenciada por nomes como Glauber Rocha e Paulo Emilio Sales Gomes e teve em seus quadros colaboradores do naipe de Flávio Pinto Vieira, Silviano Santiago, José Haroldo Pereira e tantos mais. A revista teve 24 edições até 1957. Em 1961, foi retomada, tendo Cyro apenas como colaborador eventual, e durou até 1964, com apenas quatro edições no período.

O mais famoso artigo de Cyro Siqueira, “A revisão do método crítico”, foi publicado na “Revista de Cinema”. O texto, tanto de profundo teor erudito quanto de clareza ímpar na disposição de ideias, problematizava o ofício da crítica diante de uma nova forma de linguagem que surgia naquela época (no caso, ele se referia ao neorrealismo italiano, choque estético que “rivalizava” com os filmes mais “perfeitos” do cinema americano). O artigo gerou um acalorado e extenso debate nas páginas da “Revista de Cinema”, com defensores e detratores que partiam das ideias de Cyro para discutir a revolução que se detectava na forma fílmica daquele momento.

Cyro sempre foi abertamente mais favorável ao cinema clássico americano e tinha alguma resistência a novidades como o neorrealismo e o Cinema Novo. De verve sempre elegante, texto burilado e reflexões ainda atuais, fundou uma maneira de pensar “a arte cinematográfica”, como ele sempre dizia, e compreendeu que era possível enxergar os filmes como peças de expressão e estética, não só de entretenimento.

Na última década, Cyro Siqueira se afastou do ofício para cuidar da saúde, desde então bastante fragilizada. Mesmo assim, continuou membro do conselho editorial do “Estado de Minas” (no qual, em outros tempos, chegou a ser editor geral) e eventualmente publicava alguns textos nas páginas do periódico, com auxílio de Marcello Castilho Avellar (crítico falecido em 2011).

Nascido na pequena Alto Jequitibá em 1930, na zona da mata mineira, Cyro estudou medicina e direito, antes de se dedicar integralmente ao jornalismo e à crítica. Deixa um legado imenso, ainda a ser melhor reconhecido pelas novas gerações. Esse legado vai ganhar um reforço ainda em 2014, quando for lançado o livro “Antologia – Revista de Cinema (1954-57 / 1961-64)”, organizado por Marcelo Miranda (que aqui escreve) e Rafael Ciccarini, com textos da publicação criada por Cyro nos anos 1950 – inclusive vários de seus artigos mais importantes.

Fotos: Arquivo Diários Associados

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