19o É Tudo Verdade: No reino das delicadezas

Por Marília Franco (convidada da Abraccine)democracia em pb

 

Júri? Que chato! Já ouvi isso muitas vezes e penso… Não sabem o que estão perdendo!!!!

Já participei de muitos e sempre saio enriquecida do “trabalho”.

Neste júri da ABRACCINE, dentro do 19º É Tudo Verdade (2014), vi filmes muito bons, senti novos ares soprando sobre o documentário e, sobretudo me deparei com uma imagem-câmera muito delicada sobre temas diversos.

A família russa (Marina Quintanilha) desvelada por uma neta é tão acariciante sobre os personagens quanto a fala em primeira pessoa, proporcionada por Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar e ousada por Dominguinhos, deslizando sobre sua vida como a doçura de seus dedos sobre o teclado da sanfona.

São dois casos exemplares de documentários abordando pessoas com vidas extraordinárias, por caminhos bem diversos, que tem suas trajetórias tão respeitadas pelos documentaristas que estes se contém em usar termos exultórios “interpretando” seus personagens. Para mim isso traz o conforto de me permitir descobrir a beleza dessas vidas através do olhar emprestado do diretor, mas pelos caminhos de minha sensibilidade. Fica tudo tão mais lindo e maior do que o didatismo da exultação!

Corinthians e Diretas Já (Pedro Asbeg) ,no filme Democracia em Preto e Branco (imagem acima),  tudo junto e misturado, dá outra dimensão histórica a um momento decisivo da vida brasileira. Uma enorme emoção revivida por quem a viveu e um conhecimento indispensável para quem ainda não tinha nascido.

Jorge Furtado sempre inquieto, na sua procura por verdades que se escondem nas entrelinhas e ficam mais verdadeiras na transversal de seus “filmes reflexão”. É primorosa a ousadia de colocar um autor elizabetano dos anos 1600 “discutindo” a atualidade dos nossos mercados de notícias. Essa mistura de tempos históricos amplia o valor dos depoimentos dos jornalistas entrevistados e dá ao documentário, ao mesmo tempo, um peso reflexivo e uma leveza de fruição.

Mas de delicadeza insuperável são as contidas perguntas de Carlos Nader (mais primeiras pessoas) ao Homem Comum que dá respostas diretas, sinceras e simples. Seria um filme bom, mas comum, sobre um homem comum. Mas como se amplia refletido no espelho de uma ficção que entrecorta de angústia a angústia da perda e da morte que ao homem comum deixa perplexidade e vazio.

Esse jogo aparente de documentário e ficção chega ao seu limite na mistura inusitada de Ginger e Fred dançando, à perfeição, um fado de nome Desfado, entremeado por aparições de um homem sorridente e feliz que não muitos identificam e que “documentariza” o desvario ficcional dançante. Uma delicada homenagem a um homem de cinema e ao amor de ambos, figura e diretor, pelo cinema e pela vida proporcionada por ele. Um filme autobiográfico, como explica Carlos Adriano no título enigmático.

Ora direis, como pode ser chato um trabalho que é feito indo-se ao cinema e vendo tantos filmes delicados, lindos e verdadeiros?

Obrigada ABRACCINE pelo convite!!!

 

 

 

 

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