Mostra Curta Circuito promove debates em parceria com Abraccine

Humberto e Jean-Claude

Humberto Silva e Jean-Claude Bernardet participam de debate sobre “Ladrões de Cinema” em São Paulo

A Mostra Curta Circuito estabeleceu parceria com a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, que participou dos debates após sessões dos clássicos “Ladrões de Cinema” (35mm, 1977), de Fernando Coni Campos, “Marcelo Zona Sul” (16mm, 1970), de Xavier de Oliveira e “Wilsinho Galiléia” (DCP, 1978), de Joaquim Pedro de Andrade. Além disso, há um programa especial dedicado ao fotógrafo Aloysio Raulino (1947-2013). Até o próximo dia 29 terão participado dos debates o presidente da Abraccine, Paulo Henrique Silva, além dos associados Jean-Claude Bernardet , Humberto Silva, Amanda Aouad, Fernando Oriente e Rafael Carvalho.

A abertura foi realizada no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, com a exibição de cópia em 35mm de “Ladrões de Cinema” (1977), de Fernando Coni Campos, com presença do ator Antonio Pitanga. Em São Paulo, o filme foi exibido no Centro Cultural São Paulo e debatido por Jean-Claude Bernardet e Humberto Silva.

Sobre a experiência, Humberto fez o seguinte relato para o site da Abraccine:

“O evento tem bom potencial para criar um clima de discussão e debates que entendo ser vital para oxigenar a relação entre o público e certo cinema nacional de circulação difícil. No caso específico do bate papo de que participei, em sala com capacidade para 99 pessoas, havia aproximadamente 60 pessoas, das quais mais ou menos 30 ficaram para a conversa.

Jean-Claude vê o filme pelo viés da apropriação. De um lado, a apropriação do equipamento de filmagem pelos favelados remete à ideia de que com os meios de produção o povo pode filmar e assim revelar sua realidade. De outro lado a apropriação estética que remete ao neorrealismo e especificamente a “Ladrões de Bicicleta” do Vittorio De Sica. No entanto, ele entende que, ao primar pelo viés da apropriação, o filme de Coni carrega uma armadilha: na medida em que os favelados resolvem filmar a inconfidência mineira, o fazem a partir da história oficial; ou seja, a história contada pelo povo é a história construída pela classe dominante, que faz de Tiradentes um herói nacional.

Eu segui outro caminho, em três pontos:

1. O contexto político e cultural do país no momento de realização de “Ladrões de Cinema”. O governo Geisel dá início ao processo de abertura política depois do desmonte dos grupos que resistiram com armas à ditadura, ao mesmo tempo em que, no plano cultural, o Cinema Novo e o Cinema Marginal haviam se esgotado. O filme do Coni, então, se inseriria num momento de reacomodação da produção nacional.

2. As referências (que Jean-Claude chama de apropriações), com foco no dado de que um filme se insere no contexto amplo da cultura porque traz em si o sentido de continuidade no movimento da história cultural, social e política. Quer dizer, um filme como “Ladrões de Cinema” indica as inquietações do momento em que foi filmado de modo farsesco, por meio de certa paródia histórica, e assim sinaliza para o próprio momento em que foi filmado. Mas sua permanência, o fato de hoje o vermos não é mero exercício de escavação arqueológica, pois “Ladrões de Cinema” aponta para muito do que se vê no conturbado momento político atual, como por exemplo oferecer reflexão sobre o sentido da delação.

3. Finalmente, ponderei que da perspectiva do público “Ladrões de Cinema” foi um filme “irrelevante”, e continua irrelevante, mas fornece elementos para discutirmos hoje a produção nacional a partir da relevância. Lembrei que Jean-Claude e Escorel trouxeram a questões dos chamados filmes “irrelevantes” da perspectiva do público dois ou três anos atrás. Acentuei em minha fala que essa discussão gera mal entendido e simplifica o debate quando se perde de vista o sentido de permanência de um filme ao logo do tempo. Por isso, justamente, estávamos ali falando de um filme “irrelevante” da perspectiva do público, realizado em 1977. Como registro, acho RELEVANTE não perder de vista que a Mostra Curta Circuito como um todo faz um recorte que possibilita um contraponto com o que hoje Jean-Claude e Escorel chamam de “Cinema Irrelevante”.

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