A explosão latina: os novos rumos da produção hispano-americana

20150812-la-salada-4Por Luiza Lusvarghi

O 43º Festival de Gramado foi encerrado no dia 15 de agosto com uma das mais expressivas mostras de filmes latino-americanos de sua história. Embora ainda constem como filmes estrangeiros na arquitetura do site e em releases, a presença dos hispano-americanos foi notável pela qualidade e pela pela diversidade, algo que a última mostra de cinema de São Paulo (2014), já vinha evidenciando. Os sete longas-metragens selecionados por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho para disputar o Kikito foram: “Ella”, de Libia Stella Gómez (Colômbia),  “En La Estancia”, de Carlos Armella (México) , “La Salada”, de Juan Martin Hsu (Argentina),  “Ochentaisiete”, de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade (Equador),  “Presos”, de Esteban Ramírez Jímenez (Costa Rica),  “Venecia”, de Kiki Alvarez (Cuba), e “Zanahoria”, de Enrique Buchichio (Uruguai).

Ao premiar o argentino “La Salada” (2014), falado em taiuanês, coreano, castelhano e quéchua, um filme irregular na sua narrativa, mas extremamente revelador sobre os novos fluxos migratórios, de certa forma o festival reconheceu que os tempos são outros. A diversidade, no caso, não é simplesmente étnica, ou religiosa, ou estética, mas de diferentes formas de produção, que incluem captação desde editais públicos, fundos de audiovisual ao sistema de crowdfunding. Naturalmente, essas novas estratégias incidem diretamente sobre o que é exibido na tela.

“La Salada”, de Juan Martin Hsu, o Kikito de melhor filme hispano-americano, traz um painel sobre o novo imigrante na Argentina, entrelaçado por três relatos que se passam na Feira da Salada de Lomas de Zamoria (província de Buenos Aires) espaço comercial criado por bolivianos que vendiam artigos importados e comidas, em terrenos próximos à Laguna Salada, e hoje dominados pela presença asiática.  Ao longo da narrativa vamos acompanhar as vidas de um grupo de personagens de diferentes raças e os conflitos advindos da solidão de sua condição, que lutam pelo reconhecimento numa sociedade que os ignora.  São tocantes as cenas de intimidade entre um pai e a sua filha coreana (Yun-jin), tradicionais, em seus preparativos para um casamento arranjado com outra família, as peripécias do jovem boliviano Bruno (Limbert Ticona) de ascendência indígena, que acaba de chegar e vai encontrar trabalho com o pai de Yun-Jin, e um vendedor de DVDs de Taiwan (Ignacio Huang) que vive sozinho, e cujo único contato com a família em Taiwan se resume aos telefonemas dados à mãe. O sonho do personagem de Huang é arrumar uma namorada argentina. Huang, o protagonista chinês de “Um conto chino”, falou em coletiva sobre a importância que a produção tem para eles. Trata-se de um projeto antigo, finalmente concluído em 2012, e que encontrou dificuldades até mesmo para encontrar atores, dada à escassa produção sobre o tema, e ao fato dessas comunidades serem bastante fechadas culturalmente. A cena hilária em que o pai da moça “conversa” com  Bruno, cada qual em seu idioma.

A invisibilidade da representação da imigração asiática, e indígena, não é exclusividade da Argentina, bem sabemos. A cinematografia brasileira tampouco contempla essa diversidade, bem como o restante da América Latina. Asiáticos e indígenas são sempre personagens estereotipados no cinema e na televisão. Em “Abraço Partido”, drama extremamente bem conduzido de Daniel Burman, que versava sobre o mesmo tema, o cerne da narrativa são os judeus, que ocupam uma galeria comercial no centro de Buenos Aires. A presença asiática, entretanto, serve apenas como pano-de-fundo para discutir a nova capital argentina, a cidade global.

20150814-01-ochentaisiete-papo-de-cinemaDrama criminal e Memórias da Ditadura – O equatoriano “Ochentaisiete” (2014), de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade, foi uma das três maiores bilheterias do Equador no ano passado, com uma média de 15 mil espectadores. A história gira em torno de um personagem argentino, Pablo, interpretado por Michel Noher, conhecido do público brasileiro por novelas como “O Rebu”, em que atuou ao lado de seu pai, Jean-Michel Noher. Segundo Anahi, o personagem argentino foi o ponto de partida desde o início. A história, baseada em reminiscências da década de 80 da vida da diretora, vai usar como ponto de partida as migrações ocorridas naquele período por conta das ditaduras militares, que acabaram levando muitos imigrantes do Cone Sul a viver em Quito.  Pablo, Andres, Juan e Carolina são quatro jovens que partilharam uma casa abandonada e uma perda trágica em 1987, e vão se reencontrar em uma Quito que perdeu a “vida de bairro” para a pós-modernidade. Sensível, o longa representa o que de melhor se pode fazer num trabalho em coprodução em que a questão da solidariedade é predominante, e faz apologia da necessidade do encontro, sem virtualidades. Como o próprio Michel reconheceu, até então, estivemos muitas vezes mais irmanados pelo terror, do que pelas similaridades. A narrativa perde um pouco por apresentar certo desequilíbrio entre passado e presente, na maneira como as duas temporalidades alternam-se na narrativa, o que prejudica o seu andamento, mas é uma bela contribuição vinda de um país com quase nenhuma tradição cinematográfica.

O tom memorialístico e pessoal das cenas do filme é fundamental para estabelecer um vinculo com a audiência jovem da atualidade. Naturalmente, trata-se de uma forma pouco usual de abordar os tempos da repressão, enfatizando o lado pessoal e o impacto que aqueles fatos trouxeram à vida de cada um. Mas sem dúvida e inclusão de personagens estrangeiros é a ponte para o estabelecimento de uma coprodução que contempla aspectos culturais importantes que atingiram a toda a região latino-americana.

Em “Presos” (2014), de Esteban Ramírez, o longa de Costa Rica, outro país que começa a surgir com mais frequência em festivais, o realismo volta a dar o tom. A locação do filme foi um presídio de verdade, e alguns figurantes eram efetivamente detentos, ou ex-detentos, caso do Gordo Puro, que voltou ao presídio apenas para participar da filmagem. A narrativa começa como um melodrama típico de telenovelas, mostrando o envolvimento de uma garota, Victoria (Natalia Arias) com um presidiário Jason (Leynar Gómez). Na medida em que a relação amorosa dos dois se desenvolve, o filme abandona o tom romântico, e  ganha um tom maior de crítica social, mostrando aspectos conflituosos da vida dentro do cárcere, e das relações familiares dos detentos, retratados como pessoas comuns, sem sensacionalismo.  

De mocinha ingênua, a protagonista se converte em mulher de presidiário, que deve enfrentar filas e humilhações para lutar por seu amor, e até mesmo transgredir a lei. De toda forma, a ideia do filme é mais próxima de um filme de gênero. Não existe preocupação em converter a narrativa em libelo por melhores condições de vida dentro das prisões. A questão dos sentimentos e da intimidade está de novo presente. O diretor baseou o filme em um documentário feito por seu pai sobre presidiários, “Los Presos”, realizado em 1973 por Víctor Ramírez. As cenas, exibidas quando sobem os créditos, permitem entrever que pouca coisa mudou no sistema carcerário. Mas sem dúvida os rostos maltratados, sem dentes, do documentário, estão ausentes do longa-metragem, cujo protagonista acaba de receber convite para participar da segunda temporada de “Narcos”, da Neflix, série estrelada por Wagner Moura no papel de Pablo Escobar que estreia dia 28 de agosto. Os atores do filme são a sua maior atração. A dupla Jason-Victoria tem ainda a companhia do ator Luiz Fernando Álvarez, com Síndrome de Down,  que faz o papel do irmão Jason e dá um banho dançando o swing criollo, a cumbia do país.

Prêmios – Além de “La Salada”, os grandes vencedores da noite foram “Venecia (Cuba), melhor diretor (Kiki Alvarez), melhor atriz (o trio protagonista formado por Claudia Muñiz, Mariangela Pupo e Maribel García Garzón), e melhor fotografia, para o colombiano Nicolás Ordoñez. A película narra as desventuras de três amigas em uma noite de balada na capital cubana, e foi financiada por uma campanha de crowdfunding. Outro a ganhar destaque foi “En la estancia” (México), de Carlos Armella, por  melhor ator (Gilberto Barraza) e roteiro (Carlos Armella), além do Prêmio Dom Quixote, atribuído pela Federação Internacional de Cineclubes. Foram ignorados pela premiação o drama policial “Presos”, o filme de crítica social “Ochentaisiete”, o thriller politico “Zanahoria” (Uruguai), e o drama Ella (Colombia), que ganhou prêmio da crítica.

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