A fonte da juventude

 

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Beira Mar, de Filipe Matzembacher

Por Carlos Heli de Almeida*

Historicamente negligenciados pelo cinema brasileiro, os filmes sobre jovens e adolescentes, preocupados em expor suas dúvidas e dilemas, começam a conquistar protagonismo na produção recente. Ou assim faz pensar parte da safra de títulos nacionais exibidos na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, da qual o júri da Abraccine premiou, dentro do recorte com trabalhos de realizadores estreantes, o longa “Aspirantes”, de Ives Rosenfeld, sobre as adversidades enfrentadas por dois amigos de um time de futebol de várzea que sonham com a profissionalização.

O esporte é apenas pano de fundo para o contexto social e emocional criado por Rosenfeld. Jogador de um pequeno time da Região dos Lagos fluminense, o introspectivo Júnior (Ariclenes Barroso) enxerga no futebol a saída da pobreza. Mas os problemas vão se acumulando, como a gravidez da namorada, a relação difícil com o tio, e a falta de dinheiro. O obstáculo mais danoso, no entanto, é a silenciosa inveja que Júnior sente por seu melhor amigo, que está em vias de ser contratado por um clube – tudo transmitido pelos silêncios e olhares do personagem.

Mais comportado, narrativamente falando, “Jonas”, de Lô Politi, também investe sobre a realidade social do país para contar uma história de amor entre jovens de classes sociais distintas. O personagem-título (Jesuíta Barbosa) é um rapaz de família humilde que faz biscates para um traficante local e nutre uma paixão de infância pela filha (Laura Neiva) da patroa da mãe. Às vésperas do Carnaval, um acidente obriga Jonas a sequestrar a jovem e escondê-la dentro de um carro alegórico de sua escola de samba. É o abismo de classes dentro do registro do thriller policial.

Outros tipos de relações amorosas e afetivas são exploradas no intimista “Beira-mar”, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, sobre o amadurecimento emocional de dois rapazes. Incumbido pelo pai de recuperar um documento com parentes, no litoral gaúcho, Martin (Mateus Almada) leva Tomaz (Maurício Barcellos), seu amigo de infância, para acompanhá-lo na viagem. Isolados na casa de praia da família no pequeno vilarejo, os dois passam o tempo com atividades corriqueiras – sozinhos ou com os locais -, ao mesmo tempo em que reavaliam a amizade entre os dois.

A sensação de desconforto  consigo mesmo e com o mundo a sua volta é o que move o personagem de “Ponto zero”, de José Pedro Goulart, centrado na figura de um adolescente tímido e angustiado. Ênio (Sandro Aliprandini) é um garoto solitário que assiste passivamente ao desmoronamento da relação dos pais (Eucir de Souza e Patrícia Selonk) e se refugia no mundo digital. Ele é o caso clássico do menino introvertido e problemático que não consegue verbalizar desejos ou canalizar  frustrações. Quando um acidente acontece, o protagonista – e o filme – perdem o controle da situação.

Entre os títulos do recorte da Abraccine na Mostra, o que mais se aproxima do modelo de  retrato de uma geração é mesmo “Mate-me por  favor”, de Anita Rocha da Silveira. E o grupo social que ele descreve é, geograficamente, bastante específico: a juventude da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que cresceu entre condomínios, shopping centers, música funk, e grupos evangélicos. É nesse cenário com jeito de mundo  paralelo que começam a acontecer crimes misteriosos, atribuídos a um serial killer, e que despertam a curiosidade mórbida da estudante Bia (Valentina Herszage) e de suas colegas de escola.

Sim, “Mate-me por favor” toma emprestado elementos de terror para fazer uma radiografia quase antropológica daquele grupo. Mais uma prova de que, até mesmo no Brasil, o universo do jovem é tema capaz de abastecer fórmulas, estilos ou gêneros cinematográficos.

* reporter e crítico de cinema; presidente do júri Abraccine na 39ª Mostra de São Paulo

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