Mostra da Juventude e a pulsação mórbida adolescente

 

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Por Nayara Reynaud*

Um traço muito forte da seleção desta 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi o olhar para a juventude, representado até na escolha do júri da Abraccine, com o primeiro longa de Ives Rosenfeld, “Aspirantes”. A busca do protagonista pelo seu sonho de se tornar um jogador de futebol, aspiração que já passou pela cabeça da maioria dos meninos deste país, frente aos problemas de uma vida adulta já presentes tão antecipadamente em seu caminho, impressionou pela potência – mesmo em uma aparente contenção – das performances, na firmeza da direção estreante e na construção narrativa do desenho de som.

Outro filme que dividiu a atenção dos votantes foi “Mate-me Por Favor”, début de Anita Rocha da Silveira que também traz a mesma faixa etária, mais exatamente os adolescentes, aos holofotes. O interesse mórbido de uma garota de 15 anos por uma série de assassinatos a jovens, quase sempre mulheres, que assusta a comunidade e sua escola na Barra da Tijuca é o condutor de um retrato ambivalente, do naturalismo e ao surrealismo, sobre a efervescência de desejos inerente neste período da vida. Sexo, dor, violência, moral e religião pontuam, às vezes até denotados com um intencional artificialismo, as aflições de Bia e suas amigas, em um interessante equilíbrio entre a criação realista do ambiente cotidiano desses jovens e o flerte com elementos fantásticos.

Um mérito, do elenco, especialmente Valentina Herszage na pele da protagonista, é compreender e transmitir essa instigante ideia da jovem cineasta em suas atuações, premiadas em outras ocasiões: a atriz principal ganhou o troféu Redentor no Festival do Rio, onde Anita levou também o de Melhor Direção, e junto com Mari Oliveira, Julia Roliz e Dora Friend, que interpretam as suas amigas, as meninas foram agraciadas pela crítica independente no Festival de Veneza, com o prêmio paralelo Bisato d’Oro.

A diretora retoma claramente signos e recursos recorrentes em seus curtas, “O Vampiro da Meio-Dia”, “Handebol” e “Os Mortos-Vivos”, como a aura de terror, a sexualidade transbordante desta fase, o próprio handebol e a presença de músicas clássicas de seleções de flashback. Contudo, para transpor os temas que lhe eram caros em seu primeiro longa, Silveira bebe em outras fontes de influência. O estilo de horror agora é o trash oitentista, observado na perseguição do prólogo, e o slasher teen, que sustenta a trama, embora a resolução do mistério seja apenas um pretexto neste caso.

Sem cair nos clichês do subgênero adolescente, a obra se aproxima mais do sarcasmo do retrato animalesco do ensino médio visto em “Meninas Malvadas”, longa norte-americano escrito por Tina Fey e dirigido por Mark Waters em 2004, mas com o toque onírico dos filmes de David Lynch. Assumindo abertamente o terror em um cinema nacional que cada vez mais utiliza elementos sobrenaturais como metáforas de uma população constantemente amedrontada, o longa traz igualmente sua própria crítica às reorganizações no espaço urbano, cujas mudanças repetem a velha estratificação social, um assunto muito debatido nas produções brasileiras dos últimos anos.

No entanto, Silveira mostra uma Barra da Tijuca em todas as suas idiossincrasias, como na pastora cantora de funk melody, ritmo que permeia toda a trilha, e na falsa ilusão de segurança que pais acreditam dar aos filhos, cercados por muros e câmeras em meio a terrenos baldios e novas construções motivadas pelas Olimpíadas. O isolamento aqui não os protege das dores da adolescência, quando tudo parece ser uma questão de vida ou morte e a exploração de seus limites os aproximam tanto desta última. Ao contrário, não permite ver as feridas e o que morre dentro deles neste processo de amadurecimento.

Por isso, é sensível a ausência total de figuras adultas durante a narrativa; a mãe de Bia é somente citada, os professores não aparecem, só há a voz dos jornalistas no rádio e o estranho irmão dela, além de outros personagens que devem ser maiores de idade, são apresentados como mais um dos jovens. Ao mesmo tempo em que expõe a falta de perspectiva de futuro da geração atual, a escolha de Anita representa o mundo próprio de um adolescente, indiferente a quem o rodeia, no qual seu próprio filme é um agente na busca de maior compreensão.

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Mate-me por favor, de Anita Silveira da Rocha

Ser jovem é difícil em qualquer lugar do mundo

Nesta edição da Mostra, foi evidente a consolidação da onda de filmes adolescentes no cinema brasileiro, iniciada no final da década passada com “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, e “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky, e que trouxe sempre um ou dois títulos nos anos subsequentes. “Mate-me Por Favor” é, talvez, o exemplar de ousadia estética mais consistente em um panorama anual, felizmente, repleto de produções com olhares bem diversos aos jovens brasileiros, especialmente entre os diretores estreantes.

A autodescoberta do melancólico gaúcho “Beira-Mar”, Filipe Matzenbacher e Marcio Reolon, contrastante à introspecção e desespero do inventivo conterrâneo “Ponto Zero”, de José Pedro Goulart, mesclam com o contraponto do amor e misticismo no rural “A Família Dionti”, de Allan Minas, à violência e música no urbano “Tudo que Aprendemos Juntos”, de Sérgio Machado. Este último foi eleito a melhor ficção brasileira no voto do público, enquanto o retrato da adolescência nos anos 80 de “Califórnia”, de Marina Person, conquistou os estudantes que lhe concederam o Prêmio da Juventude entre os longas nacionais. Vale ressaltar também a presença jovem no paulista “Jonas” e no soteropolitano “Travessia”, respectivamente, de Lô Politi e João Gabriel, além da infância novamente em destaque no trabalho de Sandra Kogut, “Campo Grande”.

Entretanto, a presença de filmes do gênero entre a cinematografia nórdica, que ganhou foco especial na edição 2015, também foi sensível. A diretora da Mostra, Renata de Almeida, tinha frisado, ainda durante a coletiva de apresentação, a preocupação dos realizadores da região na formação de público. O resultado disso pode ser visto no grande vencedor da noite de premiação, o islandês “Pardais”, em que Rúnar Rúnarsson se volta às crises de um garoto perdido em uma nova cidade. Curiosamente, o longa estrangeiro premiado no Festival da Juventude veio também do norte europeu: o norueguês “Beatles” retrata adolescentes sessentistas, influenciados pelos ícones ingleses, tentando montar uma banda e suas próprias vidas.

No entanto, praticamente um terço das produções nórdicas exibidas neste ano mergulhava nesta fase. Entre os suecos, se destacaram o sensível mergulho na devastação dos distúrbios alimentares em “Minha Irmã Magra”, de Sanna Lenken; a fantasia nas discussões de gênero em “Girls Lost”, Alexandra-Therese Keining; o machismo incrustrado na sociedade desde cedo em “Flocking”, de Beata Gårdeler; a imaginação como forma de subverter os abusos paternos em “Vovó Está Dançando na Mesa”, de Hanna Sköld; o terror de Levan Akin, “O Círculo”; e o confronto com seus erros em “The Here After”, de Magnus Von Horn.

Da Noruega, vem a paixão desestabilizando uma amizade em “Uma Noite em Oslo”, de Eirik Svensson, e a busca pelo pai em “Operação Ártico”, de Grethe Bøe-Waal. A Islândia também trouxe o trágico “Nervos à Flor da Pele”, de Baldvin Zophoníasson, e o gélido “Albino Nói”, de Dagur Kári. As descobertas do amadurecimento também estiveram presentes no finlandês “Outras Garotas”, de Esa Eli, e no dinamarquês “Bridgend”, de Jeppe Rønde, por exemplo.

A curadoria neste ano, porém, foi atenta ao observar a tendência em outros países. O iPod como oráculo é só uma das preciosidades do misto de realidade e fantasia amorosa do português “John From”, de João Nicolau, que junto ao xadrez francês de “O Torneio”, de Élodie Namer, o amor entre duas jovens no lituano “O Verão de Sangaile”, de Alanté Kavaïté, e a desesperança após a queda do Muro de Berlim no alemão “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes”, de Burhan Qurbani, soma-se aos exemplos dos vários europeus com o mesmo foco, também vistos em produções britânicas, croatas, holandesas, polonesas e até do Kosovo.

Além de produções dos Estados Unidos e do Canadá, os highlights dos longas americanos foram a luta entre a tradição e o moderno no guatemalteca “Ixcanul”, de Jayro Bustamante, e as crianças e adolescentes transformados em guerrilheiros no colombiano “Alias Maria”, de José Luis Rugeles. Por fim, junto com o singelo etíope “Cordeiro”, de Yared Zeleke, e o poder do imperialismo norte-americano no indiano “Umrika”, de Prashant Nair, completam essa variada coletânea a rebeldia e paixão do israelense “Barash”, de Michal Vinik, o retrato da guerra civil na Síria no longa de Basil Alkhatib, “A Mãe”, e cenário semelhante no afegão “O Caminhar de Mina”, de Yosef Baraki.

* Crítica de cinema no site Cineweb, com textos publicados na Reuters Brasil, UOL e outros portais; graduada em Jornalismo e técnica em Produção de Áudio e Vídeo.

 

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