Maupassant, Ford e Scola: uma “Bola de Sebo” une estes três artistas

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*Maria do Rosário Caetano

O que une o escritor Guy de Maupassant aos cineastas John Ford e  Ettore Scola?

Para responder a esta pergunta,  faz-se necessário recuar a 1880, ano em que  “Bola de Sebo”, um conto longo de Guy de Maupassant, foi publicado numa antologia que tematizava a guerra. O conto causou sensação imediata e  somado a outros, muito disputados pelos jornais da época, transformaria Maupassant em um dos mais respeitados ficcionistas franceses de todos os tempos. Ao morrer, sifilítico e louco, em 1893, três meses antes de completar 43 anos, Maupassant desfrutava de tamanha fama e glória, que Paris inteira o pranteou. Dezenas dos maiores escritores do século 19 foram homenageá-lo.

Émile Zola (1840-1902), autor de “Germinal” e organizador da antologia de contos que revelou Maupassant ao grande público, dedicou ao amigo comovida saudação : “Não conheci outro escritor que tenha vivido estreia tão feliz, de sucesso mais rápido e mais unânime. Aceitávamos tudo dele; aquilo que teria chocado na pluma de outro, era dele recebido com um sorriso. Ele satisfazia todas as inteligências, tocava todas as sensibilidades. Seu extraordinário talento, robusto e franco, sem concessão a coisa alguma, impunha-se de golpe à admiração e ao afeto tanto do público letrado como dos leitores comuns que permitiram carinhosamente a este artista original o direito de  crescer à parte”.   Para arrematar: “Ele pertencia à grande linhagem dos escritores franceses. Teve como predecessores Rabelais, Montaigne, Molière, La Fontaine, os fortes e os lúcidos, aqueles que são a razão e a luz de nossa literatura”.

“Bola de Sebo”, o conto (quase novela) que projetou Maupassant do dia para a noite, buscou seu título no apelido de bela e roliça prostituta, Élisabeth Rousset, personagem que ocupa papel central na narrativa. A moça de contornos avantajados viaja, entre nobres e burgueses, numa diligência, que sai de Rouen rumo ao Havre (na Normandia). A viagem será difícil, pois a Guerra Franco-Prussiana vive seus momentos finais e o Exército vitorioso, o da Prússia, ocupa a região e humilha os franceses. Embarcam na diligência dez passageiros: um vendedor atacadista de vinhos (de reputação duvi dosa), um rico empresário do ramo da tecelagem e um conde, todos acompanhados de suas esposas, mais duas freiras, um “democrata” (que aguarda a queda de Napoleão III) e a roliça Bola de Sebo. Os conflitos vividos pelos personagens dentro da diligência (e em seu entorno) servirão a Maupassant para que construa esta obra-prima da ficção.

Outra data importante para que se estabeleçam as relações entre o ficcionista francês, o cineasta norte-americano e o diretor e roteirista italiano é o ano de 1939.  Pródiga em grandes títulos cinematográficos, esta data faria história. John Ford, ainda um irlandês em busca de fama na América, lança um western chamado “No Tempo das Diligências” (Stagecoach).  O fez depois que uma série de fracassos comerciais, no terreno do bangue-bangue, desanimaram os grandes produtores de Hollywood. Era notável o desinter esse  pelo gênero. Afinal, as fitas que antagonizavam mocinhos e bandidos  só vinham atraindo público masculino e pouco exigente. Ford, que mais tarde seria reconhecido como “o Homero das pradarias”, insistiu no projeto e pediu a seu roteirista (Dudley Nicols) que fizesse acréscimos românticos e humorísticos à estória. Nicols ampliou a relação amorosa entre Stella Dallas, uma prostituta (Claire Trevor), e o vaqueiro Ringo Kid (John Wayne), ampliou tiradas cômicas e acrescentou uma mulher grávida entre os passageiros da diligência cujo destino era Lordsburg. O grupo enfrentaria viagem difícil, pois ataques de índios eram esperados a qualquer instante.

Nem o recurso do par romântico, acrescentado ao roteiro,  convenceu os grandes estúdios.  O filme foi feito sem a chancela de uma grande empresa produtora e com orçamento dos mais modestos. Lançado, arrebatou o público, conheceu sucesso imenso, reabilitou o western e transformou Ford num dos mais respeitados diretores de cinema do mundo. Nos créditos de “No Tempo das Diligências”, uma referência literária: baseado no conto“Stage to Lorsburg”, de Ernest Haycox.

Em 1982, o cineasta Ettore Scola realizou “Casanova e a Revolução” (La Nuit de Varennes), drama histórico de imenso fôlego, protagonizado por elenco estelar: os italianos Marcello Mastroianni e Laura Betti, a alemã Hanna Schygulla, o norte-americano Harvey Keitel e os franceses Jean-Pierre Barrault, Jean-Claude Brialy e Jean-Louis Trintignant.  Uma diligência atravessa a França, rumo a Varennes, numa bela noite de junho de 1791. Nela estão, disfarçados, o Rei Luiz XVI, a rainha Maria Antonieta e filhos. Rei e rainha, depostos pela Revolução Francesa de 1789, estão fugindo (com apoio de financistas que bancam a empreitada) ao encontro de tropas leais à monarquia. Mas Ettore Scola e seu co-roteirista  Sérgio Amidei não estão interessados na realeza. O que lhes interessa é outra diligência, que parte de Paris, poucas horas depois da que primeiro tomou o rumo de Verdun.

Na segunda diligência, a que prenderá nossa atenção por 2 horas e meia, estão uma Condessa (Hanna Schygulla) e seu cabeleireiro maneirista (Brialy), uma burguesa que fabrica champagne (Andrea Ferreol),  uma cantora lírica de comportamento airoso (Laura Betti), dois intelectuais, Restif de la Bretonne (Barrault) e Tom Payne (Keitel), entre outros personagens. No início da jornada, encontrarão Giácomo Casanova, já sexagenário, que viaja num cabriolé. Um acidente na estrada deixará o “don juan” veneziano à beira do caminho, aguardando socorro. Os passageiros da diligência farão questão de tê-lo a bordo. Em seu lugar, vigiando seus pertences, ficará o ajudante da Condessa. O grupo partirá, rumo a Verdun.

Maupassant-Ford-Scola – O que têm, em comum, o conto “Bola de Sebo” e os filmes “No Tempo das Diligências” e “Casanova e a Revolução”?

Quem ler a obra-prima de Guy de Maupassant (a Companhia das Letras lançou, recentemente, magnífica edição intitulada “125 Contos de Maupassant” –  Escolhidos por Noemi Mortiz  Kon) e, depois, assistir, em DVD, aos filmes de John Ford (Continental) e Ettore Scola (Versátil) verá que eles têm muito em comum. Maupassant fertilizou “No Tempo das Diligências”. Fertilizou, também (e junto com o filme norte-americano) “Casanova e a Revolução”.

Quem consultar apenas a ensaística anglo-saxã, nada encontrará sobre o assunto. Centenas de estudos foram dedicados a John Ford, a seus filmes e, em especial, a “No Tempo das Diligências”. Há quem (caso do britânico Edward Buscombe) dê ao roteirista Dudley Nicols papel central na história do filme. Seu roteiro, escrito a partir da obra de Ernest Haycox, seria importantíssimo para o êxito do projeto. A competência de Ford, ao transformar o roteiro em imagens, completava o filme que hoje tem status de obra-prima do western.

Quem faz justiça a Guy de Maupassant são os franceses. André Bazin (1918- 1958), no livro “O Cinema – Ensaios” (Brasiliense, 1991) analisa o western de Ford com sua acuidade costumeira: “Nota-se, com efeito, que a divisão dos bons e dos maus só existe para os homens. As mulheres de alto a baixo da escala social, são, de qualquer modo, dignas de amor, pelo menos de estima e piedade. A menor meretriz é ainda redimida pelo amor ou pela morte – esta última, aliás, lhe é poupada em ‘No Tempo das Diligências’, cujas analogias com ‘Bola de Sebo’, de Maupassant, são bem conhecidas”.

Jean Tulard, em seu “Dicionário de Cinema – Os Diretores” (L&PM, 1996), registra: “Esse grande clássico  — ‘No Tempo das Diligências’ – transpunha ‘Bola de Sebo’, de Maupassant, para o faroeste: o retrato dos passageiros da diligência explorado de maneira pouco habitual e o ataque dos índios (um brusco movimento de câmera) os revelava atrás dos rochedos”.

Em dezembro de 1998, Ettore Scola recebeu homenagem do Festival do Novo Cinema Latino-Americano, em Havana. Perguntei a ele se “Casanova e a Revolução” tomara “No Tempo das Diligências” como uma de suas fontes de inspiração. O diretor italiano respondeu: “Pode ser. Mas não passaria, neste caso, de um ponto de partida, já que o f ilme de Ford é muito emocionante, cheio de perseguições e mortes. O meu, ao contrário, tem pouca ação. O que me interessava era ter um grupo de pessoas conversando dentro de um espaço fechado. Usei a diligência porque este era o meio de transporte da época, e porque gosto de ambientar meus filmes em espaços reduzidos, fechados. Acho bem mais fácil mergulhar fundo nos personagens, se por trás deles não há uma natureza aberta. Já encerrei meus personagens em um apartamento (“Um Dia Muito Especial”), em um terraço (“La Terazza”), em um salão de baile (“O Baile”), em um restaurante (“O Jantar”). Em “La Nuit de Varennes”  encerrei meus personagens numa diligência. Sabe-se que lá fora o povo comemora seu triunfo revolucionário e os reis estão em fuga. Mas não me interessava falar de reis depostos. Por isto, como meu interesse maior era a conversa de meus personag ens, reuni dentro da diligência, um Casanova (1725-1798) já decrépito, um escritor, Restif de la Bretonne, um revolucionário americano, Tom Payne (1737-1809), uma mulher elegante, Sofie de la Borde, uma rica produtora de champagne, um proprietário de terras, etc. Tomei a liberdade de colocá-los juntos e a somar a eles personagens fictícios”.

Ettore Scola, que situou sua narrativa em junho de 1791, vinte e três meses depois da Revolução Francesa, detalhou sua opção pelo embarque de dois personagens estrangeiros (o inglês Tom Payne e o grande amante veneziano, Casanova) na diligência rumo a Varennes: “Payne, que nasceu na Inglaterra, foi para os EUA e tomou o partido dos revoltosos da Guerra da Independência. E apaixonou-se pela Revolução Francesa, escrevendo muitos textos sobre ela. Já Casanova não estava no caminho da Revolução Francesa. Mas escreveu páginas de ódio contra ela. Creio que fez isso (risos) porque a Revolução aconteceu à revelia dele, que então já estava velho  e abandonado pelas mulheres”.

Reinvenção e não plágio – Ford e Scola são, não há como negar, tributários de Maupassant. Mas não plagiaram o magistral conto francês. O reinventaram. Cada um a seu modo.

A densa narrativa de Maupassant nos fornece magnífico e cáustico retrato da França de seu tempo. O oportunismo dos poderosos é desenhado com a mais fina ironia. Nobres e empresários desprezam Bola de Sebo, mas não deixarão de implorar a ajuda dela quando, premidos pelos tempos de guerra, sentirem fome. Afinal só ela cuidou de encher um cesto com saborosos víveres. E a endeusarão, relativizando suas posturas morais, quando um militar prussiano exigir da roliça prostituta ato vil. Afinal,  este ato, se consumado, poupará a vida de todos os passageiros da diligência. Com o intento alcançado, voltarão a desprezá-la como  reles meretriz.

O filme de Ford se passa no Velho Oeste. Como um clássico norte-americano, constrói narrativa menos crítica que a de Maupassant e dá ênfase à redenção de Ringo Kid. Ele matará os três assassinos de seu irmão, contrariando Dallas, a prostituta de rara beleza e corpo esguio, que preferia vê-lo afastado do projeto de vingança. O amor entre os dois e a cumplicidade do delegado, encarregado de levar Ringo para o cárcere, fornecerão o final feliz que há décadas seduz os espectadores do cinema-espetáculo. O  fôlego e prestígio do filme são assegurados pelo desempenho de um time de grandes atores e pela maestria de Ford ao filmar, especialmente, o ataque dos apaches à diligência. Passados mais de 70 anos de sua estreia, o embate entre os índios e os  passageiros da diligência, comandados pelo cowboy Ringo, continua eletrizante e arrebatador.

Ettore Scola, um cultor do cinema de temática social e política, reinventa — a partir de romance escrito por Catherine Rihoit —  “Bola de Sebo” e “No Tempo das Diligências”, para refletir sobre tempos revolucionários. E o faz lançando mão de trupe de saltimbancos que vai apresentar o grande teatro da História. A França, que depôs a monarquia, é um território convulsionado. Aristocratas tentam se safar, ricos empresários resguardam seus patrimônios e intelectuais analisam o que se passa dentro (e fora) da diligência. Enquanto o povo (os camponeses), à beira das estradas percorridas pelos dois veículos puxados por garbosos cavalos (o que leva os reis depostos e o outro, o que realmente interessa a o diretor) trabalha a terra sem descanso. E festeja a chegada de um novo tempo.

“Casanova e a Revolução”, o excêntrico título brasileiro de “La Nuit de Varennes”, não seria um filme de Ettore Scola se não incluísse o povo no grande teatro da História.  E Maupassant jamais imaginaria, ao participar da coletânea “Soirées de Médan”, organizada por Zola em 1880, que seu conto teria tamanha força seminal e poder de conquistar, pelos séculos vindouros, tantos e tão fieis leitores.

“125 Contos de Guy de Maupassant”  (Escolhidos por Noemi Mortiz  Kon) — (Companhia das Letras, 822 páginas, São Paulo, 2009)

“No Tempo das Diligências” (Stagecoach) – De John Ford (EUA, 1939).  Disponível  em DVD pela Continental (97 minutos).

“Casanova e a Revolução” (La Nuit de Varennes) – De Ettore Scola (França-Itália/1982) – Disponível em DVD pela Versátil (126 minutos)

* jornalista e crítica de cinema
** publicado originalmente no jornal BRASIL DE FATO (março de 2013)

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