Ettore Scola emociona Veneza com filme sobre Fellini

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Neusa Barbosa*

Veneza – Aos 82 anos, um mestre emocionou e divertiu Veneza – a prata da casa Ettore Scola. No dia em que se esperava falar mais da passagem dos últimos concorrentes ao Leão de Ouro, Scola roubou as atenções e as emoções ao colocar na tela sua homenagem extremamente pessoal ao amigo Federico Fellini, em “Che Strano Chiamarse Federico”.

O magnífico diretor de “O Terraço, O Baile, A Família” e tantos outros clássicos italianos compartilhou na tela, com extrema generosidade, suas memórias de décadas de convivência com Fellini, a partir de seu primeiro contato, em 1947, na redação da revista humorística romana Marc’Aurelio.

Os dois, que não eram de Roma – Fellini, de Rimini, Scola, de Trevico – tinham tantas coisas em comum, como a paixão pelo desenho e a ironia. Este último, o sentimento que impregna vários acontecimentos reconstruídos com grande delicadeza e convicção, com a participação dos cinco netos de Scola – inclusive Tommaso Lazotti, que interpreta o Fellini jovem – e outros atores, incluindo Sergio Rubini, que trabalhou com Fellini em “Entrevista” (1987).

Todo esse esforço para reconstituir a trajetória de Fellini, um dos monstros sagrados da era de ouro do cinema italiano, poderia resultar num grande desastre, num filme piegas, ainda mais tendo-se em vista a passagem dos 20 anos da morte do criador de “Os Boas Vidas”, “A Doce Vida”, “Oito e Meio”. Nada disso aconteceu.

Che Strano Chiamarse Federico – que toma seu nome de um poema de outro Federico, o poeta espanhol Garcia Lorca – revê a vida profissional do diretor a partir desse começo como desenhista, depois tornando-se roteirista e diretor, um trajeto muito semelhante ao que tomou Scola, 11 anos mais moço.

O filme recria detalhes curiosos de Fellini, como sua mania de andar de carro à noite pelas ruas de Roma, porque sofria de insônia, arrastando junto um amigo – às vezes o próprio Scola – mas também parando para falar com desconhecidos, malucos, prostitutas, não raro dando-lhes carona para conhecer suas histórias. Dessas conversas saíram muitas ideias vistas em seus filmes, como os fellinianos não deixarão de perceber.

Mesmo sem se tratar de um documentário, recorre-se a diversos trechos documentais, com preciosas imagens de arquivo, como os testes realizados por Fellini para o papel de Casanova com atores como Alberto Sordi, Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi. Há também muito material com Marcello Mastroianni, um ator-fetiche de Fellini.

Álbum – Na concorrida coletiva do filme, Scola foi aplaudido de pé e, com muito humor, manifestou sua perplexidade quando as pessoas lhe diziam que seu filme os havia comovido e que haviam chorado. “Não era nossa intenção. Em todo caso, acho que traí um pouco o cinismo de que tanto me acusaram. Foi talvez uma espécie de reparação. Mas não é um filme comovente. As pessoas se comovem por si mesmas. Fellini não fazia rir, era muito alegre, muito auto irônico. Ele teria se irritado com essa reação”, brincou.

Para Scola, seu filme sobre o amigo é um “álbum, mais do que um filme, cheio de fotografias, frases, fragmentos, recordações”. Também disse que o fez para os jovens, porque eram eles o foco de Fellini. Scola gostaria que se revissem os filmes dele, para superar avaliações sobre o colega que considera erradas. “Acusaram-no de não ser político, de ser machista. Revendo seus filmes se vê que é contrário. Fellini era cheio de ternura pela mulher, em relação a todas as suas personagens, qualquer uma, sem excluir seu corpo, suas pernas, seus quadris, tudo isso era parte de uma identificação”.

O ator Sergio Rubini fechou a coletiva, dizendo. “Vão se irritar comigo aqui, mas também vou dizer que o filme me comoveu”. E elogiou Scola pela generosidade com Fellini, “num país em que a tradição é a do fratricídio”. E chorou.

* Neusa Barbosa é crítica de cinema.
** publicado originalmente no site Cineweb.

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