Obrigado, Ettore

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Giba Assis Brasil*

É doloroso, mas no fundo acho que eu gosto quando um HD para de funcionar. Descontadas as horas (ou meses) de trabalho perdidas, um incidente como este sempre nos ajuda a lembrar que o mundo virtual continua tendo uma base física, sujeita à lei da gravidade, à dor de dente, quem sabe à luta de classes.

Aqui na Casa de Cinema, cada HD leva o nome de um cineasta que, por algum motivo, nós admiramos. Os dois primeiros, que a princípio eram apenas A e B, passaram a ser chamados Eisenstein e Buñuel. Um terceiro, que nunca podia ser desligado, virou Fassbinder. Um que funcionava de maneira quase incompreensível era o Tarkovsky. Um que foi formatado para viajar de uma ilha pra outra só podia ser o Herzog. E uma dupla de HDs funcionando juntos na mesma caixa? Irmãos Coen, claro. Quando as próprias ilhas de montagem tiveram que ser ligadas em rede, tomaram nomes de mulheres cineastas: Margarethe (von Trotta), Agnès (Varda), Lina (Wertmüller) e assim por diante.

Mas nunca tivemos um HD Ettore Scola. Talvez pelo fato de que ele esteve pessoalmente aqui, e um HD não seria suficiente para nomear essa presença. Talvez porque, mais do que qualquer outro, ele já está, ou pelo menos a gente gostaria que estivesse, como referência constante nas próprias imagens e sons que rodam lá dentro. Talvez porque eu não ia achar graça nenhuma quando esse HD parasse de funcionar.

Sim, Ettore Scola esteve em Porto Alegre, quase 20 anos atrás, antes mesmo do Fórum Social Mundial. Veio, com a esposa Gigliola, participar de um seminário organizado pela Casa de Cinema e pela Coordenação de Cinema da Prefeitura (Bia Barcellos), ao lado de Eduardo Coutinho, Jean-Claude Bernardet, Amir Labaki, Guel Arraes e alguns outros. Falou de seus filmes, do espaço do cinema humanista no mercado daquele final de século e de um projeto que ele tinha, de escrever um roteiro sobre a viagem do jovem Che Guevara de moto pela América Latina (sim, que foi filmado 8 anos depois por Walter Salles). No debate, no auditório da Assembleia Legislativa, alguém da plateia perguntou se o cinema humanista tinha morrido, se os partidos comunistas tinham morrido.

“Sim”, respondeu ele, “talvez até porque deviam morrer. Mas a esquerda não morre, a esquerda existia antes dos partidos, e continuará existindo depois. A esquerda é um modo de ser do homem, e faz parte da utopia. A utopia faz parte do homem, e não acredito que possa acabar, justamente porque o homem não acaba.” [1]

Scola passou algumas horas de um domingo muito frio assistindo em VHS aos nossos curtas, então sem legendas. Foi a um churrasco na casa da Secretária de Cultura Margarete Moraes, onde foi recebido por Luis Fernando Verissimo e Moacyr Scliar, mas só comeu a salada, porque havia cortado a carne vermelha. Foi com o prefeito Tarso Genro a uma reunião do Orçamento Participativo. Na despedida, o crítico Tuio Becker perguntou quando ele voltaria ao Brasil. Brincando, mas sempre militante, respondeu: “Quando Tarso for presidente”.

No dia 6 de maio de 1938, Hitler esteve em Roma. Foi celebrar com Mussolini o pacto que colocou em marcha a 2ª Guerra Mundial. Mas Scola nos ensinou que aquele dia foi muito especial por outro motivo: porque foi quando os vizinhos Antonietta e Gabriele, uma dona-de-casa frustrada e um radialista desempregado, se conheceram no prédio vazio, enquanto toda a população da cidade comparecia ao grande evento. Ele dá a entender que perdeu o emprego por motivos políticos, o que no fundo é verdade, já que foi demitido porque não conseguiu esconder sua homossexualidade. Ela finge que não quer aprender com ele o passo da rumba, mas na verdade tem vergonha que ele perceba que sua meia está furada. Ele é Marcello Mastroianni, ela é Sophia Loren, mas isso é apenas um detalhe, apenas cinema.

Quem pensa que cinema humanista é “cinema de bons sentimentos” (“No céu tem pão?” e morreu…) é porque nunca assistiu a um filme de Scola. Ele e seus roteiristas (Age, Scarpelli, Maccari, mais recentemente sua filha Silvia) nunca abdicaram de amar seus personagens, todos eles, por mais contraditórios que fossem: feios, sujos e malvados, mas insuportavelmente humanos; pequenos diante dos acontecimentos históricos que os atropelam, mas às vezes capazes de superações pessoais que só a câmara testemunha. Como o menino Pietruccio, ao final de “Concorrência desleal”, sozinho no meio da rua assistindo à deportação dos vizinhos judeus: “Não adianta: aqueles que tomam óleo de fígado de bacalhau juntos ficam amigos pro resto da vida”.

Num verdadeiro filme humanista, a morte de um mestre viria logo depois de uma gargalhada, ou de um sorriso profundo – não de uma piada sem graça como a do Charlie Hebdo sobre o menino Aylan. Mas a gente sempre pode fazer um novo tratamento do roteiro. Ou remontar. Obrigado, Ettore.

[1] “Escritos de cinema”, Unidade Editorial, Porto Alegre, 2001, p. 88

* GIBA ASSIS BRASIL é cineasta (“Verdes Anos”), roteirista e montador de cinema.
** publicado originalmente no jornal Zero Hora (Caderno Prosa), em 24/01/2016

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