José Carlos Avellar (1936-2016)

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A Associação Brasileira dos Críticos de Cinema lamenta o falecimento de José Carlos Avellar, nesta última sexta-feira, 18 de março, aos 79 anos. Crítico, pesquisador, professor, curador, gestor cultural e realizador, Avellar desempenhou papel fundamental no cinema brasileiro das últimas décadas.

Avellar começou como crítico do Jornal do Brasil, onde escreveu por 20 anos. Foi Vice-Presidente da FIPRESCI (Federação Internacional da Crítica Cinematográfica) de 1986 a 1995 e fez parte de gestões da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Com Sérgio Sanz foi curador do Festival de Gramado de 2006 a 2010; representava o Festival Internacional de Berlim no Brasil e foi consultor dos festivais de San Sebastian e Montreal. Em 2006 foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts e Lettres, láurea concedida em reconhecimento às contribuições para a arte. No começo deste mês foi homenageado no Festival de  Cinélatino, em Toulouse (França).

Entre seus livros mais conhecidos estão “Imagem e Som, Imagem e Ação, Imaginação (Paz e Terra, 1982), “O Cinema Dilacerado” (Alhambra, 1981), “O chão da palavra: cinema e literatura no Brasil” (Rocco, 1994) e “A ponte clandestina” (Ed. 34, 1995). Textos e notas críticas estão reunidos no site EscreverCinema.

O Instituto Moreira Salles, onde Avellar ocupou o cargo de coordenador de cinema desde 2008 , organizou uma série de depoimentos e manifestações de pesar, assim como reuniu textos publicados no site e demais publicações da instituição.

Ex-presidente da Abraccine, Luiz Zanin escreveu sobre a perda de Avellar em seu blog (para ler, clique aqui). Também membro da Abraccine, Adolfo Gomes escreveu sobre o último documentário dirigido por Avellar, “Mapa 50 anos: 50 minutos de conversa com Zelito Viana” (Brasil, 2015).

O vento nos levará

Um dos mais importantes críticos cinematográficos do Brasil, o recém falecido José Carlos Avellar se despede com documentário sobre os 50 anos da Mapa Filmes, que transcende o registro institucional para penetrar em alguma coisa próxima da ressurreição

A palavra. Não, não se trata de Carlos Nader e sua tentativa algo artificiosa de revisitar a obra do dinamarquês Carl Th. Dreyer em “Um Homem Comum” (BRA, 2014). O documentário que melhor resgata a força miraculosa do verbo é assinado por José Carlos Avellar.

Crítico de cinema, curador e cineasta bissexto, Avellar nos deixou um registro sobre os 50 anos da hoje lendária produtora carioca Mapa Filmes, que está muito próximo da ressurreição. Tal como no filme de Dreyer: uma palavra faz restituir a vida.

O documentário de Avellar é, na aparência, uma conversa filmada. Ao longo de 50 minutos, temos um plano fechado em Zelito Viana, também cineasta e um dos criadores da empresa cinematográfica. Apenas isso. A despeito da farta iconografia que suscita a trajetória da Mapa, responsável por levar às telas clássicos do cinema brasileiro, como “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, entre outros trabalhos fundamentais das últimas décadas; não há sequer uma única imagem de arquivo.

Sem trechos de filmes ou cenas de bastidores, somente modestas legendas informando o título, diretor e o ano das obras mencionadas, tudo se concentra, num primeiro momento, na verve envolvente de Viana. Ele a contar estórias, descrever cenas e lembrar a consciência criativa e afetiva, que durante pelo menos meio século deu o tom e o sabor dessa aventura (que outrora fora) de fazer cinema no Brasil.

Um elogio à entonação humana, sua capacidade de restituir memórias, sentimentos e sensações, bem que poderíamos resumir assim o projeto do documentário. Mas há também a natureza, o vento, o sol, as contingências da vida a se fazerem ouvir, presentes, mesmo que fora do plano. E é aí que Avellar atinge o sublime por meio da subversão do espaço.

Ora, se estamos aqui diante de uma conversa, num único cenário, praticamente sem variação de planos, era lícito autorizar o amplo controle dos objetos, do enquadramento, do entrevistado, do pequeno e ordenado mundo diante da câmera. O gesto de Avellar, a mise-en-scène que ele constrói, opera em sentido contrário, para além do que pode ser captado, esquadrinhado pelo quadro cinematográfico.

Ele deixa o real se impor, na sua imperfeição, com seus ruídos, luzes e eventuais sombras. O seu documentário nos faz lembrar as origens, quando o movimento da vida, dos homens, das coisas nos bastava para evocar imagens e narrativas. Precisávamos nos lembrar uma vez mais desse nascimento, do começo do cinema. Se era um réquiem, não dava pistas. Afinal, parece que nunca estamos preparados para a morte. Resta o consolo, para nós e para os filmes, de que, ao fim de tudo, o vento nos levará. E tal sopro, bem o sentimos, está nessa obra admirável com a qual Avellar se despediu… por agora.

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