Olhar de Cinema: Festival Internacional de Cinema de Curitiba

A seleção de filmes do Olhar de Cinema de Curitiba agrada ao gosto cinéfilo com películas que sugerem o rompimento de barreiras cinematográficas, geográficas ou físicas.

Yale Gontijo *

DAO KHANONG

A característica fundamental do Olhar de Cinema: Festival Internacional de Cinema de Curitiba é o respeito total a atividade cinéfila. Além dos títulos em competição, o cardápio de filmes autorais apresentados romperam fronteiras cinematográficas e estimularam a atividade cinéfila durante os dias 7 a 15 de junho, dias em que se realizou a maratona cinéfila na capital do estado do Paraná.

O clássico dirigido Edward Zang em História de Taipei (Qing mei zhu ma, Taiwan, 1985, 110’), Edward Yang fundou junto com Hou Hsiao-hsien e Tsai Ming-liang a nova onda taiwanense de cinema. Justamente o colega cineasta, Hsiao-hsien, como ator, protagoniza essa história sobre mudanças de costumes de um país inteiro que termina por contaminar o interior de seus personagens.

O cinema feito no oriente, por novos realizadores, tem sido apresentado no Brasil em mostras espaçadas e títulos pescados entre grandes festivais internacionais de cinema. Este ano, em Curitiba, a mostra Foco apresentou uma retrospectiva de filmes da cineasta tailandesa Anocha Suwichakornpong que ainda não tinha sido destacada no país.

Desconhecida por aqui, a filmografia de Anocha apresenta o universo feminino em constante transformação. Os dilemas das mulheres, afinal, podem ser universais. Essas caracaterísticas estão nos primeiros filmes, os curtas-metragens Estrangeiro (Pohn talay, Tailândia, 2012, 16’) e Fantasmas (Ghosts, Tailândia/ Estados Unidos, 2005, 35’) realizado quando ainda cursava a escola de cinema nos Estados Unidos.

Anocha escolheu trazer um dos filmes do parceiro de cinema e um dos cineastas mais admirados da sétima arte produzida na Tailândia, Apichatpong Weerasethakul. O documentário Objeto misterioso ao meio dia (Dokfa nai meuman, Tailândia, 2000, 84’), foi um dos primeiros filmes feitos pelo diretor de Taiwan, conhecido por aqui pela realização de “filmes estranhos” como Eternamente sua (2002) e Mal dos trópicos (2004),.

Neste título de 1984, apresentado a convite de Anocha, Weerasethakul desenvolve um documentário todo calcado em narrativas orais.  Uma mesma história é recontada por vários moradores da região rural da Tailândia. ressignificando sua história e, consequentemente, o desfecho da película. O uso do imaginário local, estratégia utilizada nas posteriores ficções dirigidas por Apichaptong como em Tio Boomie que pode recordar suas vidas passadas (2010) e Hotel Mekong (2012), é tratada na película de estreia co estratégia de apresentação direta. O espectador sabe que está presenciando a reinvenção de uma história.

Apresentado na competitiva, a co-produção Chile/EUA, Rey (Rey, Chile, 2017, 91’), de autoria do cineasta Niles Atallah. A fita, baseado em feitos históricos, registra o intento do advogado francês Orélie-Antoine de Tounens em se intitular monarca das províncias ao sul do Chile no século XIX. Entre elas, a Patagônia e Araucania.

Atallah optou por apresentar os fatos históricos, registrados nos livros de Histórica, com psicodelia visual apurada feita por meio de texturas e sobreposição de cores e imagens. Nunca, a imprecisão dos fatos históricos chegou ao estágio alucinatório del Rey .

O vencedor da competitiva, o norte-americano En mar la mar (El mar la mar, Estados Unidos, 2017, 94’), assinado pelos artistas visuais Joshua Bonnetta, J. P. Sniadecki. O documentário experimental sobre o drama de milhões de mexicanos que tentam atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos todos é baseado em estratégias de cinema experimental com investigação jornalística. Os depoimentos de norte-americanos e mexicanos são cobertos por finas camadas de poesia visual capturada no deserto. Ventos de esperança e morte se entelaçam para falar de uma realidade que infelizmente é ainda mais atual na América de Trump.

Há ainda, o registro da exibição da cópia restaurado do primeiro longa-metragem dirigido pela dupla de diretores franceses, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Não-Reconciliados (Nicht versöhnt oder es hilft nur gewalt wo gewalt herrscht, França, 1966, 55’). Parceiros de cinema e de cama durante mais de 30 anos, o casal Straub-Huillet sempre se desvencilharam das narrativas fáceis e produziram um cinema que constante indaga a própria natureza cinematográfica.

* Yale Gontijo é jornalista e crítica de cinema. Foi membro do júri Abraccine no 6º Olhar de Cinema.

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