Sobre a descolonização do olhar

Bruno Carmelo*

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Chegando ao final de uma maratona crítica no X Janela Internacional de Cinema no Recife, a tentativa de definir a experiência poderia ocorrer pela exclusão. Seria mais fácil explicar o que o festival não é: o Janela não constitui um espaço suplementar para o cinema comercial, nem busca efetuar uma ponte entre o cinema majoritário e o cinema de arte (como faz o festival Varilux, por exemplo). Ele não privilegia grandes filmes de arte, com títulos premiados em Cannes, Berlim ou Veneza (como seriam a Mostra de São Paulo ou o Festival do Rio). Ele também evita se focar apenas na produção alternativa do circuito nacional (caso da Mostra de Tiradentes).

Mas o que seria, afinal, a proposta do evento? Sem pretender dar uma resposta em nome dos curadores, é possível afirmar, na posição de espectador e crítico, que o Janela busca a descolonização do olhar. A ideia de uma experiência cinematográfica colonizada pelos Estados Unidos, em especial, e pela Europa em segundo plano, diz respeito à impressão de modelos de sucesso para nichos específicos, aplicados a exaustão dentro de determinados gêneros e padrões cinematográficos. O resultado seria o posicionamento passivo do espectador, encontrando reconforto na reprodução de signos, ações e imagens esperadas.

Os filmes de super-heróis se veem obrigados a incluírem tais passagens e personagens, além de uma quantidade predeterminada de cenas de ação e efeitos especiais. As comédias românticas buscam os imbróglios entre um casal que parecia destinado a ficar separado, até a conclusão provar a possibilidade do amor na adversidade. O terror das casas mal-assombradas costuma perturbar mulheres, em vestidos brancos, com silhuetas assustadoras passando por trás delas enquanto escovam os dentes. Mesmo os tais filmes de arte premiados abordam uma visão do mundo questionadora, dentro de uma baliza do que se considera o bom gosto na edição, na construção de personagens, no trabalho de som.

Os títulos selecionados no X Janela incomodam, irritam, cansam. É desconfortável a experiência de assistir a mais de três horas de uma captação de baixíssima qualidade (Que o Verão Nunca Mais Volte), a cenas de sexo repetidas e deprimentes (A Noite), a dramas sociais que se tornam musicais após duas horas de duração (A Fábrica de Nada). Talvez o grande mérito desta seleção seja questionar e expandir a noção de qualidade: por que um filme supostamente “amador”, de acordo com os padrões convencionais, não poderia ser bom? Por que a repetição seria um defeito, por que uma genitália deveria constituir um tabu? O festival dá um passo atrás e interroga a formação do julgamento.

Em meio às provocações frutíferas, o espectador é obrigado a se desconstruir, para então se reconstruir. Os debates nos corredores foram acalorados, com muitos filmes amados ou odiados. É curiosa a nossa pressa em definir o bom e o ruim, visto que o fato de não ter uma opinião formada soa como fragilidade em meios intelectuais. Os críticos, encarregados de produzir reflexões em tempo limitado, também recorrem às chaves analíticas de fácil acesso. Mas o que fazer quando alguns desses filmes não se encaixam no linguajar crítico tradicional? A mostra competitiva serviu de exercício fundamental aos críticos, obrigados a buscar novas ferramentas de interpretação para dar conta de obras desconhecidas, difíceis e que jamais serão vistas no circuito comercial. Se os filmes são bons ou ruins, afinal, pouco importa. O mais interessante foi determinar se eram ousados, criativos, originais, progressistas, conformistas, politizados, reacionários, belos, monstruosos, produtivos, complexos, contemporâneos, adequados ao tema, adequados ao discurso, se retratavam bem as pessoas, os sexos, as raças, os tempos, os espaços, o cinema. O trabalho começa aí.

*Bruno Carmelo foi membro do Júri Abraccine no X Janela Internacional de Cinema do Recife.

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