Abraccine lança livro sobre Ismail Xavier

por Fatimarlei Lunardelli, texto original para o site da Accirs

ismael-xavier.jpgProfessor da Universidade de São Paulo, teórico de projeção internacional e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Ismail Xavier é tema do segundo volume da coleção Pensadores de Cinema da Abraccine. O livro Ismail Xavier: Um pensador do cinema brasileiro está sendo lançado neste mês de julho na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty pelas Edições Sesc. A coleção foi inaugurada em 2017 com Bernardet 80 – Impacto e Influência no Cinema Brasileiro, com o selo da Paco Editorial.

A publicação é o 6º livro da Abraccine desenvolvido no espírito colaborativo e engajado que marca as ações editorias da entidade, ou seja, pelo envolvimento entusiasmado dos associados. Qualquer um dos 111 abraccineiros poderia ter desempenhado a honrosa tarefa de organizar o livro-homenagem a Ismail, nome incontornável para quem se dedica à crítica e aos estudos de cinema no Brasil. Somos diversos na associação: jovens e veteranos, homens e mulheres, próximos e distantes da pauliceia na qual Ismail construiu sua trajetória que começou na crítica em jornais, se consolidou na Universidade de São Paulo e se espraiou pelo mundo. Quem pensa cinema no país cruza os percursos traçados por Ismail. Eu, do Rio Grande do Sul, assim como Ivonete Pinto, também dessas bandas, fomos alunas do professor Ismail quando buscamos a pós-graduação na USP.

A tarefa de organizar o livro, demandada pelo presidente da Abraccine Paulo Henrique Silva, em 2016, foi aceita com o afeto que perpassa as relações de admiração e gratidão da aluna pelo professor. Além do desafio a experiência trouxe a amizade com o paulista Humberto Silva, cuja contribuição para o projeto tem a particularidade do convívio com Ismail – desde as reuniões de pauta da Revista Sinopse – e a afinidade dos estudos comuns sobre a obra de Glauber Rocha. O livro que organizamos atende ao objetivo da Abraccine de prestar tributo a um dos mais renomados teóricos de cinema do país na ocasião de seus 70 anos em 2017. Para escrever os 12 artigos que compõem o livro agora disponível pelas Edições Sesc procuramos autores que pudessem dar tanto o viés intelectual quanto o afetivo da presença de Ismail Xavier.

O livro foi estruturado com o objetivo de examinar a sua relação com o cinema nacional, as conexões que estabeleceu entre cinema e literatura, os conceitos e teorias que desenvolveu, sua atuação como crítico, e por fim sua influência e legado. Com este arcabouço nós procuramos abarcar seus diversos campos de atuação e alcançar a multiplicidade de horizontes para os quais se projetou. Para isso convidamos professores, críticos e intelectuais de cinema que se debruçaram sobre sua caminhada na cena cultural brasileira e internacional nas últimas cinco décadas.

O texto de abertura, Professor de cinema, é também uma saudação e com ela Carlos Augusto Calil, colega de Ismail na ECA, apresentou a trajetória do amigo em colóquio realizado na USP em 2017, justamente pelo aniversário de 70 anos. A reprodução de sua fala oferece uma visão em perspectiva do percurso de nosso homenageado e introduz sua reflexão sobre o cinema nacional, tema do primeiro conjunto de artigos. Jornalista e professor da UFES, Fabio Camarneiro aponta em A paixão pelo detalhe, ou o método da análise fílmica como se desenvolveu o método analítico de Ismail e como foi utilizado no exame de filmes do Cinema Novo e do Cinema Marginal. A importância que o conceito de alegoria assumiu nos estudos de brazilianistsestá em Ismail Xavier e os estudos sobre cinema brasileiro em língua inglesa, no qual a professora Stephanie Dennison, da Universidade de Leeds, apresenta um panorama de suas publicações no Reino Unido.

Na sequência, sobre o vínculo entre cinema e literatura, o crítico da Abraccine José Geraldo Couto demonstra no artigo Palavra e imagem: vasos comunicantes como é refinada a relação que Ismail estabelece entre estas duas áreas e recupera sua ampla fortuna crítica acerca dos trânsitos entre a palavra escrita e a expressão audiovisual. Já Pablo Gonçalo, crítico e professor da UnB, chama atenção para o papel do melodrama como debate em Quando a literatura se faz imagem: Alegoria e olhar na obra de Ismail Xavier. Demonstra como a categoria de análise é conjugada com o conceito de alegoria no exame da consolidação de certos dispositivos visuais.

A repercussão internacional de seu pensamento aparece em três artigos. Pesquisadora na Universidade Sorbonne Nouvelle 3, Lucia Ramos Monteiro resgata publicações e eventos acadêmicos em Deciframento alegórico e (auto) análise: a obra de Ismail Xavier e sua recepção francesa, ao mesmo tempo em que examina a disposição de Ismail de desarmar-se diante dos filmes para melhor compreendê-los. Em outra chave, o professor da Universidade de Nova York Robert Stam reconhece em Impressões sobre Ismail Xavier e certo caráter da intelectualidade brasileira a afinidade de interesses de pesquisa e conduta intelectual que o levam a um percurso comum com aquele que, principalmente, é tratado como amigo. De Buenos Aires o professor da Universidade de Filosofia e Letras David Oubiña se pronuncia quanto à perspectiva latino-americana. Em O contrabandista e o intérprete aponta como os textos de Ismail, num contexto de exceção de intercâmbios teóricos, são tomados como modelo de reflexão sobre o cinema no Continente.

Os últimos blocos temáticos aproximam os extremos da longa e profícua trajetória de Ismail, iniciada quando ainda era estudante de cinema e engenharia, como crítico em jornais diários. Esses primeiros textos são resgatados do calor da hora pelo jornalista, crítico da Abraccine e curador Marcelo Miranda em A juvenília de Ismail. Três ex-orientandos escrevem da perspectiva de sua influência e legado. Historiador pela Unesp Adilson Mendes propõe um exercício analisando Os Fuzis, de Ruy Guerra com as ferramentas teóricas de seu professor, num “corpo a corpo” com a obra, sem descuidar a crítica imanente, da qual Ismail é notório defensor. Já o roteirista e professor Leandro Saraiva reconhece em As Formas do Transe: a Análise Fílmica de Ismail Xavier como sismógrafo histórico a influência do mestre em seu método crítico. Tunico Amâncio, da UFF, cujo artigo Mister IX e o Avatar da Academia encerra a coletânea, presta carinhosa homenagem aquele do qual foi aluno e discípulo e com o qual, na condição de colega e amigo, compartilha o interesse pelo cinema brasileiro. Amâncio, em sua escrita gingada, ao mesmo tempo em que salienta a relevância das preocupações teóricas de Ismail, faz referência ao engajamento político em causas como a da Cinemateca Brasileira.

A produção de Ismail Xavier: Um pensador do cinema brasileiro, para a qual a contribuição de Orlando Margarido foi essencial na viabilização editorial, alcança o objetivo de jogar luz sobre uma figura ímpar do nosso cenário cultural. Como bem aponta Alfredo Manevy na apresentação: “O cinema brasileiro – sob um viés cultural, político, estético – tem em Ismail um personagem central”. Num país em que o debate ocorre aos atropelos e frequentemente cai no esquecimento, a iniciativa da Abraccine em produzir este livro vai além da mera homenagem. Sua importância principal consiste em incitar discussões sobre como o cinema pode desnudar as contradições do Brasil numa abordagem teórica e crítica de primeira linha. Pois se o cinema é uma fonte praticamente inesgotável de debates, a produção de Ismail Xavier é uma infinita e contagiante fonte de reflexões.

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