Mostra de Tiradentes | Qual cinema experimental?

Por Bruno Carmelo

Em sua 29ª edição, a Mostra de Cinema de Tiradentes consagrou Anistia 79, de Anita Leandro, como melhor filme da Mostra Olhos Livres — principal competição do evento mineiro. Trata-se de um documentário baseado em materiais de arquivo inéditos, a respeito das negociações da esquerda durante o exílio, exigindo a anistia pelos artistas e intelectuais perseguidos. Para a surpresa geral, o filme bastante exigente e verborrágico também venceu o prêmio do público.

“Esse filme não tem cara de Tiradentes!”, se exclamaram algumas vozes nos bastidores. De fato, o evento, que costuma valorizar novas vozes e cineastas, em registros experimentais, recompensou uma diretora veterana pelo agenciamento relativamente clássico de imagens e sons (e excelente nesta empreitada, diga-se de passagem). Nesta mostra competitiva, a maioria dos filmes primava pela experimentação e radicalidade — caso de Amante Difícil, de João Pedro Faro, O Enigma de S., de Gustavo de Mattos Jahn, Tannhäuser, de Vinícius Romero, e As Florestas da Noite, de Priscyla Bettim e Renato Coelho.

Estes quatro títulos dividiram as opiniões. Os três primeiros, em particular, apostavam nas imagens repetidas, de duração estendida, com conflitos reduzidos ao mínimo. Longuíssimos minutos de sobreposições envolvendo ondas do mar e música clássica dominam Tannhäuser, e as mesmas ondas se repetem enquanto transição entre cenas de O Enigma de S. A dilatação do tempo e o esvaziamento das relações de causa e consequência ocuparam parte considerável desta competição.

“Ora, são filmes experimentais, e o cinema experimental é assim mesmo”, defenderam alguns participantes. Talvez, neste aspecto, seja necessário traçar uma linha importante: a experimentação (envolvendo a montagem, a narrativa, a textura da imagem, o som, a espectatorialidade e afins) não precisa, necessariamente, resultar hermética, erudita, de difícil diálogo com o espectador. Esta abordagem não equivale a uma imagem-pela-imagem, uma retórica da manipulação estética enquanto valor em si própria.

 Na Mostra Autorias, a melhor de Tiradentes 2026, havia diversas propostas experimentais impressionantes. Atravessa Minha Carne, de Marcela Borela, foi premiado pelo júri Abraccine graças à capacidade de dançar junto dos personagens, valorizando a coreografia da companhia de dança Quasar enquanto buscava sua própria forma de acompanhar aquela arte. O belo Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba, de Mariana Meliande e Felipe M. Bragança, também coloca as paixões e dores dos membros de uma escola de samba enquanto finalidade dos jogos de cor, luz e música. O comovente Aurora, de João Vieira Torres, insere curtos elementos de suspense (ou mesmo terror) no seu documentário pessoal.

Em comum, estes ótimos filmes experimentam sem perder de vista o aspecto humano. Distorcem a lógica tradicional das narrativas no intuito de valorizar os dilemas dos personagens e melhor representá-los — para figuras de exceção, uma linguagem de exceção. Brincam com cores, sons, trilha, movimentos de câmera e edição, em busca de uma nova sintonia e afinidade com as subjetividades em tela. Em festivais recentes, as obras mais marcantes, caso de Salomé, de André Antônio, também dedicavam seu arsenal estético aos personagens representados.

Tannhäuser, O Enigma de S. e Amante Difícil aparentam se desenvolver apesar dos personagens, em detrimento deles. A disposição a testar relações de comunicação e formas de expressão constitui uma finalidade em si própria. A mulher deambulando em O Enigma de S., e os participantes de um tribunal, mencionados em Tannhäuser, jamais constituem figuras dotadas de mínima subjetividade, autonomia ou protagonismo real.

Algo semelhante ocorreu na Mostra Aurora, dedicada aos autores em seus primeiros longas-metragens. Neste caso, o filme recompensado foi Para os Guardados, de Desali e Rafael Rocha. Apesar de algumas brincadeiras lúdicas com o dispositivo (os feixes de luz sobre os personagens, a encenação de fotos de prisão com personagens livres), ainda se trata de um documentário de formato conhecido, focado na profunda empatia e comunhão dos autores para com os colegas “guardados”, ou seja, encarcerados.

Em contrapartida, A Voz da Virgem, de Pedro Almeida, conquistou uma repercussão modesta. Este, sim, era um filme alinhado com as imagens estendidas, os sentidos rarefeitos, a paixão pela lentidão e morosidade enquanto ferramentas para confrontar nossa atenção limitada em tempos de redes sociais. Mesmo na Mostra Autorias, o experimental Antes do Nome, de Luiz Pretti, tampouco arrebatou paixões.

Não se acusa os filmes acima de baixa qualidade, nem se questiona a validade das manipulações extremas de linguagem. Entretanto, neste ano em particular, nenhum dos filmes ostensivamente “experimentais” (no sentido ao qual se costuma atribuir o termo) foi recompensado e aclamado. As formas mais bem-sucedidas de testar limites, frestas e possibilidades da imagem e do som, decorreram dos filmes humanos, empáticos, e preocupados, de fato, com seus temas e com as figuras retratadas.

Certo, esta pode significar a escolha específica de um júri particular, que recebeu a tarefa de premiar um único título por seção — talvez os jurados também tenham adorado Tannhäuser, quem sabe? Deste modo, os títulos recompensados não podem ser tomados enquanto sintomas, a partir da amostragem tão seleta de vencedores. Em contrapartida, a 29ª edição chama a atenção pela forma de cinema que foi mais calorosamente acolhida, dentre tantas escolhidas pelos curadores.

Ao final, os filmes de melhor resposta junto aos jurados, críticos e espectadores parecem ter sido aqueles ou de configuração linear (Anistia 79, Para os Guardados, Sabes de Mim, Agora Esqueça), ou cuja experimentação se filiava à linguagem ultra contemporânea e conectada (Politiktok, Obeso Mórbido). A experimentação clássica, com o perdão do paradoxo, fechou-se sobre si própria. Representou uma forma de cinema ainda em voga, e importante para tomarmos conhecimento (devido à amostragem numerosa), no entanto, levemente desconectada das preocupações sociais, políticas e estéticas da atualidade.

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