Festival de Gramado 2011

Quando todos merecem mais

Por Renato Cabral*

Quando voltei do Festival de Cinema de Gramado, abri um jornal da minha cidade, Pelotas, procurando algum texto relativo à esta 39ª edição. Foi com muito pesar que acabei notando que o mais representativo festival nacional fora resumido a algumas palavras-chave como frio, celebridades e turistas. O texto tão genérico pareceu falar de  todas as 39 edições do festival. Ele não falava do que mais diferencia cada edição: filmes, debates, seminários e público. Sim, o festival gaúcho é representativo quanto aos aspectos citados pelo jornal local, porém, mais do que isto, existem por trás do evento pessoas pouco interessadas se está frio, se Fábio Assunção aparecerá ou não no tapete vermelho, ou quais lembrancinhas levar aos familiares. É uma maratona fílmica, em busca de uma produção digna de ser dita interessante, inovadora e que traga ao cinema brasileiro e latino um certo respiro.

Na edição deste ano, participei como integrante do Júri Estudantil representando o curso de cinema da Universidade Federal de Pelotas. É claro que meu objetivo com a ida ao festival não era nem um pouco turístico, mesmo que essa também fosse a minha primeira vez na mais famosa cidade da serra gaúcha e em um festival de cinema tão histórico. Anteriormente, só havia acompanhado Gramado pelos jornais impressos e televisivos durante a infância e ultimamente, já com meus bom idos 22 anos, pela internet, que permite a qualquer um acompanhar festivais do mundo inteiro. Fazendo parte do corpo de jurados de estudantes de cinema, a visão esperada para tal deveria ser friamente técnica, diriam alguns.

Houve, naturalmente,  uma tentativa para  avaliar cada  por sua qualidade técnica, porém não só isto. Outros quesitos acabavam por nos ocupar a mente, como a questão do tema, em como tal filme se inseria na programação do festival, se já era algo usual e até mesmo a sua relevância no cenário tanto cinematográfico como histórico atual.

Competição mediana

Foi surpreendente encontrar tantas produções nacionais de qualidade média  a ruim. Dos sete filmes na Mostra Competitiva de longas brasileiros, poucos seriam salvos. Riscado, de Gustavo Pizzi, foi realmente um achado, uma abertura grandiosa e que, para mim, ofuscou o brilho (já não tão forte) de O Palhaço, de Selton Mello. Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, é tão singelo, tocante, despudorado. Como bem disse durante um dos debates a jornalista Maria do Rosário Caetano, da Revista de Cinema, rimos juntamente com o irmão da diretora quanto às suas desventuras pelo mundo, nunca rimos dele por seus problemas. A junção de documentário e dramatização, muito bem realizada por Murat, através de Caio Blat, consegue ser lírica sem desandar e acabar em um Ponto Final, filme esse do diretor Marcelo Taranto, um grande desapontamento. Contando no elenco com Hermila Guedes, o filme de Taranto tinha a promessa de algo interessante em função da  presença da atriz. Porém, o diretor conseguiu apagá-la, e nem precisou tirá-la de cena. Dando à Hermila falas que caberiam em um pequeno livro de frases de auto-ajuda barato, ele conseguiu desaparecer com qualquer resquício daquela atriz que embasbacou o público em O Céu de Suely.

Aliás, durante os debates, Taranto defendeu a idéia de é um autor. Se especializou academicamente em cinema de autor e por isso, ao que parece, é um autor. Oras, essa ladainha de autor já é um tanto ultrapassada. Um cineasta que decide criar meramente uma estética com palavras bonitas, iluminação e cenários diferenciados do restante, necessariamente, não é um autor. Um autor surge naturalmente, sem esforços, tentando buscar um cinema pessoal que dialogue com o espectador. País do Desejo, de Paulo Caldas sofre do mesmo mal. E também poderia ter sido um melodrama interessante se trabalhasse com mais ritmo. Talvez resida na preocupação em parecer autoral que fez com que ambos os filmes pouco pareçam… autorais. Acabam se tornando retratos pobres. Ameaças, tentativas de serem autorais. Para tanto, Gustavo Pizzi e Lucia Murat não se esforçaram em momento algum nos debates tentando externar explicitamente que são cineastas autorais, eram eles, entretanto os mais autores.

Quando a panorâmica se sobressai

Diversidade também apareceu na Mostra Panorâmica, prêmio da categoria que é concedido somente por nós, júri estudantil. De certa forma, a escolha do filme entre nós oscilou entre dois: Mundialito e Transeunte, posteriormente defindo-se, felizmente, pelo filme de Eryk Rocha. Particularmente, e deixo aqui aberto o meu voto, Mãe e Filha, de Petrus Cariry, era o grande merecedor. Acabaram-se os créditos e fiz o que não havia feito durante todos os filmes exibidos nessa edição e em todas as mostras: procurei a equipe para saber mais, indagar e questionar se havia previsão de lançá-lo comercialmente, mesmo que em pequenas salas. O filme me arrebatou. Foi um dos poucos que fiz enormes anotações e achava que elas, as anotações,  não acabariam tão cedo. Ainda convivo com o filme na minha mente. Conversei um bom tempo com Zezita Matos, protagonista do filme, e só pensava: esse filme precisava de um debate. A riqueza que Zezita me passou a respeito da realização do filme foi ímpar. E foi um dos momentos em que notei algo que faltava em Gramado, além de cópias em película para as produções latino-americanas e algo que tapasse as goteiras do Palácio. Pode parecer exagero, mas senti falta de mesas de debate com realizadores da mostra panorâmica. A conversa no saguão do palácio muitas vezes não parecia suficiente e realizadores que, como diz o nome da mostra, dão um panorama das produções do país , pareciam ficar sem voz no festival. E residia ali, na panorâmica, obras de maior expressão que vários títulos da competitiva.

Um dos pontos problematizados quanto AA premiação para Mundialito foi exatamente isso: o documentário se sobressaía como documentário? Sua forma, sua linguagem era superior à média? De forma alguma desmerecendo a produção do documentário, mas acabei levantando questões relativas a Transeunte e Mãe e Filha. Filmes excepcionais e que poderiam morrer ali, no circuito de festivais e sem prêmios. E não é um perfil preconceituoso nomear um filme de “filme de festival”. É basicamente notar aquela produção que possivelmente não encontrará distribuição e espaço fora desse circuito, infelizmente. Fica ao nosso encargo  fazer o público, mídia e interessados prestarem atenção nesse ou aquele filme que pode ser uma grande descoberta , e até mesmo, inspiração para outros estudantes. O filme de Eryk  Rocha foi o mais próximo que chegamos de um consenso e considero uma escolha feliz, dado o retrato belíssimo da solidão na terceira idade, com uma linha tênue entre ficção e documentário. Sem contar é claro, a ótima atuação de Fernando Bezerra.

Os miniciclos

Foi  notável que a cada dia das mostras existiam miniciclos. A curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz é diferenciada. A cada debate era possível, sem forçar, interligar os filmes. Até mesmo de diferentes dias e mostras. Para mim, existia uma relação clara entre alguns dos filmes: a solidão, isolamento e toda uma questão cíclica. Mas não havia como ficar animado ao ver que o cinema latino-americano parecia estar vivendo de um tripé antigo para contar suas histórias: ditaduras, crianças, classe baixa versus classe alta. La Leccion de Pintura e Las Malas Intenciones, são exemplos. De certa forma, histórias muito parecidas já foram contadas, tanto que Andres Wood, de Machuca, figura como um dos produtores de La Leccion de Pintura. Não quero de forma alguma desmerecer o trabalho do diretor chileno Pablo Perelman ou a seleção de Avellar e Sanz. La Leccion parte de uma bela alegoria e nos oferece um final que é um verdadeiro baque e a seleção dos filmes forma um diálogo.

Outro fato interessante  foi notar que em A Tiro de Piedra, o diretor Sebastian Hiriart nos omite um dos pontos que qualquer cineasta vislumbrado pela jornada do protagonista faria: mostrar sua travessia do México para os Estados Unidos. Reside aí o diferencial da película entre tantos. O argentino Medianeras foi o mais leve de todos os filmes, trouxe um quê de Woody Allen ao festival e não há como negar a campanha que vem sendo feita pela distribuidora que o nomeia “o namoradinho do público”.  É realmente o filme querido, tanto que foi efusivamente aplaudido três vezes e ganhou o prêmio do Júri Popular no festival. O documentário uruguaio El Casamiento lembrou vagamente de Grey Gardens (1977), dos irmãos Maysles, duas pessoas isoladas vivendo e adoecendo juntamente. Jean Gentil , da República Dominicana, foi arrebatador ao confundir o ator e personagem, além de trazer questões como a religiosidade e a interação homem /natureza. Era clara a superioridade das produções latinas em comparação as brasileiras.

Sudoeste ao sul

A abertura de Selton Mello com O Palhaço foi o que se pode dizer de um bom aperitivo. Bom, mas não o suficiente. Durante a semana de exibições houve altos e baixos, mais baixos que altos, mas que tinham lá o seu porquê. O encerramento contou com um filme que há tempos havia lido um texto no blog do Luiz Carlos Merten, em que o crítico comentava de sua viagem ao set e a produção, portanto, prometia. Era Sudoeste, dirigido por Eduardo Nunes, estrelado e produzido por Simone Spoladore. O filme remete um tanto a Limite, de Mário Peixoto (que comemorou 80 anos de sua primeira projeção este ano) e traz consigo a questão do tempo, que não deixa de ser colocada também em Mãe e Filha, do Cariry. Foi um grande fechamento de festival e há de se considerar o filme de Nunes o hors concours dessa edição.

A experiência de uma semana imerso em tantos filmes e rodeado de grandes críticos e pensadores do cinema, não só o brasileiro, foi indescritível. Gramado tem sim problemas que se sobressaem muitas vezes, mas ainda assim é um espaço aberto a discussão e melhorias. E todo quarentão que se preza deve se dar ao luxo de, quem sabe, entrar em uma crise efêmera.

Muitas informações, filmes, diálogos e pensamentos a respeito de todo o festival ficam de fora, deixando talvez esse relato um tanto superficial, mas que tenta, ao menos, ser um pouco mais profundo que a reportagem do jornal local que citei no começo deste texto.

*Estudante do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), escreve sem pressa no blog www.cine-fils.net e é editor de imagem da revista Orson e revista Teorema.

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Tradición y saudade en la Terra do Sol

Por Leopoldo Muñoz*, da revista eletrônica Mabuse

Es el certamen más importante de Brasil, que convoca a la crema y nata de la industria cinematográfica del país sudamericano. Pero su especialización en el cine nacional lo tiene un poco al margen del concierto de festivales del mundo pese a sus casi 4 décadas de existencia. Una mirada al corazón del actual cine brasilero y el descubrimiento de un mito: Limite (1931) de Mario Peixoto.

La primera vez que fui a Brasil, a los 14 años para un campamento scout, pregunté cuál era el festival de cine más importante del país. En esa época, los festivales de cine prácticamente no funcionaban en Chile, y de hecho aún no resucitaba el mítico certamen de Viña del Mar. Con orgullo, los brasileños me respondían que el de mayor prestigio e impacto era Gramado. Luego pude corroborar su importancia en un artículo de la revista Playboy, legendario ejemplar donde aparecía desnuda la mismísima Xuxa (archiconocida en esa época como la ex novia de Pelé). El festival de Gramado, que el año próximo cumple 40 ediciones, hasta la fecha es un punto de encuentro imprescindible del audiovisual del gigante sudamericano. Pero fuera de sus fronteras, claramente no convoca el mismo interés. En todo caso, desde esas vacaciones hasta ahora, mi curiosidad por el festival que entrega el Kikito no había sido satisfecha, hasta que tuve la fortuna de ser invitado a integrar el jurado de la crítica. A diferencia de las multinacionales delegaciones que conforman los jurados Fipresci, el premio que entrega el jurado de la crítica de Gramado, es resuelto por una mayoría absoluta de especialistas brasileros (ocho nada menos) y un colega latinoamericano invitado cuya nacionalidad cambia de año en año. La labor para el crítico hispanoparlante se convierte en todo un desafío lingüístico, particularmente en las sesiones de debate y porque las proyecciones de la competencia de largometrajes brasileros no cuentan con subtítulos. Barreras idiomáticas que se suplen con el acogedor recibimiento de organizadores y periodistas, en un festival que no hace distinciones entre documental y ficción, que se enfoca fundamentalmente en la producción local, además de ofrecer un espacio a la competencia internacional compuesta casi exclusivamente de filmes latinoamericanos. En ese sentido, es un evento muy diferente a otros del continente, no sólo por el énfasis localista y regionalista sino porque estrellas, público, críticos, periodistas y jurados comparten la misma función.

Para muchos gaúchos (gentilicio de Rio Grande do Sul, estado poderoso y de fuerte migración italiana, alemana y rusa), Gramado es una ciudad “fake” debido a la recreación de una arquitectura y ornato de origen germano, hecho con afanes turísticos. Por eso, el festival es un puntal importante para reforzar su identidad cultural. Los periodistas habitués del festival consideran que el certamen ha experimentado una revitalización desde la hecatombe que sufrió el mercado audiovisual brasilero a comienzos de los 90’s. Sin embargo, el buen momento de Gramado queda en deuda con su historia si se sabe que durante los 70’s y 80’s -cuando el certamen se realizaba en el verano- marcaba la pauta social y tenía un poderoso eco político. Un soberbio pasado que además del brillo y glamour, intacto hasta hoy, fue una ventana para la resistencia frente a las dictaduras militares, y que gracias a sus polémicas y discusiones artísticas e ideológicas que eludieron la censura, lo catapultaron como el certamen más importante de Brasil. Sitial que hoy es disputado por varios festivales como el de Paulínia –en pleno ascenso gracias los recursos entregados por Petrobrás, lo que se traduce en premios más suculentos lo que tienta a buena parte de los directores brasileños a estrenar ahí-, pero que se mantiene gracias a su vigencia cultural y como eje del mercado del entretenimiento.

Hoy los gigantes de las comunicaciones brasileras como Rede y O Globo realizan una cobertura televisiva diaria y en directo de la alfombra roja (detalle que denota la importancia social-farandulera del festival), y películas más películas menos se convierte en un espectáculo que emperifolla a la ciudad.

Una de las conclusiones que se pueden extraer tras una semana en Gramado radica en que tanto los organizadores y el público se enorgullecen de su patrimonio cinematográfico. De hecho en esta versión se ofreció un espacio importante al lanzamiento del libro Um lugar sem limites de José Carlos Avellar que se dedica a desentrañar la leyenda tras el filme Limite (1931) dirigido por Mario Peixoto (vea video de los minutos iniciales). Limite es para los brasileros y para quien lo ignore –como este redactor hasta ir a Gramado-, un largometraje revolucionario para la cinefilia mundial que por su lenguaje fílmico es comparable a las películas de Murnau, Dreyer o Eisenstein. Ni más ni menos. Celuloide legendario que lamentablemente no se preserva en su metraje total y que ostenta matices quiméricos. De hecho, se dice que el propio Eisenstein escribió un elogioso artículo sobre Limite, publicación que hasta hoy es objeto de controversia y que el mismo Peixoto (antes de morir en 1991) habría negado su existencia. Sin embargo, hay quienes aseguran que hay una copia manuscrita del artículo hecho microfilm en la biblioteca del BFI.

Verdad o mentira es una anécdota que da cuenta de la trascendencia del trabajo de Peixoto, perceptible en su poético montaje y en sus inquietantes tiros de cámara en primeros planos, demostrando que desde siempre el cine brasilero enarbola un afán vanguardista (y que explica el surgimiento de ilustres maestros herederos como Glauber Rocha). En ese sentido, también se proyectó el documental O mar de Mario, registro de entrevistas a Peixoto a fines de los 80 y que en formato de videoarte entrecruza los significados de Limite y la lucidez antisistémica de su director. Libro y documental sirven como punto de partida para apreciar la importancia del filme.

Gramado no escapa a las quejas que se hacen en todos los festivales del planeta, críticas que ponen en tela de juicio la curatoría de sus distintas secciones. Este año los reclamos de jurados y críticos se centraron en la selección de largometrajes de la competencia brasilera, donde, pese a todo, se puede destacar el documental Hipermulheres, cinta que retrata las costumbres sexuales de las mujeres de una tribu de Alto Xingú en el Matto Grosso. Una película que puede tener errores técnicos y un comienzo impreciso, pero que impacta por la situación que retrata: un grupo de féminas que actúa como verdaderas depredadoras sexuales acosando y raptando en hordas a los machos del poblado. En más de algún modo el hecho que se enfoca, una tribu casi virgen del contacto civilizado, modifica los estándares de nuestra percepción. Si se registrase el mismo fenómeno, pero con otra raza –por ejemplo, la caucásica- sería tildado de pornográfico y censurable por la desnudez de menores y la violencia con que las mujeres buscan la satisfacción sexual (la excusa, como siempre, es la procreación). Pero claro como la óptica del documental parte de la bienpensante etnográfica se derrumban todos los prejuicios “occidentales”, aunque igual generó opiniones divididas. La fascinación personal como espectador extranjero se contrasta con la visión despectiva de algunos colegas brasileros que casi con un mohín declaraban que “este tipo de documentales se muestran todos los años en el festival, es prácticamente un requisito político de la organización”.

Pese a estas objeciones, Hipermulheres contaba con cierto favoritismo entre el jurado de la crítica, pero la triunfadora de la competencia brasilera finalmente fue Riscado. Fábula de una actriz carioca que trabaja de promotora y que conoce las alegrías y penurias de la profesión, es un simple y emotivo trabajo del realizador Gustavo Pizzi con su esposa Karine Teles en el papel protagónico.

En tanto, el premio del jurado oficial recayó en A longa Viagem, de Lucía Murat. El recorrido íntimo de la directora por la historia de Brasil y el mundo en los últimos cuarenta años a través de las vivencias de sus hermanos y una puesta en escena que mezcla proyecciones contra una muralla, ademanes histriónicos y una voz en off omnipresente que cosechó la mayor ovación festivalera en la noche de su estreno. Tal vez su sintonía con la cultura pop y el carácter combativo de la cineasta son cualidades extrafílmicas que generaron el fanatismo local, porque tanto entusiasmo resulta inexplicable para este pastiche estilístico que intenta pasar por originales y novedosos, recursos ya vistos en Persona de Bergman hace más de 4 décadas.

En la misma sección nacional también hubo bodrios como O carteiro, dirigida por la estrella de telenovelas Reginaldo Faria y como bien anticipó un colega “ese cartero no va traer ninguna buena noticia”. Película torpe y bochornosa que intenta hacer reír con el humor más rudimentario. También irritante fue País do desejo, melodrama que aglutina un sinfín de calamidades: una pianista enferma renal que necesita trasplante, un sacerdote que se enamora de ella, el mismo cura apoya el aborto en el caso de una niña abusada por su padre, etc. Sensacionalismo travestido de discurso reflexivo cuyo único recuerdo perdurable radica en la fotografía del sugerente clima de Recife.

El nivel fue bastante más parejo entre los seis largometrajes en la competencia internacional. Tanto la peruana Las malas intenciones como A tiro de piedra del mexicano Sebastián Hiriart -un cuate divertido y alma de las fiestas gramadenses y que en su equipaje de regreso se llevó 3 Kikitos: guión, director, y actor- demuestran que pese a sus irregularidades el cine en nuestra lengua cuenta un interesado público en la audiencia internacional. En esa huella se ubica la bonaerense Medianeras, modernilla comedia romántica donde confluye la arquitectura de la ciudad, los comentarios agudos en off y obviamente la desintegración emocional que causan las redes sociales. Gente rara que en un año, lapso de tiempo que abarca el guión, no la vemos hablar con los padres, familiares ni amigos pero que buscan a tientas y de manera torpe el cariño y la proximidad humana aunque sea por una pantalla de computador. Su bella composición de planos y el montaje acertado para los diálogos que suponen perspicacia pero a la vez cierta ternura indefensa de sus protagonistas convencieron al jurado oficial que la encumbró como la mejor de su categoría.

Imposible no mencionar la participación de La lección de pintura coproducción dirigida por el chileno Pablo Perelman y basada de forma libre en el libro homónimo de Adolfo Couve. El filme tuvo muy buena recepción y logró el galardón a mejor fotografía. La trama de un niño superdotado para el arte que lo guía un farmacéutico con aspiraciones de pintor no guarda mucha relación con los raptos líricos de otros filmes de Perelman como Archipiélago (1992), Imagen latente (1988) o la ya mítica A la sombra del sol (1974) pero si es más que correcta en la presentación de conflictos y transmite una sobriedad para exhibir la tragedia poco común. Un efecto que causa la lejanía de verla en Gramado consiste en que por momentos uno se siente en Chile al mostrar el racismo, clasismo y odiosidad política tan enraizada en nuestra cultura y tan cotidianos como el cordón montañoso que encuadra las tomas panorámicas de esta trama ambientada en el campo los años previos al golpe militar.

De la competencia internacional, el jurado de la crítica premió a la extraordinaria Jean Gentil, sin duda, el mejor filme de todo el festival. Un largometraje dominicano (coproducido por Alemania y México) que narra la odisea de un inmigrante haitiano cesante y sin afectos. Imágenes en las que resuenan la febril religiosidad del protagonista, un profesor que transita entre República Dominicana y Haití sólo y en busca de sustento, mientras el desarrollo casi documental del filme muestra cómo Jean Gentil se despoja de sus hábitos y paradigmas civilizados en medio de la selva en un trayecto digno de Kipling. Lo increíble es que el despojamiento de artificios en la puesta en escena y la fatalidad en que está enmarcada la ruta sugiere una mirada atea respecto a las esperanzas espirituales de Jean, lo que concede una dimensión metafísica pero muy atingente al desolador panorama haitiano. Prueba de ello fue el emotivo discurso que dio el actor protagónico Jean Remy Gentil, quien no cabía de felicidad por haber salido de su tierra por primera vez y que estaba embelesado con la limpieza de las calles gramadenses.

No cabe duda que la ciudad de Gramado se alborota en época de festival, tiempo de lluvias intempestivas que no es impedimento para los cientos de curiosos que se agolpan a los bordes de la alfombra roja y esperan inmortalizarse junto a una de sus estrellas preferidas. Comentario aparte merecen las fiestas organizadas por la organización y las diferentes películas. Instantes que expresan la alegría brasilera en su tono más vívido, la belleza inigualable de las mujeres locales, el relajo al ritmo de la música y algunos “drinques” que animan “nas festas”. Ocasiones que también brotan como una oportunidad para que la sinceridad se apodere de los invitados y la corrección política baje la guardia. Porque en rigor las incendiarias opiniones y polémicas, como si era en antaño, no se perciben, es más, resulta atractiva y generalizada la idea del consenso y en ninguna de las funciones escuché una sola pifia. Hecho sintomático, ya que los abucheos versus los aplausos en cualquier festival implican la existencia de un público opinante y comprometido. Puede haber una explicación para esa instalada condescendencia: aunque hay funciones gratuitas, el valor promedio de la entrada alcanza los 50 dólares (la Noche de Cierre supera los 70). Cifras más que complicadas para un estudiante de audiovisual o un joven cinéfilo. Pero esa aparente condescendencia desaparece durante las conferencias de prensa con preguntas a quemarropa y observaciones corrosivas, un verdadero espectáculo y que denota la buena salud del periodismo que asiste a Gramado, un festival que posee la garantía de un glorioso pasado y que busca mantener su prestigio en el competitivo circuito de certámenes brasileros.

*Jornalista e crítico chileno.

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