Por Marcelo Ikeda
A história do cinema brasileiro ainda está por ser escrita, incorporando os movimentos revisionistas que jogam luz sobre outras tendências e corrigem indevidos apagamentos, omissões e lacunas.
Rita Moreira: Crônicas, Memórias e Videotape (2026), delicioso documentário dirigido por Sérgio Santos Barroso, contribui para esse movimento ao destacar a trajetória da realizadora Rita Moreira. O trabalho da cineasta, cujo devido reconhecimento vem sendo resgatado ainda que de forma parcial nos últimos anos, deve ser pensado a partir do contexto de um cinema ativista (e da importância do vídeo) voltado às questões do feminino e, especialmente, do cinema lésbico.
Uma parte significativa de sua obra foi realizada nos Estados Unidos durante a Ditadura Militar, período em que Rita se refugiou com sua companheira de vida e de cinema, Norma Bahia Pontes. Alguns exemplos dessa filmografia em sua máxima expressão estão em Lesbian Mothers (1972) e She has a beard (1975). Os títulos — diretos, frontais — exprimem uma postura que utiliza a polêmica como forma de tensionar o debate sobre a condição da mulher e sua liberdade de fugir das convenções sociais que buscam enquadrá-las. Mulheres (e também as lésbicas) podem ser o que quiserem: podem cuidar de uma criança ou deixar a barba crescer.
O que se destaca em seu ativismo é que essas produções não se voltam apenas ao nicho de mulheres lésbicas, mas buscam atingir uma fatia mais ampla da sociedade — inclusive o público preconceituoso. Essa é uma grande lição dos filmes de Moreira para o nosso cinema militante contemporâneo. Em muitos de seus trabalhos, a própria realizadora (ou uma assistente) caminha pelas ruas com um microfone na mão e interpela transeuntes sobre esses temas, expondo a crueza dos preconceitos cotidianos.
Um exemplo típico está em Temporada de caça (1988), realizado após seu retorno ao Brasil nos anos 1980. Tendo como ponto de partida notícias de jornal que exibiam o aumento contínuo do assassinato de travestis na cidade de São Paulo, Moreira questiona pessoas na rua, e muitas respondem que “travestis têm que morrer mesmo” ou “isso não me diz respeito”. A naturalidade com que os entrevistados afirmam, em close, frases tão monstruosas nos assusta. Essa frontalidade é uma das maiores marcas do cinema de Moreira. Olhando em retrospecto, percebe-se como, infelizmente, muito pouco mudou no pensamento médio do brasileiro.
Saindo da obra de Moreira para o documentário de Barroso, seu maior mérito está justamente em prolongar o gesto da realizadora, filmando-a de forma direta, franca e aberta. O resultado é um filme envolvente que apresenta com fluidez as principais características da trajetória da cineasta. A inserção de trechos das obras originais também é habilidosa e ajuda a contextualizar os argumentos. Boa parte do longa é composta de uma entrevista com Moreira sentada no sofá de sua casa, onde ela se mostra bastante confortável para refletir sobre sua vida e criação. Vemos uma personagem profundamente carismática e divertida, sem qualquer receio da controvérsia. É certamente alguém que nos encanta ouvir por horas.
Por fim, um dispositivo muito interessante do documentário é propor que Rita realize um novo filme, permitindo que acompanhemos seu método de abordagem. A realizadora vai então a um parque movimentado em São Paulo e tenta interpelar transeuntes com a pergunta: “Você acha que o mundo está se acabando?”. Ela nota como hoje está mais difícil conseguir a participação das pessoas, que andam mais apressadas, desconfiadas ou ciosas de sua privacidade. Moreira comenta ainda que, em sua época de ouro, não era necessário pedir autorização de imagem e som, e que essa burocracia atual “estraga tudo”. O espírito jovem e inquieto da cineasta fica evidente nessas tentativas. Ao fim, somos apresentados aos seus trabalhos mais recentes, que comprovam que sua contribuição é bem mais ampla que a pauta lésbica, expandindo-se para dilemas sociais complexos do mundo contemporâneo, como moradia, assistência infantil e o direito ao aborto.
Ao mesmo tempo, o filme nos faz pensar que talvez esse método de entrevista de rua já tenha sido excessivamente incorporado pela televisão, e que perguntas curtas a transeuntes correm o risco de captar apenas opiniões superficiais, sem adentrar aspectos mais profundos. Barroso também evita qualquer posição mais polêmica ou de eventualzz discordância com sua entrevistada, que é mantida em uma posição entronizada, sem questionamentos. De todo modo, este filme divertido e encantador é uma peça preciosa que se soma ao movimento revisionista da história do cinema brasileiro, contribuindo para uma melhor análise da importância de Rita Moreira dentro do campo do videoativismo.


