Por Carolina Azevedo
Cada sala de cinema guarda a história dos filmes que passaram ali e dos públicos que se sentaram a cada sessão. De uma estreia em festival à exibição de um clássico de repertório, as salas de cinema, os halls de entrada e os corredores dos espaços de exibição são onde se constrói a cinefilia, uma paixão por não apenas ver, mas também falar sobre filmes. Quando um cinema fecha suas portas, como tanto se viu pelas cidades de todo o país nas últimas décadas, seus frequentadores se vêem destituídos do espaço de troca que lhes abrigou e uniu ao redor – ou melhor, na frente – da tela de cinema. Mas e os que trabalham atrás da tela?
“Um cinéfilo passa toda a vida construindo uma casa onde cada tijolo é um filme, e embora tenha a aspiração de terminá-la, no fundo sabe que ela sempre vai estar construída pela metade, sempre vão faltar paredes, pedaços de telhado e aberturas. É uma casa que lhe oferece um pouco de abrigo, mas o mantém ao relento. Por isso, a cinefilia nunca pode ser uma forma de evasão, de fuga do mundo. A cinefilia é fundamentalmente uma atividade social; não há cinefilia possível se não há outros com quem compartilhar a paixão”, escrevem os organizadores da Semana Mundial de la Cinefilia, organizada na cidade argentina de Córdoba pela revista de crítica cinematográfica La Vida Útil, o Cineclube Municipal Hugo del Carril e sua Associação de Amigos.
Com estreia brasileira no 15º Olhar de Cinema, La noche está marchándose ya, dos cordobeses Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas, ficcionaliza o encerramento das atividades do Cineclube Municipal. Foi com uma camiseta da 7ª Semana da Cinefilia de Córdoba que Sonzini apresentou a sessão de seu filme no auditório do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Como Ettore Scola imaginou em Splendor e Tsai Ming-liang em Adeus, Dragon-inn, ou Kleber Mendonça Filho documentou em Retratos Fantasmas, Sonzini e Salinas filmam um cinema em crise, sob ameaças de encerramento de suas atividades. A diferença é que em La noche está marchándose ya, a crise é tratada do ponto de vista dos trabalhadores, e não do público, do cinema.
Pelu (Octavio Bertone) deixa de ser projecionista do cineclube e passa a vigia noturno. Com um salário irrisório que não cobre o aluguel do quarto mais barato, transforma o espaço de trabalho em lar. A noite vira dia quando Pelu passa a ocupar seu expediente com a exibição solitária de filmes antigos e transforma o espaço atrás da tela do cinema em um pequeno quarto para dormir durante as horas claras do dia. Pouco a pouco, o protagonista acolhe moradores de rua que trabalham como flanelinha e passam a ocupar os assentos do cinema e a noite de Pelu, que também cede o espaço a Vale (Juana Oviedo), uma velha amiga, para a gravação de vídeos para o OnlyFans.
Rodado em película em preto e branco, o filme acompanha, alternando comicidade e melancolia, as paixões e compaixões de Pelu pelo cinema, pelos amigos da noite e por Vale, cuja performance para a câmera do celular é espiada pelo protagonista em uma cena que foge do registro realista que domina o filme para recortar com a câmera de cinema o olhar ébrio de Pelu. As luzes da projeção na sala de cinema vazia na madrugada iluminam o corpo da personagem, pelo qual percorre a lente-olho sem invadir, mas dando a ver o potencial encantatório ao mesmo tempo da imagem e do espaço cinematográfico.
A cena contrasta com a realidade dura em que se insere o resto do filme: uma crise institucional não só do cinema mas da sociedade argentina, sob um governo que despreza as instituições culturais e ativamente promove a desestruturação de sua produção cinematográfica nacional ao mesmo tempo em que vê sua população empobrecendo de modo generalizado. Com os cortes orçamentários e a reestruturação ideológica do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), o presidente Javier Milei reproduz uma realidade que o Brasil viveu durante o governo Bolsonaro. La noche está marchándose ya é um retrato global dessa crise.
Inserido no contexto mais amplo de exibição no Festival Internacional de Curitiba, o filme abre diversas vias de diálogo com o público brasileiro. Por um lado, a realidade de crise iminente em todas as etapas do fazer cinematográfico e as constantes notícias de fechamento de salas de cinema como a do Espaço Augusta de Cinema, em São Paulo, em maio deste ano, são identificações evidentes. Mas formalmente o filme também desperta paralelos.
Sobretudo por sua capacidade de exploração de uma narrativa ficcional inventiva, graciosa no duplo sentido da palavra, La noche está marchándose ya se destaca na produção regional. A partir da ótica do campo cinematográfico pela via da invenção narrativa, o filme reflete a verdade dos trabalhadores – sobretudo da cultura mas também de outras áreas – que enfrentam as crises políticas e econômicas contemporâneas, prova de que uma ficção pode encarnar tanta realidade quanto o documentário, tendência que dominou a seleção nacional desta edição do festival.
Em uma anotação datilografada na década de 1970 e encontrada em seus arquivos, Marguerite Duras reflete sobre o cinema político de seu tempo. Sua impressão é a de que o cinema padece de uma representação da realidade social “empobrecida e revoltante” insistente na “regurgitação daquilo que as pessoas já sabem”. Para ela, o primeiro passo da tarefa política de um cineasta é ter consciência daquilo que ainda não sabemos como retratar. Um cinema que investiga novas formas de dialogar com sua história e com seu público, assombrando as novas salas de cinema com imagens de seu passado ou de futuros imaginados, sem obscurecer as dimensões do pessoal, do sensível e mesmo do belo, pode ser um caminho nessa direção.


