Por Priscila Urpia
Mais do que reproduzir a realidade, o cinema possui a capacidade de questioná-la e transformá-la. Em Mercado Central, curta-metragem maranhense dirigido, roteirizado e protagonizado por Tássia Dhur, o suspense serve apenas como porta de entrada para uma narrativa muito mais profunda e perturbadora. O desaparecimento de pessoas em um mercado popular de São Luís é o motor dramático da trama, mas o verdadeiro mistério que o filme investiga está nas violências cotidianas naturalizadas contra as mulheres. Em poucos minutos, a obra transforma um espaço popular, carregado de memórias e sociabilidades, em um território de tensão, desejo, medo e resistência.
Na narrativa, Léia (Tássia Dhur) divide o cotidiano com Vana (Renata Figueiredo) e os demais trabalhadores do Mercado Central, enquanto uma série de desaparecimentos misteriosos passa a inquietar aqueles que circulam pelo local. Entre corredores estreitos, espaços úmidos e passagens sombrias, as trajetórias dos personagens se entrelaçam em uma atmosfera crescente de suspense. O mercado deixa de ser apenas um cenário de trabalho e convivência para se revelar um território atravessado por tensões, desejos e diferentes formas de violência. É nesse ambiente denso e inquietante que Léia transita, carregando em seu corpo e em seus silêncios as marcas da solidão, do medo e de impulsos que desafiam qualquer tentativa de controle.
Inspirado por histórias e observações acumuladas pela própria realizadora em suas frequentes passagens pelo Mercado Central de São Luís, o filme mistura realidade e ficção para construir uma atmosfera que pulsa verdade. Tássia Dhur não se limita a representar aquele espaço: ela o habita afetivamente. Essa intimidade com o ambiente aparece na maneira como a câmera percorre corredores úmidos, açougues, becos e passagens estreitas, revelando um universo visceral que parece respirar junto com seus personagens.
O aspecto mais potente de Mercado Central está justamente em sua dimensão visceral. A direção de arte não busca embelezar o espaço nem suavizar sua materialidade. O mercado é apresentado como um organismo vivo, pulsante, quase carnal. O sangue da carne exposta nos açougues dialoga simbolicamente com as violências sofridas pelas mulheres; os corredores apertados evocam a sensação constante de vigilância e ameaça. Nada ali é decorativo. Cada elemento visual contribui para uma experiência sensorial que coloca o espectador diante de uma realidade incômoda.
A atuação de Tássia Dhur acompanha essa proposta estética com grande força. Sua personagem carrega uma mistura de vulnerabilidade e enfrentamento que evita qualquer simplificação. Há uma economia de gestos e palavras que faz com que os silêncios se tornem tão expressivos quanto os diálogos. A atriz constrói uma mulher que compreende os perigos ao seu redor, mas que não aceita ser definida por eles. Sua presença em cena é marcada por uma resistência silenciosa, porém contundente.
Nesse sentido, o filme estabelece uma importante reflexão sobre o corpo feminino. Em Mercado Central, o corpo da mulher não é apresentado como objeto de desejo para o olhar masculino. Ao contrário, a narrativa questiona justamente a cultura que insiste em controlar, julgar e violentar mulheres a partir de suas escolhas, roupas e comportamentos. O filme reafirma um princípio fundamental: nenhuma mulher deve ser responsabilizada pela violência que sofre. A liberdade de vestir-se, circular e existir como desejar não pode ser confundida com autorização para o assédio.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da realidade brasileira e nordestina. Em uma região onde os índices de feminicídio permanecem alarmantes, a narrativa dialoga diretamente com experiências vividas por milhares de mulheres. O assediador representado na trama não aparece como uma figura monstruosa distante da realidade. Ele é reconhecível justamente porque encarna comportamentos frequentemente normalizados pela sociedade. É dessa banalidade da violência que nasce o horror do filme.
Contudo, Mercado Central não se limita à denúncia. Seu gesto político mais poderoso está na recusa da fatalidade. A protagonista rompe a lógica que transforma tantas mulheres em números de estatísticas policiais. Ela sobrevive. Mais do que isso: ela reivindica sua autonomia. Em um contexto cinematográfico no qual personagens femininas frequentemente terminam reduzidas à condição de vítimas, a obra oferece uma possibilidade rara de triunfo.
Há também uma camada menos evidente, mas igualmente importante, relacionada ao prazer feminino. O desejo que atravessa o filme não está subordinado ao olhar masculino. A narrativa sugere que a mulher possui uma relação legítima com seu próprio corpo, seus afetos e seus prazeres. O prazer feminino aparece como território de liberdade e autoconhecimento, não como recompensa ou concessão de alguém. Trata-se de uma perspectiva política porque desafia séculos de controle sobre os corpos das mulheres.
Ao transformar um mercado popular em palco para discutir violência de gênero, desejo, sobrevivência e autonomia, Tássia Dhur realiza um curta de impressionante densidade. O mistério inicial conduz o espectador, mas é a dimensão social da narrativa que permanece após os créditos finais. Mercado Central é um filme sobre desaparecimentos, mas sobretudo sobre permanências: a permanência da memória, da resistência e da força das mulheres que insistem em existir apesar das violências que tentam apagá-las.
Mais do que um suspense, o curta se afirma como um manifesto audiovisual sobre a recusa feminina em ocupar o lugar que o patriarcado historicamente lhe reservou: o da vítima silenciada. Em Mercado Central, a mulher não desaparece. Ela enfrenta, sobrevive e reivindica o direito de viver plenamente seu corpo, seu desejo e sua liberdade.


