Prêmio Abraccine: 15 anos radiografando o cinema brasileiro


Por Chico Fireman

Nos últimos anos, o cinema brasileiro ganhou uma visibilidade inédita dentro e fora do país, com uma forte representação tanto em festivais tradicionais quanto em premiações relevantes no cenário internacional. Nesse contexto, iniciativas de crítica organizadas em forma de prêmio cumprem uma função não apenas de registro anual da produção, mas também permitem observar tendências, recorrências e deslocamentos ao longo do tempo. O Prêmio Abraccine – Melhores do Ano, criado em 2011, ano de fundação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, integra esse conjunto de instrumentos de acompanhamento sistemático da produção audiovisual. Desde sua primeira edição, a premiação trabalha em três frentes, elegendo os melhores longas-metragens brasileiros, curtas brasileiros e longas estrangeiros. Seu funcionamento anual permite um recorte contínuo do que é produzido e circula no país, em diálogo com o que se registra além de nossas fronteiras.

Ao longo da história do cinema brasileiro, houve outras tentativas de estabelecer prêmios com caráter de balanço anual da produção. Em geral, foram iniciativas que não duraram muito ou que não eram conduzidas por uma associação de críticos com atuação distribuída nacionalmente, em moldes semelhantes aos que ocorrem em outros países com tradição de crítica institucionalizada, como a Argentina, que mantém desde meados do século XX sua premiação organizada por uma entidade de críticos.

Ao longo de 15 edições, o conjunto dos vencedores do Prêmio Abraccine na categoria de melhor longa-metragem brasileiro permite observar alguns movimentos importantes. Um dos casos mais evidentes é a consolidação de Pernambuco como um dos principais polos do cinema brasileiro contemporâneo. Entre os 15 filmes premiados na categoria, cinco representam a produção pernambucana — um terço do total. Essa sequência se inicia com Febre do Rato, de Cláudio Assis, e se concentra principalmente na obra de Kleber Mendonça Filho, responsável por quatro títulos premiados: O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau e O Agente Secreto. O conjunto cobre toda a produção de longa-metragem de ficção do diretor no período.

Esse grupo de filmes também apresenta convergências com outras instâncias de premiação no país. Dois deles — O Som ao Redor e Bacurau — foram posteriormente vencedores do Prêmio Grande Otelo de Melhor Filme. Outros foram indicados ou selecionados em diferentes ciclos de premiação nacional, incluindo O Agente Secreto, que ainda é candidato ao prêmio da Academia Brasileira de Cinema.

No campo internacional, parte significativa dos filmes premiados pela Abraccine também teve presença em festivais de grande porte. Aquarius, Bacurau e O Agente Secreto estrearam na competição oficial do Festival de Cannes, com os dois últimos recebendo prêmios oficiais. Ainda Estou Aqui estreou em Veneza, também com premiação, enquanto Que Horas Ela Volta? e Marte Um circularam por Sundance. No conjunto dos 15 longas brasileiros vencedores, ao menos 11 tiveram passagem por festivais do porte de Cannes, Veneza, Berlim, Sundance, Toronto, Roterdã ou San Sebastián.

A relação com o Oscar aparece de forma mais restrita, mas significativa. O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui são os dois únicos filmes do conjunto que chegaram à categoria de Melhor Filme Internacional, sendo o filme de Walter Salles o único vencedor da categoria. Ambos também alcançaram a etapa final da disputa por Melhor Filme, movimento ainda raro para produções não faladas em inglês. Outros três filmes premiados pela Abraccine foram selecionados como representantes oficiais do Brasil na categoria internacional, ainda que sem avançar à fase final. Esse conjunto de dados sugere que o prêmio não funciona como previsão de consagração industrial ou internacional, mas como um ponto de convergência frequente entre crítica, festivais e políticas de seleção institucional, ainda que de forma não sistemática.

Ao lado dessas recorrências, o conjunto também revela momentos em que o prêmio opera como espaço de reconhecimento de filmes de circulação mais restrita ou de menor inserção no circuito comercial. Em diferentes edições, a premiação contemplou obras independentes, estreias e propostas formais menos estabilizadas no mercado. Nesse recorte, a presença de mulheres diretoras ainda é bastante limitada. Apenas três filmes com direção ou codireção feminina aparecem entre os 15 longas premiados: Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaerte; Martírio, codirigido por Tatiana Almeida; e Mato Seco em Chamas, com codireção e direção de fotografia de Joana Pimenta.

Outro ponto relevante diz respeito a cineastas em início de carreira. Apenas dois dos 15 longas foram realizados por diretores em seus primeiros trabalhos: O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, e Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso. Este último estreou na Mostra de Tiradentes, festival associado historicamente à produção independente brasileira, que também lançou o primeiro vencedor da categoria na história da premiação, Transeunte, de Eryk Rocha. Dentro desse campo mais independente, Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, é uma das escolhas mais representativas. O filme articula política e forma, com uma construção narrativa e estilística que parte de experiências de trabalho e deslocamento social, sem separá-las de sua própria estrutura cinematográfica.

Outra escolha de forte cunho político é Martírio, único documentário a vencer na categoria de longa brasileiro. O filme, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, reúne anos de registros sobre a violência contra populações indígenas no Brasil a partir de um vasto arquivo de imagens. Sua circulação comercial foi bastante limitada, o que reforça a importância da premiação da Abraccine, que, de certa forma, ajuda a eternizar o filme e sua proposta menos convencional como documento histórico. Um ato de resistência que se compara, indiretamente, à existência de Sertânia, canto final de Geraldo Sarno, que também mereceu o reconhecimento da Abraccine. O filme retoma temas centrais de sua filmografia e da tradição do cinema brasileiro voltado ao interior nordestino, combinando memória, política e construção formal em um projeto autoral e de grande escala.

Ao longo desses 15 anos, o Prêmio Abraccine construiu um recorte bastante diverso da cinematografia brasileira, que ora capturou a temperatura de como o cinema do país é recebido dentro e fora de nossas fronteiras — consolidando o momento de reconhecimento que as produções atuais têm recebido —, ora oferece visibilidade a filmes que confrontam convenções e ainda serão descobertos dos dois lados dessas divisas, permitindo que obras com menor circulação ganhem uma atenção especial. Seu valor está menos em apontar vencedores isolados e mais em organizar, de forma contínua, um mapa possível da produção audiovisual contemporânea no Brasil e apontar zonas de tensão entre consenso crítico, indústria e cinema independente. Isso porque nem chegamos a falar sobre os curtas-metragens.

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