Dossiê É Tudo Verdade – Parte II: Os Estrangeiros

Este segundo post é dedicado aos filmes internacionais, espalhados pela competição, programações paralelas e retrospectivas. Ao todo são três textos: um dedicado ao filme de Werner Herzog, outro ao Foco Latino e o último comenta um longa chileno da competição internacional. Boa leitura!

Herzog pratica com maestria a “dramaturgia do ouvir” em Ao Abismo

Por Maria do Rosário Caetano, especial para o Blog Abraccine*

Ao Abismo, Um Conto de Morte, Um Conto de Vida, que Werner Herzog realizou, no Texas, um dos estados americanos que praticam a pena de morte, compõe com Não Matarás, de Kieslowski, os dois mais contundentes e impressionantes libelos já filmados contra a pena capital. O documentário de Herzog, exibido no É Tudo Verdade, descreve um crime hediondo: dois rapazes matam uma dona de casa para roubar um Camaro vermelho, estacionado na garagem de bela residência.

Depois, para conseguir o controle remoto que abriria a garagem, eles matam o filho da mulher assassinada e um amigo dele. Os dois matadores-adolescentes conheciam (e conviviam) com os dois adolescentes mortos por causa da chave de acesso ao carro vermelho.

O cineasta alemão (atualmente radicado nos EUA) conversa (seguindo os passos da “dramaturgia do ouvir”, aperfeiçoada pelo brasileiro Eduardo Coutinho) com os dois assassinos: um deles pegou pena de morte e o outro prisão perpétua. Conversa, também, com um pastor (que entende e justifica a pena de morte), com a filha da mulher assassinada, com o pai (um traficante de drogas encarcerado) do jovem condenado à perpétua e com o irmão (ex-presidiário) do outro jovem assassinado (junto com o filho da dona da casa).

E segue ouvindo múltiplas vozes: a do carrasco que, depois de atuar em mais de cem execuções por injeção letal, preferiu perder a aposentadoria a continuar no ofício, uma garçonete que viu e conversou com os jovens assassinos e passeou no Camaro vermelho e uma “tiete” de condenados à prisão perpétua, que se apaixona (e engravida) pelo condenado à perpétua.

O filme inteiro é de altíssima qualidade. Mas há dois momentos especiais que mostram o quão afiado está o olhar do septuagenário diretor germânico. Primeiro: o irmão (egresso da prisão, que se vira num bico em oficina mecânica) de um dos jovens assassinados, tem o corpo cheio de tatuagens. Ele responde às questões postas por Herzog no intervalo de inúmeras cusparadas. Conta que um de seus maiores arrependimentos foi ter apresentado o irmão aos rapazes que iriam matá-lo. Num dos braços, o jovem mecânico tatuou o nome da namorada Bailey. O cineasta pergunta o que ele fará se o namoro naufragar. Ele responde que aumentará a tatuagem com um nada lisonjeiro comentário: “Bailey is a bitch” (Bailey é uma ‘vaca’).

Segundo: uma moça enfrentou viagem de dois dias, sem descanso, para visitar o jovem condenado à perpetua, por quem diz estar apaixonada. Herzog pergunta se ela integra o time de “tietes” de presos ou condenados à morte. Ela diz que as tietes existem e que muitas delas procuram pessoas em tais circunstâncias em busca de notoriedade, espaço na mídia. Não seria o caso dela. Com elegância (e contundência) Herzog, depois de registrar que a moça está grávida, pergunta como ela engravidou. O que o cineasta retira – com sua extraordinária “dramaturgia do ouvir” – da conversa com a jovem, é algo de que nunca mais esqueceremos.

Estas duas sequências constituem (apenas na aparência) detalhes que enriquecem de forma espantosa um documentário que tem como trágico protagonista um jovem de 28 anos (que receberá a injeção letal oito dias depois de falar com Herzog). Ele cometeu o crime aos 18 anos. A conversa dele com Herzog nos impacta da mesma forma que nos impactou, nos anos 1990, o kieslowskiano, duro (e esverdeado) Não Matarás.

*Maria do Rosário Caetano edita o Boletim Almankito e colabora com o jornal Brasil de Fato.

Foco Latino sustenta-se como ponto forte do É Tudo Verdade

Por Neusa Barbosa (originalmente publicado no Cineweb)*

Uma amostra das moléstias sociais e da resistência humana da Latino América encontra uma janela expressiva nos cinco títulos do Foco Latino e igualmente na Retrospectiva Internacional desta edição do É Tudo Verdade, que focaliza o argentino Andrés di Tella.

No Foco Latino, um raríssimo exemplar do cinema de Porto Rico, Os Arquivos, de Maitê Rivera Carbonell, chama de cara a atenção pelo tema: a espionagem usada pelo Estado contra os cidadãos, desde meados da guerra da independência, em 1898, culminando no escancaramento dos arquivos secretos nos anos 1990. Mais do que aproximar Porto Rico de outros países que sofreram processos parecidos, o filme de Maitê é extremamente feliz ao centrar fogo no dramático problema de identidade de seu país, profundamente dividido em sua relação de semiautonomia, mas de total dependência, dos EUA.

A temática política prosseguiu funda no uruguaio O Cultivo da Flor Invisível, do estreante Juan Alvarez Neme, que serve não só para lembrar que o pequeno país ao sul do Brasil sofreu igualmente os processos de tortura e desaparecimento de opositores políticos durante a ditadura militar dos anos 1970, como experimenta dolorosos conflitos comuns aos demais países sul-americanos em relação à anistia aos torturadores e à procura dos restos dos desaparecidos.

Focado num único depoimento, da ex-militante do Exército Revolucionário do Povo, Miriam Pillellensky, o argentino Em Busca da Alma, de Mario Bomheker – filme que teve sua première mundial no festival brasileiro –, revela-se muitíssimo mais do que uma mera “cabeça falante”, e sim uma emocionante reconstituição de uma vida atravessada por contradições e tragédias, que passam por prisão e tortura, mas também por um período de clandestinidade no Paraguai. Uma narrativa humana que evidencia outros aspectos do funcionamento da Operação Condor, a temível colaboração além-fronteiras das forças de segurança do continente sul-americano.

De passaporte mexicano, O Céu Aberto [foto 1], de Everardo González, recupera com riqueza de detalhes e depoimentos candentes o legado do arcebispo salvadorenho Oscar Ranulfo Romero, um militante pela paz e a igualdade social assassinado pelas forças paramilitares de seu país em 1980, tornando-se mais uma vítima entre as dezenas de milhares da guerra civil da época.

A força avassaladora da suspeita de uma doença incapacitante numa família chilena exilada no Canadá – também na esteira da ditadura de 1973 – transforma a produção chilena O Huaso, de Carlo Guillermo Proto, na representante solitária de um registro mais intimista nesta seção. Envolvido até a medula na história que conta, já que a vítima se trata de seu pai, Proto costura seus próprios conflitos e hesitações no tecido vivo do filme, que em mais de um momento se torna quase um thriller e segue um desenrolar surpreendente.

Di Tella

Com oito títulos, a retrospectiva do argentino Andrés Di Tella permite atualizar a percepção de uma obra que une, com rara sensibilidade, o olhar intimista e o social. Os dois aspectos estão reunidos com especial entrosamento no filme mais recente do diretor, Golpes de Machado [foto 2], no qual Di Tella revê sua própria juventude, como colaborador do cineasta alternativo Claudio Caldini, seu protagonista aqui – e que encerra, em sua história de vida, a tragédia da ditadura argentina, cortando trajetórias e fincando cicatrizes nos seus sobreviventes.

Memórias da ditadura ressurgem no impactante Montoneros, Uma História, narradas a sangue quente pela ex-militante Ana, e também em Proibido, que reavalia os mecanismos de manipulação da mídia no período militar.

A mídia tem igualmente um retrato crítico, desta vez focando os mecanismos sensacionalistas do jornalismo policial no curta Reconstituição do Crime da Modelo – que, apesar de realizado há 22 anos, continua tristemente atual. A imbricação entre história pessoal e social bate forte igualmente em A televisão e Eu e mais ainda no belo Fotografias, em que Di Tella investiga os fragmentos da história de sua mãe, nascida na Índia.

Personagens marginais, tão ao gosto do documentarista, têm dois retratos pungentes em O País do Diabo, que recupera a fatídica Conquista do Deserto que, no século XIX, deflagrou um extensivo genocídio dos indígenas na Argentina, e, num registro mais poético, em Macedonio Fernández – em que o escritor Ricardo Piglia percorre Buenos Aires à procura de vestígios do escritor maldito que conquistou a admiração de Jorge Luis Borges.

*Neusa Barbosa é fundadora, editora e crítica de cinema do Cineweb e membro da comissão de seleção da competição brasileira do É Tudo Verdade.

Calafates, Zoológicos Humanos joga lenha na fogueira na questão indígena

Por Edu Fernandes (publicado originalmente no Cine Dude)*

A questão indígena está longe de ser definida. Por causa do grande número de fatores em jogo e a complexidade de elementos a serem considerados, não consigo definir minha opinião sobre o assunto. Depois de visto Calafate, Zoológicos Humanos fica claro que o caminho a ser percorrido é enorme e que há mais pontos de discussão a serem abordados.

O documentário reconta a história de dezenas de pessoas que foram capturadas em solo chileno para serem expostos na Europa em espaços para apreciação pública de humanos “selvagens”. Esses tristes acontecimentos ocorreram a partir do final do século XIX até a primeira metade do século XX, uma época em que o debate acerca da igualdade entre todos os seres humanos era acalorado.

No século XXI, foram encontradas ossadas de alguns desses indígenas em uma universidade de Zurique, Suíça. Desde a descoberta até a devolução dos restos mortais aos descendentes desses povos passaram-se anos. Muito dessa demora se explica pela péssima atuação do governo chileno.

Sobre isso, o diretor Hans Mülchi diz: “Foi muito doloroso constatar como a falta de respeito por nossos povos originários não ficou no passado e subsiste até os dias atuais por parte de nossas autoridades políticas”.

Em sua estadia forçada na Europa, a maioria dos indígenas morreu por causa das condições a que eram submetidos. Higiene, alimentação e aclimatização não constavam na lista de preocupações dos raptores – o lucro era o único objetivo. O filme mostra que o maltrato a esses povos é uma realidade constante.

Calafate é o nome de um dos poucos sequestrados que conseguiu voltar a o Chile, onde foi acolhido por religiosos. A sobreposição da fé cristã à cultura nativa é outro grande problema na questão indígena. Felizmente Zoológicos Humanos não se adentra nessa polêmica e foca-se em seu tema central.

*Edu Fernandes é crítico colaborador do UOL e TV Gazeta, além de editar o blog Cine Dude.

Textos relacionados:
Dossiê Werner Herzog: críticas dos filmes de ontem e de hoje
Dossiê É Tudo Verdade – Parte I: Os Brasileiros

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Um comentário sobre “Dossiê É Tudo Verdade – Parte II: Os Estrangeiros

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