Prêmio Abraccine – Alguns Textos Para os Vencedores

Durante o mês de janeiro, a Abraccine promoveu, entre seus associados, uma votação dos melhores filmes de 2012. O resultado já é conhecido. Aqui, você acompanha um pouco mais sobre cada um dos vencedores, com textos que alguns dos membros da entidade produziram em diversas ocasiões.

FEBRE DO RATO

A Febre do Rato

A febre de Cláudio Assis contamina Paulínia (Por Luiz Joaquim – publicado na Folha de Pernambuco, em 17/07/11)

PAULINIA (SP) – São raras as vezes em que um acontecimento cultural vai além do importante e torna-se histórico. Na quarta-feira, última noite da mostra competitiva do 4o Paulínia Festival de Cinema, essa sensação era quase palpável de tão concreta e fácil de comprovar. Aconteceu durante a primeira exibição “intergaláctica”, como anunciou a produtora Júlia Moraes, de Febre do Rato, terceiro longa-metragem de Cláudio Assis.

Para começo de conversa, Cláudio promoveu a apresentação mais empolgante de todo o festival. Lembrou que o verdadeiro cinema não pode abrir concessões para depois convocar sua equipe no palco, com cerca de 15 pessoas, para dançar e em seguida dar seu tradicional beijo na boca, um a um, para um teatro de 1.300 lugares ver. Entraram também na dança do beijo os apresentadores da cerimônia Marina Person e o crítico de cinema Rubens Ewaldo Filho.

Mas a festa começaria mesmo com a projeção do filme. A primeira questão a apontar é ter a coragem de assumir que o Febre do Rato é uma trabalho que vai ganhando novas cores com o passar do tempo. Tem a característica dos filmes que parecem não falar de nada, mas na verdade está a falar do que é a essência do ser humano.

Aspecto que é ressaltado pelo próprio personagem de Nanda Costa (Eneida) com Irandhir Santos (Zizo), quando estão a ver um filme chamado Maconha. Ela gosta do que vê mas comenta: “Pena que não tem história, né?”, para Zizo responder: “A história está nos olhos de quem vê”.

Personalizando o que seria esta essência temos Zizo (Irandhir Santos, assustador em sua entrega). Com inspiração nos poetas marginais pernambucanos do anos 1970, Zizo é uma força descontrolada da natureza, movido pela fúria da paixão e da anarquia social.

À construção desse universo, Cláudio ilustra a convivência do poeta, com os amigos, o coveiro Pazinha (Matheus Nachtergaele) casado com a travesti Vanessa (Tânia Moreno), e o quarteto sexual encabeçado pelo personagem de Juliano Cazarré.

Curioso que, mesmo livres, como são, eles não compreendem o hábito de Zizo transar com idosas (Maria Gladys, Conceição Camarotti) num tonel d`água no quintal de casa. Mas, a certa altura, Zizo conhece a estudante Eneida, e as estruturas do poeta ficam abaladas. Num misto de encantamento e tesão (a tal ‘febre do rato’ ), a negativa da menina em se entregar, ao invés de o intrigar, deixa-o mais excitado.

Para alem disso, Febre do Rato é um registro amoroso de Recife, cuja beleza está na “feiura”, ou melhor na crueza de um universo que só alguns recifenses conhecem de fato, e que agora ganha uma perspectiva universal pela audácia da poesia. A fama da cadela pernambucana Xôla (ou Chôla?), por exemplo, agora será conhecida no mundo. Mas o destaque fica, é claro, para o grande momento de uma declamação poética que literalmente desnuda a todos em frente a Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Nesse contexto, temos a fotografia em P&B de Walter Carvalho provocando um efeito de extrema de beleza plástica, que remete inclusive à pureza das imagens clássicas e mudas de Humberto Mauro. A beleza só aumenta quando entra em ação a personalidade visceral de Cláudio Assis em Zizo, relativizando a pureza do amor, envolvendo urina, numa das sequências, entre um casal, que é uma das mais belas do cinema que conseguimos lembrar.

Temos, enfim, em Febre do Rato um novo Cláudio Assis. É um ponto de inflexão em sua carreira, que vai para cima, desvelando um autor cinematográfico com uma assinatura que agora a usa para expurgar sua febre de amor pela liberdade.

A Febre do Rato1
Entre a invenção e o anacronismo (por Maria do Rosário Caetano – especial para o blog)

Febre do Rato, do pernambucano Cláudio Assis, é um dos filmes mais premiados da história recente do cinema brasileiro. Ao conquistar o Prêmio Abraccine 2012, ele o soma a dezenas de outros ganhos no Festival de Paulínia 2011, e também ao Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e ao Prêmio ACCIRS (Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul). Febre do Rato figurou, ainda, junto com o documentário A Canção Segundo Tom Jobim (Nelson Pereira e Dora Jobim), na lista dos dez melhores filmes do ano da ACCRJ (Associação dos Críticos de Cinema do Rio de Janeiro). Os outros oito títulos eram estrangeiros. Há que se notar, porém, que esta consagração é brasileira, pois o filme de Cláudio Assis não “viajou bem”. Ou seja, não fez carreira em festivais internacionais. Os filmes anteriores do cineasta (em especial Amarelo Manga) viajaram bem melhor.

Nos balanços de 2013, outro pernambucano, Kleber Mendonça, e seu O Som ao Redor devem bater recordes de troféus, somando a consagração brasileira à consagração internacional, já que o filme vem percorrendo amplo circuito de festivais (sempre com boa receptividade crítica) e ganhando lançamento em muitos países.

O pé-quente Cláudio Assis é, no Brasil, um recordista de prêmios. Seus três longas ganharam dezenas de troféus em festivais como Brasília, CineCeará e Paulínia. A franqueza e rebeldia do cinquentão pernambucano (que encontra similar apenas no sexagenário baiano Edgard Navarro) faz dele foco especial do interesse dos mais inquietos, em especial dos jovens. E Cláudio, com sua eterna e cultivada rebeldia, vem aglutinando equipe de colaboradores fieis: o fotógrafo (e cineasta) Walter Carvalho, o roteirista Hilton Lacerda, os atores Matheus Nachtergaele, Dira Paes e Conceição Camarotti, entre outros.

Por que Febre do Rato ofuscou, nas premiações da(s) Crítica(s) Cinematográfica(s) brasileiras um filme de raras beleza e ousadia como o documentário A Canção Segundo Tom Jobim?

Num tempo de documentários muito falados, Nelson e Dora construíram poema visual, radicalmente destituído de falas. E negaram-se, até, a recorrer à identificação de quem aparece cantando ou tocando (seja Errol Garner ou uma cantora europeia). A dupla realizou filme sensorial ao acreditar na potência da imagem e dos sons.

Seriam Tom Jobim e Nelson Pereira dos Santos “lembranças distantes” para as novas gerações? Posta esta questão, voltemos ao terceiro longa-metragem de Cláudio Assis. Ninguém há de negar muitas das qualidades do filme, nem seus momentos de beleza arrebatadora (em especial, o passeio revelador da câmara pelas águas e pontes de sua cidade-cenário). O trabalho de Irandhir Santos na pele do poeta Zizo atinge o sublime. A fotografia de Walter Carvalho (em preto-e-branco) nos revela paisagens (e enquadramentos) impensáveis de uma Recife muito distante do cartão postal. E, o que é o maior mérito do filme: Cláudio e seus atores construíram um dos melhores e mais bem-humorados momentos da história do cinema brasileiro contemporâneo: aquele em que o personagem de Juliano Cazarré conta a piada do Recife-cidade-inferno

Anacronismo – Duas características do filme, porém, causam incômodo: o anacronismo e o tom “pour épater la bourgoisie”. Se a história se passasse nos anos 1970, época de Ditadura Militar e tempos pré-Aids, a narrativa ganharia imensa força e teria maior poder de mobilização do público (o filme atingiu apenas 26 mil espectadores, ao contrário de Amarelo Manga – 130 mil, e de Baixio das Bestas – 49 mil). “Enfrentamento” de tanques exibidos em paradas militares fazia parte, mesmo que simbólica (pois a barra era muito pesada) do imaginário setentista. Sexo grupal e orgias estavam na corrente sanguínea daquele tempo (fruto da revolução sexual sessentista, que aprofundou-se nos anos seguintes). Mas o pós-Aids mudou este quadro. O anacrônico, no filme, agrava-se na opção de Zizo, um “poeta de mimeógrafo-xerox-papel” em plena era internética!

Em dois debates (um em Paulínia, outro no CineCeará), Cláudio Assis & equipe abordaram a questão do “anacronismo” do filme. Em Paulínia, o roteirista Hilton Lacerda não mostrou incômodo com a transposição de um personagem setentista para o Brasil democrático do século XXI. Nem para as práticas sexuais que evocam tempos pré-Aids em tempos pós-Aids. Alegou “liberdade poética” para construir o roteiro nos parâmetros adotados.

Vale lembrar que Hilton cometeu outro anacronismo ao escrever Capitães da Areia com a diretora Cecília Amado. Como bem observou o crítico baiano João Carlos Sampaio (A Tarde), o romance de Jorge Amado se passa nos anos 1930, quando os bandos de cangaceiros (liderados por Lampião) estavam ativos e eram caçados pelas Volantes. O filme, que se adiantou para a década de 1950 (quando o cangaço já fora exterminado e era símbolo de fracasso), continuava colocando cangaceiros como ídolos de um dos capitães da areia. Como se vê, Hilton Lacerda é reincidente.

No debate do CineCeará, Cláudio Assis assumiu que não tem interesse em fazer filmes históricos. Prefere o corpo-a-corpo com o tempo presente. O debate, bem mais sereno que o de Paulínia, deixou entrever um diretor mais propenso a ouvir. Aguardemos, pois, em que tempo histórico ele situará seu novo projeto, Big Jato, adaptação de novela de Xico Sá. A narrativa do cearense-pernambucano se passa nos anos 1970, em pleno regime militar.

O coveiro e a travestiFebre do Rato soma três núcleos: o do poeta Zizo, o do coveiro Pazinha (casado com uma travesti) e a turma maluca em que brilham os personagens de Juliano Cazarré e uma linda mulata de trajes reduzidos. Esta turma (a da “cidade inferno”) é a que estabelece a melhor sintonia com o Recife contemporâneo. Se o núcleo do poeta é afetado pela questão do anacronismo, o núcleo centrado em Matheus Nachtergaele, tinha tudo para revelar as novas afetividades de nossos dias. Mas resultou sem força. E por quê? Pelo erro na escalação do ator para o papel do coveiro.

Ninguém vai negar o talento de Matheus, um de nossos melhores intérpretes, que brilhou nos dois filmes anteriores de Assis: como o homossexual-faxineiro de Amarelo Manga e como o agroboy canavieiro de Baixio das Bestas. Mas o próprio ator revelou que o coveiro Pazinha, que se casa com uma vistosa travesti, fora concebido (por Claudio Assis) para um intérprete de 60 anos, másculo, negro, alto e forte. Do contraste (um coveiro black, forte e sexagenário, vivendo relação de amor, pontuada por brigas e ciúmes, com uma travesti) nasceria a força do casal contemporâneo. O impacto e a transgressão seriam, convenhamos, bem maiores.

Por fim, há que se lembrar o tom “pour épater la bourgeoisie” que, neste terceiro filme de Cláudio Assis, ganhou incômoda relevância. Os personagens de Amarelo Manga eram transgressores, assim como os de Baixio das Bestas. Mas nos provocavam mais que os de Febre do Rato. Pareciam mais calorosos, afetivos. Desta vez o interesse do diretor em chocar o público parece se sobrepor às necessidades da estória e dos personagens.

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Entrevista com Cláudio Assis (Por, André Dib – publicado no Diário de Pernambuco, em 21 e 22/06/12)

Movimento, sonho, utopia, paixão. Eis as premissas de Febre do rato, terceiro longa-metragem de Cláudio Assis (Amarelo Manga), que estreia amanhã no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Nele, forma e conteúdo convergem para o que talvez seja o filme mais libertário já realizado em Pernambuco. Debaixo da Ponte do Limoeiro, as Torres Gêmeas não parecem tão altas assim. Assista, antes que as próximas palafitas virem shopping.

Sobre o Capibaribe, o Recife muda a cada segundo. Por ele entramos e saímos do filme. Entre o começo e o fim, o mundo-abismo. O que fazer dele? O poeta Zizo (Irandhir Santos), sabe a resposta. Se rodeia de amigos e celebra a vida. Renuncia rituais de submissão. Fala alto, ri, chora, é transparente, não tem nada a esconder. Não especula, presta atenção no aqui-agora.

Febre do rato é mais uma viagem autorreferente e excessiva de Cláudio Assis, que faz do filme seu parque de diversões particular, uma Disneylândia do sexo, drogas e poesia. É através dela que Zizo se aproxima de Eneida (Nanda Costa). Ao contrário dos demais personagens, a troca de fluidos entre Zizo e Eneida é de ordem urinária, em cena de amor das mais bonitas que o cinema já produziu.

No mais o casal faz sexo com o olhar, sorrisos, com uma máquina de xerox e se despindo publicamente. Na Rua da Aurora, ele se declara à amada, durante um protesto em cima de um carro. Ao terminar a poesia, estão nus.

O que há de mais visceral, no entanto, está no texto, em roteiro escrito por Hilton Lacerda. Não por acaso, Eneida, sua mãe Helena e sua avó Iracema são títulos da literatura nacional. Da boca de Irandhir – em sua melhor atuação até o momento – jorram palavras, de amor, de dor, de denúncia. “As pessoas perderam a capacidade de espernear. A cidade se reinventa em cima de coisas que não vive. É o festival do eu acanhado, a lógica do umbigo miúdo”, diz ao amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele), na mesa do bar.

Nada de lamentações. Zizo e trupe agem e reagem à miséria humana ao redor. Se não há referências na atualidade, buscam atitude no amor livre dos anos 1970, na poesia marginal dos 1980, no manguebeat dos 1990. Problemas que surgem por cegueira da cintura pra cima, se resolvem com sabedoria da cintura pra baixo. É a política dos corpos nus, revolução na epiderme, que refaz um casamento que nunca deveria terminar, o da poesia com a política. Não a poesia comedida, bem comportada, mas a dos loucos, dos que vivem à margem.

Coerente com sua busca, o filme não obedece a lógica temporal ou à forma convencional do cinema. O pacto com o espectador é outro. Tamanho descompromisso gera estranhamento mas a força do redemoinho aqui orquestrado é tanta que não há como sair do filme antes do final. A Cláudio, resta apenas o compromisso com sua arte. À sua maneira, ele realiza o desejo de Glauber Rocha em estabelecer linguagem própria (leia-se livre) para o cinema nacional.

Zizo / Cláudio desconhece bons modos. Apaixonado (por Eneida, pelo cinema), pode ser desajeitado para entrar e sair. Não é assim que a banda toca, dizem para gente assim. No entanto, como diz Zizo, “o placar pode ser injusto, mas o jogo é do caralho”.

CLAUDIO_11Febre do rato estreia com dez cópias, em cinemas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Está satisfeito?
Acho pouco. Este filme precisa estar em outros bairros, no Alto José do Pinho, no Morro do Alemão, no Capão Redondo.

Você trabalha com um elenco completamente engajado. Qual é o pacto estabelecido com os atores para conseguir tamanha entrega?
Quando chamo alguém para meu filme, digo o filme é dele, pois para ser verdadeiro, ele tem que acreditar naquilo.

A performance de Irandhir é particularmente brilhante. Como foi o processo para ele chegar a esse ponto?
No começo, meu amigo e diretor Beto Brant queria que eu fosse Zizo. Eu até tentei, deixei barba, bigode. Quando chamei Irandhir, eu disse a ele: Zizo é tu, sou eu, é o Hilton, somos nós. E ele trouxe algo único para o filme. A forma intensa como Irandhir se entrega é especial, ele é um monstro, passa o dia inteiro ligado no personagem.

Em “Febre do Rato” há várias cenas de sexo, exceto entre os dois casais principais do filme, Zizo / Eneida e Pazinho / Vanessa. Foi proposital?
Eu brinco dizendo coloquei Matheus de castigo, pois no filme todo mundo transa menos ele. Sua relação com a travesti é a mesma de qualquer cara machista. A sociedade é assim, mesmo defendendo o casamento gay, é muito careta. Com Irandhir e Nanda o recado é outro. Ela resiste, não quer assumir o que sente por ele. Quando se entrega, não dá mais tempo. Precisamos viver o agora, fazer o que quiser, amar, desejar. Se deixar pra depois, pode não dar tempo.

Dentro de “Febre” há um outro filme chamado Maconha, que os personagens assistem durante festa na casa de Zizo.
É um filme inacabado, que começamos a fazer nos anos 1990. Na época, o secretário estadual de justiça, Roberto Franca, disse que a gente poderia filmar que o dinheiro viria, mas nunca saiu. A ideia do filme era fazer uma denúncia de como a hipocrisia em torno da maconha se tornou um problema social. No elenco estava Otto e Aramis Trindade, na fotografia Feijão e na produção, Cecília Araújo. Tenho muito respeito por esse projeto, ele está no Febre como prestação de contas.

Fale mais sobre seu projeto de dirigir um filme infantil.
Todo mundo diz que faço filmes violentos e fiz Febre, que é só poesia. Agora, a pedido do meu filho Francisco, vou fazer um filme infantil. Vai se chamar Chão de Estrelas. O livro é resultado de uma pesquisa feita em todo o Brasil, sobre que mundo as crianças querem. Antes vou dirigir outro, Piedade, com texto inédito de Xico Sá, que já tem um pequeno recurso para começar.

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A política dos Corpos Nus (PorAndré Dib – publicado no Diário de Pernambuco, em 15/07/12)

A produção pernambucana Febre do Rato encerrou a mostra competitiva do Festival Paulínia de Cinema de maneira inesquecível. Antes mesmo de o filme começar, durante os agradecimentos, Cláudio Assis deu o tom de alegre ousadia. Beijou toda a equipe na boca, inclusive os apresentadores Rubens Ewald Filho e Marina Person. Pediu ao público que estava no fundo do teatro que viesse para as cadeiras da frente, reservada ao elenco. “Meu elenco senta no chão. E pode chamar quem ficou lá fora. Tem lugar pra todo mundo. A gente faz cinema assim, com emoção, vontade”, disse. Falou palavrões. E ainda convidou a todos para dançar.

Certamente, em seus quatro anos, o festival nunca havia mostrado um filme assim. Exibido anteontem, o longa de Cláudio Assis elevou à enésima potência o nível da competição, até então dividida entre o existencialismo colorido de O Palhaço e a visão impiedosa da classe média que degringola em Trabalhar Cansa. Assim, além de apoiar a realização de novas produções, Paulínia se firma também como lançadora de filmes nacionais, de olho na vitrine (são 150 jornalistas) e nos prêmios (total de R$ 800 mil – R$ 250 mil para o melhor longa).

Selton Mello fez um belo trabalho como roteirista, diretor, co-montador e ator de O Palhaço. Deve ficar com boa parte dos prêmios. Mas será uma injustiça se o júri não reconhecer o desempenho de Irandhir Santos como o poeta Zizo. Com emoções à flor da pele e uma fluidez verborrágica para o texto de Hilton Lacerda, Irandhir está entregue ao papel de tal forma que, sem ele, Febre do rato não teria como existir.

Colaborador dos filmes de Cláudio desde o curta Texas Hotel, o diretor de fotografia Walter Carvalho pintou um Recife monocromático e em cinemascope. Em parte do tempo, a câmera está posicionada debaixo de pontes ou correndo pelo leito do Capibaribe. O poeta Zizo é um personagem autônomo, mas é possível enxergar nele poetas marginais do Recife, como o próprio Zizo, Erickson Luna, França e Miró. “É a nossa forma de homenagear essa geração”, disse o roteirista Hilton Lacerda, também autor das poesias.

“Tudo será mostrado com generosidade”, garantiu o diretor, durante as filmagens, em setembro do ano passado. E cumpriu. Não faltam cenas de sexo. Nunca pornográficas, mas eróticas ou bizarras (como quando Zizo se esfrega numa máquina de Xerox). Há um quadrilátero amoroso e a relação romântica entre Pazinho (Matheus Nachtergaele) e a travesti Vanessa (Tânia Moreno). Num tonel, Zizo transa com duas mulheres mais velhas (Conceição Camarotti e Maria Gladys). “O que ele sente por elas é amor, amor que se atreve para reinventar. E o sexo passa por isso”, conta Irandhir.

“O que ele sente por elas é amor, amor que se atreve para reinventar. E o sexo passa por isso”, conta Irandhir. A cena em que Zizo segura Eneida (Nanda Costa) com uma das mãos, para que ela se incline na borda de um barco, enquanto molha a outra mão com a urina da garota, é uma das mais lindas declarações de amor do cinema. Não o amor burguês, paralisante, mas aquele forjado na liberdade, capaz de deflagrar energia criativa. É a política dos corpos nus, cuja genitália é mostrada de forma coloquial, tão comum que voltamos a prestar atenção no filme.

Zizo olha para o Recife como uma utopia possível. Ele edita um jornal impresso no fundo do seu quintal, que divulga microfone em punho, em carro de som. Indignado com o conformismo dos normais, nas palavras do poeta, com o “festival do eu acanhado”, ele circula por favelas e pelo centro da cidade, conclamando a revolta. Evoca Chico Science: “cadê tua ciência pra esclarecer?”. É a cidade reinventada, transcendente.

Com a mesma gana, na coletiva para a imprensa, Cláudio Assis fez o mesmo e assumiu o controle da mesa. Palavras de ordem não faltaram. “O cinema brasileiro é careta”. Muito menos xingamentos, como os dirigidos para os gestores da Prefeitura do Recife. “A gestão do PT é nojenta. Gastamos R$ 1,5 milhão na cidade e a prefeitura não deu um centavo em troca. Pelo contrário, pagamos à CTTU para fechar as ruas”.

O protesto é compreensível. Já disse Glauber Rocha: “A arte é tão difícil quanto o amor”. E o amor não admite meio termo. Para chegar a ele, é preciso coragem, desprendimento, assumir riscos, não ter medo de errar. E isso, Febre do rato tem de sobra.

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Febre do Rato (Por Neusa Barbosa – publicado no Cineweb, em 19/06/12)

O Recife que se vê nos filmes de Cláudio Assis é sempre inesperado. Do colorido doentio de Amarelo Manga (2002) à violência quase insuportável de Baixio das Bestas (2006), a cidade que surge na tela sempre se afasta não só dos cartões postais, como das experiências diretas que se tenha da solar capital de Pernambuco.

A doçura pernambucana ressurge em parte em Febre do Rato, terceiro e premiado longa do diretor, em que a primeira estranheza vem de as paisagens do Recife se revelarem em preto e branco – numa fotografia linda de Walter Carvalho que redescobre a cidade pelo seu avesso.

De novo, Assis se debruça na periferia, no mangue, nas favelas, afirmando desde os primeiros fotogramas a profunda divisão de Recife, símbolo de uma desigualdade intrínseca aos quatro cantos do País.

Bem mais do que seus longas anteriores, aqui Assis procura a beleza e a extrai da poesia, em vários poemas escritos por seu habitual roteirista Hilton Lacerda – autor também deste roteiro – e que na ficção aparecem como obras de Zizo (Irandhir Santos), o poeta marginal que edita o tabloide Febre do Rato – uma expressão popular do Recife para designar “fora de controle”. Ou aquilo que, na antiga canção de Chico Buarque, “não tem vergonha, nem nunca terá, o que não tem juízo”.

Zizo é assim, um personagem anárquico, apaixonado, intenso, extremo, que desafia a lógica e o bom senso.Imprime seu jornalzinho numa prensa primitiva e sai pelas ruas, com um carro velho, microfone acoplado, propagandeando os versos do dia. Menestrel sem patrão, vive num fundo de quintal, perto da mãe (Ângela Leal) e fazendo a alegria de duas maduras vizinhas, Stella Maris (Maria Gladys) e dona Anja (Conceição Camarotti), a quem não nega seu corpo, satisfazendo-as na água de um tanque que é o centro dos prazeres eróticos de seu pequeno mundo.

Neste espaço comandado pela transgressão, o casal que Zizo mais admira é formado por Pazinho (Matheus Nachtergaele) e Vanessa (Tânia Granussi), um travesti. Os dois vivem uma relação conturbada, entre traições e ciúmes, se largam, voltam, se agridem, se completam de um jeito alucinado e imperfeito que cai sob medida para a visão poética de Zizo – embora nessa aliança amorosa haja também muita dor.

O próprio Zizo vai beber sua taça de fel ao se apaixonar pela jovem Eneida (Nanda Costa), uma colegial que não se enquadra muito no seu ambiente, mas ainda assim faz o poeta perder a cabeça, especialmente por não corresponder à sua paixão. Eneida está longe de ser pudica, mas o poeta não a atrai fisicamente e isto se torna uma razão para seu desespero.

Nesse universo de personagens marginais, sempre à procura da festa e da liberdade, Zizo lidera uma “anti-manifestação da Independência”, conduzindo seus amigos ao centro da cidade, num sete de setembro. Nessa sequência – que envolve nudez e um confronto em parte real com a polícia -, o filme evoca uma conexão com o passado, com o Cinema Novo, com um cinema brasileiro mais visceral e arriscado.

É o filme mais bonito de Assis, de uma beleza crua e rude, mas que ele encontra de verdade, tirando o belo da pedra, de onde não se procura, nem se espera, mas está lá. É um filme que não é para todos – há cenas que escandalizarão, quem sabe, uns tantos -, mas é o tipo de história que precisa ter o direito de também existir.

Febre do Rato foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2011 – com oito prêmios, inclusive melhor ficção, ator e atriz – e foi exibido também no festival holandês de Roterdã (de cujo fundo, Hubert Bals, saiu parte do financiamento do filme).

 

Febre do Rato”, mais uma brilhante ousadia do cinema pernambucano e de Claudio Assis (Por Luciano Ramos)

O cineasta recifense Cláudio Assis é um animal cinematográfico. Dois de seus trabalhos anteriores, Amarelo manga (2002) e Baixio das bestas(2007) foram premiados como melhor filme no Festival de Brasília. Sendo que esse último também foi considerado o melhor no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam. Agora ele lança “Febre do rato”, obra de realização mais trabalhosa e complicada que as anteriores. Principalmente porque se concentra no retrato de um protagonista ao mesmo próximo e distante do mundo real. Trata-se de Zizo (Irandhir Santos – “Tropa de Elite 2”), um poeta alucinado e anárquico de Recife que publica um tabloide de crítica e poesia chamado Febre do Rato – título que é também uma referência à leptospirose que assombra os habitantes dos mocambos e favelas instaladas nos mangues próximos aos rios Capibaribe, Beberibe e à cidade. Ainda que muito mais complexo, o personagem tem algo do histórico Cuíca de Santo Amaro (José Gomes) falecido em 1964, que lançava em cordel seus versos críticos e satíricos, na Salvador dos anos de 1940 e 50.

Ao dar vida a esse poeta e contestador militante, Claudio Assis e seu roteirista Hilton Lacerda tiveram o cuidado de construir o ambiente que o cerca com riqueza de pormenores: a vizinhança onde se movimenta; um grupo amigos formando uma espécie de tribo de seguidores e até a sua sustentação econômica – ou seja, a mãe amorosa e compreensiva com quem vive e que lhe paga as despesas. Por outro lado, as conexões entre os integrantes desse arremedo de família se mostram bem vivas e costuradas, numa trama que acaba atribuindo credibilidade e concretude àquela figura central, tão pouco provável. Por exemplo, com o amigo Pazinho, vivido por Matheus Nachtergaele (Cidade de Deus) ele desenvolve uma relação paternal, enquanto Eneida, a colegial interpretada por Nanda Costa representa a sua Dulcinéia: a amada inacessível que atende à sua necessidade de romantismo.

Apesar da aparente crueza e da improvisação de boa parte das cenas, a incansável verborragia poética do herói adquire solidez e coerência, com tiradas como “até a anarquia precisa de tradição”, ou “enquanto o subúrbio grita de alegria, o planeta chora de medo”. Especialmente na voz de Irandhir Santos – tão expressiva que lhe permitiu apenas com ela, e sempre em off, protagonizar Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Ainouz, 2009). Aliás, ele e Nachtergaele– no papel de um coveiro apaixonado por um travesti – provam mais uma vez que se situam na vanguarda da arte dramática abrigada pelo cinema feito por aqui.

Todas as hipérboles, ou excessos da encenação são, por sua vez, harmonicamente integrados ao visual do filme, pela fotografia em branco e preto de Walter Carvalho. Como sempre irretocável, desta vez ele supera o que ofereceu em Amarelo Manga, operando travellings memoráveis com a câmara presa ao teto do cenário, ou inserindo os personagens num desfile militar. É justamente esse arranjo entre lucidez e desvario o que dá combustível a esta fábula audiovisual em que se destaca “o grito dos desatinados” e se defende “o direito ao erro”.

A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader Az Simin)
A Separação

Justiça, verdade, família (Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge – publicado em 06/04/12, no Jornal de Londrina)

Recado urgente e inadiável aos admiradores do cinema alternativo, aos que preferem o cinema comercial ou àqueles que são pura e simplesmente amigos fiéis do cinema, enfim a todos que acreditam no poder de empatia da imagem cinematográfica: eis aqui uma obra obrigatória.

O humanismo e a clarividência que respira o cinema iraniano ao tratar de temas importantes somente podem ser comparados com a alta qualidade de seus aspectos técnico-artísticos. A Separação, uma dos mais significativos lançamentos de 2012, é prova disso. Sem renunciar a uma trama de ficção tão atraente quanto envolvente para qualquer tipo de publico, o filme que estreia hoje no circuito local consegue traçar um quadro social e antropológico criado por um diretor-autor, Asghar Farhadi, que sabe se posicionar atrás da câmera para deixar que seus personagens e suas imagens falem por si.

O cineasta torna fácil o difícil ao traçar um retrato matizado de indivíduos que se valem da verdade para sobreviver, ao mesmo tempo em que mostra um Irã que se impõe com um elementar sistema legal e a humilhante situação da mulher. Estamos diante do difícil equilíbrio entre justiça e moral, entre assuntos civis e religião, entre a verdade manifesta e a encoberta, entre os motivos que um marido e uma mulher expõem quando pedem o divórcio. Eles são Nader e Simin, casal que se respeita e se ama, mas que discorda quanto a sair ou não do país. Partir é abrir horizontes para a filha adolescente Termeh; ficar é cuidar do pai (dele) com Alzheimer.

É uma questão menor que poderia ser resolvida entre quatro paredes, mas que termina no tribunal. O juiz nega o divorcio, eles se separam assim mesmo. Simin fica na casa dos pais, enquanto Nader é forçado pelo trabalho a contratar a ultraortodoxa Razieh para cuidar do pai. A complexidade da vida e os interesses particulares vão se encarregar de construir conflitos e denúncias feitas sobre mentiras, ainda que sejam para proteger indefesos.

Um roteiro extraordinário (do próprio Farhadi) serve para, aliado à agilidade narrativa e a uma direção realista, esmiuçar uma sociedade na qual assuntos de consciência pesam muito, e honra e religião determinam o comportamento nos mínimos detalhes. Humanismo e delicadeza extrema ao debater uma realidade difícil, interpretações frescas e espontâneas carregadas de olhares cheios de vida e verdade, e um enorme respeito quanto a não julgar ninguém e manter em suspense a ultima palavra: estes são apenas alguns predicados deste filme magnífico.

Menos conhecido no Ocidente do que seus colegas Abbas Kiarostami e Jafar Panahi (atualmente cumprindo prisão domiciliar de cinco anos em Teerã, considerado inimigo do regime dos aiatolás), Ashgar Farhadi construiu em A Separação um painel sobre os complexos costumes sociais iranianos, sobre o embate entre mulher e justiça, entre valores modernos e tradicionais, entre riqueza e pobreza, entre famílias educadas à moda ocidental e aquelas sob o rigor islâmico.

A Separação não é um filme moralista no sentido de sinalizar ao espectador para que respeite os princípios morais. Mas é moralista quando questiona a ética e suas contradições contemporâneas. E esta muito provavelmente é sua maior virtude.

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A Separação (Por João Nunes – publicado em 10/02/12, no Correio Popular, Campinas)

Contrariando a regra de começar uma narrativa de modo ameno e crescer aos poucos até chegar ao clímax, A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011), de Asghar Farhadi, deixa o espectador imobilizado logo na primeira cena, como se fosse o ápice da história. Exaltados, o marido Nader (Peyman Moaadi) e a mulher Simin (Leila Hatami) discutem diante de um juiz o pedido de divórcio dela e a permissão para sair do país e levar a filha de onze anos, a sensível Termeh (Sarina Farhadi).

E são tão bons os argumentos de ambos os lados que se cria um impasse praticamente insolúvel. Ele não aceita deixar a menina partir e o juiz os dispensa porque entende que há questões mais relevantes a discutir. Por questões relevantes, leia-se um argumento pouco palatável ao juiz. Simin afirma que deseja sair do país “diante das atuais circunstâncias”. Quais? Quer saber o intrigado juiz.

Óbvio. Um país que impõe obstáculos para alguém entrar e sair livremente dele está longe de ser democrático. O ponto de partida, portanto, não é exatamente uma pendenga familiar, mas uma ação política: de um lado, Simin quer deixar o país; de outro, o juiz encerra a sessão para fugir de assunto penoso.

E há, sim, um assunto familiar relevante para Nader, pois seu velho pai tem Alzheimer e ele não quer abandoná-lo – argumento justíssimo. E por que não liberar a filha? No fundo, não quer perder Simin nem Termeh. E se sente inseguro em deixar o país e, ainda por cima, abandonar o pai.

De início, como espectador, somos levados a torcer por um ou por outro. Mas a primeira questão do filme, entretanto, não é o impasse do casal, mas de como A Separação foi liberado e acabou sendo visto por três milhões de espectadores no Irã? Isto, dirá alguém, prova que na terra de Ahmadinejad respira-se liberdade. Não, se soubermos que há inúmeros jornalistas e cineastas presos e que Simin tem prazo limite para se ausentar o país.

O roteiro trabalha sobre estas questões, porém não ficará somente sobre elas, pois haverá desdobramentos igualmente complexos. Nader se envolverá em imbróglio com a empregada e os problemas familiares e de cunho político invadirão a esfera pública, pois ele acabará preso sobre acusação de agressão.

Mas a empregada que o acusa também sofre acusação. E ambos têm razão, pois, como espectadores, nós vimos o que aconteceu. Só temos duas dúvidas: não sabemos quais foram as circunstâncias e quais são os detalhes que ambos escondem.

Diante da obscuridade dos fatos e da confusão que se estabelece, verdades e mentiras se misturam e os personagens são levados de um lado para outro, em especial a pobre Termeh, que se transforma em joguete e sofre calada na sua posição de ainda criança e mulher – mesmo tendo extremo carinho do pai. Seu choro em dado momento é comovente.

A narrativa de A Separação nos deixa sem fôlego, pois as ações se acumulam, o impasse cada vez mais se aprofunda e não conseguimos vislumbrar como aquilo tudo terminará. Se o valor do filme fosse apenas o de nos deixar presos à tela, seria um mérito menor, pois inúmeros filmes, assim como livros, conseguem tal efeito.

Mas A Separação vai além da narrativa estonteante e das reviravoltas que produções de entretenimento fazem rotineiramente. Além da seriedade com que toca num tema político importante, ele se respalda em belíssimo roteiro (surpreendentemente indicado ao Oscar) que se desenvolve em perfeito suspense entregando as informações em doses homeopáticas.

E há o ótimo elenco (sem exceção) e o cuidado do diretor com a encenação do drama que de modo tão realista nos fazer mergulhar naquele universo como se fizéssemos parte dele.

E há, por fim, o grande drama que envolve os personagens. Os dois que falam parte da verdade e escondem outra lutam de modo insano contra eles próprios num jogo entre a ética e o gesto plenamente humano da auto-preservação. Os outros, no entorno do drama, se debatem entre trazer à luz o que elucide e resulte no esclarecimento dos fatos e inseguros quanto ao próprio futuro. E, humanamente, puxam a corda cada qual para o próprio lado.

Ao final, estamos esgotados juntos com os personagens e nem nos importamos com o desfecho – que passaria de mera curiosidade, pois o impasse estava instaurado desde o início e, a exemplo dos personagens das grandes tragédias, temos de nos conformar com a decisão dos deuses.

Vencedor do Urso de Ouro de filme e Urso de Prata para o elenco masculino e feminino no Festival de Berlim em 2011 e ganhador do Globo de Ouro e do Oscar, de filme estrangeiro, em 2012, o fato é que estamos diante de um dos filmes mais fascinantes dos últimos tempos.

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A Separação (Por Neusa Barbosa – publicado no Cineweb, em 17/01/12)

Em Rashomon, filme do japonês Akira Kurosawa que ganhou o Leão de Ouro em 1951, as impressões sobre um crime variavam ao sabor dos relatos de cada um dos implicados – contando-se inclusive com o fantasma da vítima. A mesma volatilidade sobre a verdade emerge, numa chave completamente diferente e atual, do drama iraniano A Separação, de Asghar Farhadi. O filme venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2011 e também acumulou as premiações de melhor ator e atriz, divididas entre suas duas duplas de protagonistas. Em 2012, venceu o Oscar de filme estrangeiro.

Sem reduzir-se a um drama de tribunal, as duas tramas do admirável roteiro, assinado pelo diretor, esbarram num sistema judicial que evidencia a existência de um Estado autoritário, teocrático e machista, num contexto em que o poder de decisão dos personagens parece a cada momento escapar-lhe das mãos.

A história começa, abrupta e sem antecedentes, numa corte, em que o casal de classe média formado pela médica Simin (Leila Hatami) e o bancário Nader (Peyman Moaadi) discute seu divórcio. Simin quer deixar o país e levar a filha única de 11 anos, Termeh (Sarina Farhadi). Nader alega que não pode abandonar o pai (Ali-Asghar Shalbazi), que sofre de Alzheimer.

Desprezando a petição de Simin, o juiz nada resolve. O casal se divorcia e Simin ruma para a casa da mãe, permanecendo num impasse, já que a filha fica com o pai. Depois, contrata-se uma empregada, Razieh (Sareh Bayat), para cuidar do sogro.

Ultra-devota, Razieh entra em conflito com suas tarefas cotidianas, que incluem trocar e banhar o patrão idoso. Outros problemas familiares afloram. Seu marido, Hodjat (Shahab Hosseini), está desempregado, ela tem que levar para o trabalho a filha pequena (Kimia Hosseini). Um dia, Nader chega mais cedo em casa e descobre o pai sozinho e amarrado na cama.

Por ter supostamente causado o aborto da empregada depois de um empurrão, Nader acaba processado. A partir deste novo round jurídico, emerge uma meticulosa discussão sobre a elaboração da verdade.

O espectador do filme acompanha, com o coração aos pulos, a oscilação das próprias emoções ao sabor do que cada um sabe e diz. O clima de pesadelo kafkiano poderia tornar-se exaustivo, porque apoiado em tantas discussões. O filme salva-se deste perigo pela montagem segura do drama, que regula a conta-gotas revelações cruciais sobre os incidentes, num desenrolar sinuoso, que certamente também procura driblar a vigilante censura no Irã.

Fechando seu foco daquilo que é essencial à natureza humana, acima das diferenças sociais, econômicas e culturais, A Separação torna-se aflitivamente universal.

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A partir de crise conjugal, “A Separação” projeta tensões do Irã (Por André Dib – publicado no Diário de Pernambuco, em 25/02/12)

Um ano após ganhar o Urso de Ouro em Berlim, o filme iraniano A separação estrou no Cinema da Fundação (Recife). Orientais o acusam de submissão à narrativa do Ocidente. Entusiastas celebram a crise do casal Nader e Simin como uma história universal. Indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira, não será surpresa se o filme dirigido por Asgar Farhadi (À procura de Elly) seja o contemplado pela Academia.

O mérito de A separação está nas sutilezas e em representar as tensões de um país através da intimidade de duas famílias. Ambientado em Teerã, A separação trata de um impasse entre Simin (Leila Hatami), que quer sair do país para proporcionar mais oportunidades à filha Temeh (Sarina Farhadi). Seu marido, Nader (Peyman Moadi), concorda, mas não pode acompanhá-la, pois seu pai está doente. Em busca do divórcio, eles procuram o tribunal.

A tomada de posição é requisitada já antes dos créditos, em cena em que o casal discute o divórcio. De frente para o casal, a câmera está fixada (e nos coloca) no lugar do juiz. Sem a esposa em casa, Nader contrata Razieh (Sareh Bayat) para cuidar do pai, que sofre do mal de Alzheimer. Grávida, Razieh só anda de burca e liga para o disque-Alcorão quando fica em dúvida sobre a conduta, como, por exemplo, se é permitido trocar as calças molhadas do pai de Nader. Um acidente coloca a sua família em conflito com a de Nader e expõe as peculiaridades de uma nação islâmica.
O Globo de Ouro obtido mês passado e um possível Oscar para A separação podem parecer convenientes para os interesses ocidentais na assim chamada primavera árabe. Se o filme tem méritos artísticos e afinidades o suficiente com o cinema hollywoodiano, razões geopolíticas não faltam para que ele receba a estatueta. No entanto, apesar de conter criticas ao aparentemente inabalável regime iraniano, o filme foi rodado sob sua autorização. Uma contradição e tanto, para um país supostamente radical.

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Do que é feito uma família? (Por Luiz Joaquim – publicado na Folha de Pernambuco, em 24/02/12)

Vez por outra surge nos cinemas uma obra pequena, do ponto de vista da produção, mas gigante pela perspectiva humana e cinematográfica. Torna-se, então, uma unanimidade mundial e começa a chamar atenção por onde quer que passe. A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011), de Asghar Farhardi é o mais novo destes exemplares e acaba de entrar em cartaz no Recife, pelo Cinema da Fundação Joaquim Nabuco.

A Separação começou sua jornada de sucesso há quase um ano, quando foi lançado em fevereiro de 2011 no Festival de Berlim e de lá saiu com quatros prêmios, entre eles o de melhor filme, ator (Shahab Hosseini e Peyman Maadi) e atriz (Sareh Bayart e Leila Hatami). Há cinco semanas o filme amealhou outro grande prêmio mundial, o de melhor filme estrangeiro no 69º Globo de Ouro. Depois de amanhã, na cerimônia do 84º Oscar, pode receber a maior condecoração da indústria do cinema. E são duas as suas chances: por filme estrangeiro e por roteiro original, pelo qual concorre com Meia-Noite em Paris, O Artista, Margin Call e Missão Madrinha de Casamento.

Mas o que faz de A Separação um fenômeno, cujo resultado oferece 100% de garantia de envolvimento àqueles que o assistem? Se tentarmos traduzir numa equação matemática ou cinematograficamente lógica, a resposta será insatisfatória. Pior, será injusta. Isso porque A Separação passeia, com precisão cirúrgica, por questões caras a humanidade. O que está em jogo aqui – colocada numa história “simples” (atenção para as aspas) – são, em primeira instância, a família, a honra e a fé.

Há ainda um outro condimento que torna A Separação em algo tão sedutor: a identificação. A tal história “simples” é passível de acontecer a qualquer pessoa, inclusive você leitor. Conseguir promover esse tipo de empatia com o espectador, na qual ele se percebe na pele de um ou outro personagem, é um das tarefas mais difíceis no cinema. Ela acontece, geralmente, por uma comunhão, afinadíssima, entre boa direção, atuação, roteiro e mise en scène. Tal combinação sobra em A Separação.

Como foi dito, a primazia do roteiro, assim como um jogo de xadrez, está em nos colocar numa circunstância em que não há como apontar culpados ou inocentes. Todos erram e todos, naturalmente, tentam se defender pelo irrefutável fato de que eles são seres humanos. O que chama a atenção aqui é a presença, quase palpável no ar, dos personagens preocupados em manter-se em paz com a honra e a fé.

Não a “honra” como o cinema ocidental costuma vender (algo como um prêmio para o vencedor), mas sim como a manutenção da dignidade, para poder continuar vivendo em harmonia consigo próprio e com a sociedade. E não a “fé” como algo cego, mas sim como uma sabedoria acima de nossa capacidade de discernimento, cujo nenhum homem temente ousaria desafiar.

É por tomar estes dois nortes como definidores absolutos da razão de o homem ser definido e existir como “um homem” que A Separação concentra toda sua problemática. A solução que ele (o filme) quer encontrar é uma só, o bem estar na família. Entidade sugerida aqui como a mais importante pela qual vale a pena seguir em frente e lutando.

Ao contrário do que se imagina, A Separação não se reduz ao conflito pelo divórcio do casal de classe média Nader (Maadi) e Simin (Hatami), pais da menina adolescente Termeh (Sarina Farhardi, filha do diretor). A contextualização do desejo de Simin querer ir morar no exterior e levar a filha, ao contrário do desejo do marido Nader, que quer ficar no Irã e continuar cuidando do pai com Alzheimer, é posta logo nos primeiros cinco minutos do filme.

O conflito é apenas o ponto de partida para desenhar todo um cenário de complicadores que irá refletir os efeitos da desarmonia de uma família. Enquanto Simin passa a morar com os pais enquanto o divórcio não é definido, Nader contrata Razieh (Bayat) para fazer serviços domésticos e cuidar de seu pai doente. Razieh aceita o serviço, mas sob sigilo, sem contar ao marido Hodjat (Hosseini), pois ela sabe que ele não permitiria.

Acontece que um acidente vai quebrar o curso natural da decisões e salientar as fragilidades dos segredos de cada um, escancarando o desespero de todos em chegar à verdade. Seja em função da honra, da fé, ou dos dois; sempre de olho na família.

Vale reforçar as inúmeras situações criadas pelo diretor e roteirista Farhardi. Todas defendidas magistralmente pelo elenco, em conflitos que o espectador não consegue visualizar uma solução amigável. É uma tensão, sempre no limite, que deve manter o público em constante estado de alerta. E a condução de todas estas situações se amarram numa estrutura pela qual é difícil imaginá-la contada de outra maneira. É esta precisão e sensibilidade que torna A Separação num dos mais fortes filmes de 2012 e, desde já, um novo ponto de referência cinematográfico para o tema “família”.

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Momento propício (Por Edu Fernandes – publicado em Cine Dude, em 19/01/12)

A razão pela qual o filme iraniano A Separação (Jodaeiye Nader az Simin) estar fazendo uma bela carreira internacional começa pelas qualidades de seu roteiro. O enredo é aparentemente simples, mas dá conta de explicitar vários problemas da sociedade iraniana.

Apesar de ainda amar seu marido, Simin (Leila Hatami) pede o divórcio. Ela quer morar fora do país, mas Nader (Peyman Moadi) precisa ficar para cuidar do pai doente. Nessa situação, Simin sente-se presa, já que o marido não permite que ela leve a filha deles para viver na Europa.

A partir daí a situação se complica gradativamente para todos os personagens. Novos problemas surgem e o espectador atento percebe que o panorama sócio-político-religioso do Irã é o principal culpado pelos infortúnios apresentados no filme.

Para atingir esse objetivo, A Separação faz algo que é elogiado em muitas produções europeias: não há uma figura que personifique claramente o vilão. Todos ali são vítimas das circunstâncias.

Quando se tem uma filme que critica a sociedade iraniana exatamente no momento em que a comunidade internacional se posiciona contra os ditames do governo de Mahmoud Ahmadinejad, cria-se um contexto premiado para A Separação. A tendência de ir contra o regime iraniano não está apenas na questão nuclear e militar. No mundo das artes, vive-se um momento de censura e opressão, com alguns cineastas na cadeia e proibidos de realizar novas obras.

A forma mais elegante de se posicionar contra essas posturas que beiram o totalitarismo é pelas artes, conquistando prêmios como o Globo de Ouro para melhor filme em língua estrangeira.

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A Separação (Por Antonio Carlos Egyto – publicado em Cinema com Recheio, em 17/01/12)

A Separação, como indica o título brasileiro, é um filme iraniano que trata da separação de um casal: Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) e das consequências que isso traz para a vida, não só dos dois, da filha de 11 anos e do pai dele, idoso, com mal de Alzheimer, como também para a empregada diarista, que Nader contrata, seu marido e a filha pequena. As duas famílias acabarão num julgamento, que envolverá aspectos culturais, morais e religiosos. E incluirá ainda outras pessoas que se relacionaram, de algum modo, com as duas famílias. Um belo imbróglio, cheio de novidades e reviravoltas, de que um roteiro muito bem construído dá conta com talento.

A primeira cena já surpreende: diante de um juiz, o casal tenta explicar por que quer se divorciar. Ela quer ir ao exterior, ele, não. Alega que tem de cuidar do pai e não entende a importância dessa viagem, de apenas uma ou duas semanas. Nem nós, nem o juiz, que alega motivo fútil para o pedido.

Considerando-se, porém, que o Irã atual é um regime fechado e que é difícil obter autorização para sair do país, mesmo por um prazo máximo limitado a duas semanas, cujo efeito tem prazo de validade, entende-se a ansiedade de Simin. Em quarenta dias, suas chances de viajar se evaporam. Mas será que ela quer, mesmo, fazer uma curta viagem de turismo, visita a familiares ou algo do gênero (não é explicado isso na cena) ou ela pretende evadir-se, abandonar o país e, talvez, a própria família?

Isso é só o começo da trama, que tratará de inúmeras questões-problema do país e do regime, como quem não quer nada. Aparentemente, está apenas contando um melodrama familiar, sem conotações políticas. Nem poderia ser diferente, não passaria na censura e, muito menos, seria o indicado oficial do Irã ao Oscar de filme estrangeiro, como é o caso. O roteiro, porém, é brilhante, ao contrário dos censores oficiais que, pelo jeito, ficaram na superfície do assunto.

Um homem que se separa, trabalha, e tem um pai incapacitado aos seus cuidados, precisa de uma mulher para ajudá-lo, além de sua filha, pré-adolescente. Mas uma mulher casada, com filha, pode trabalhar na casa de um homem descasado, sem comprometer sua honra? E pode limpar um velho incapacitado sem cometer pecado?

Uma mulher pode deixar seu marido e filha e viver sua vida sem a reprovação social e religiosa? Um homem pode permitir que sua mulher grávida trabalhe na casa de outro homem sem o seu consentimento, mesmo necessitando muito do dinheiro que ela pode obter com esse trabalho, sem reagir? Terá razão se agredir o patrão que, supostamente, empurrou sua mulher para que saísse da casa? Pode-se tocar numa mulher grávida? Mas pode-se saber se ela está grávida ou não, se o corpo está todo encoberto e, com isso, uma gravidez pode ser disfarçada por um bom tempo?

Questões triviais? Absolutamente. Questões que mostram a relatividade dos valores morais, o sofrimento que uma leitura inflexível de princípios produz e a fragilidade das noções de mentira e de verdade.

Diante do Corão, só se pode jurar em nome da verdade. Mas qual é a verdade? Algo que se sabe pode ser esquecido num momento de raiva e descontrole. Como assim? A pessoa sabia ou não?

O que acontece é que as decisões morais são tomadas em circunstâncias concretas, que envolvem interesses, pessoas e situações sobre as quais não se tem muito controle. E a dúvida pode pairar soberana. Em alguns casos, nunca se poderá saber o que é verdadeiro ou não.

Essas reflexões são extremamente importantes e válidas, enquanto considerações éticas, universalmente. Aplicadas a um regime político como o do Irã, revelam que, sob o tacão autoritário e religioso, vive uma sociedade que pulsa sua contemporaneidade. Sufocada, mas pronta para vir à tona. Quem sabe, veremos em breve uma primavera persa?

Asghar Farhadi, que já dirigiu o muito competente Procurando Elly, em 2009, mostra que está à altura dos grandes cineastas iranianos, que se mudaram do país ou estão impedidos de trabalhar. Consegue criar uma obra instigante e profunda que, no entanto, exige uma leitura subliminar. Não se revela à primeira vista. Mexe no vespeiro, sem despertar suspeitas. Excelente. Faz lembrar a arte brasileira, especialmente a música, durante a nossa ditadura militar. Que criatividade impressionante era preciso ter para driblar a censura e o regime e, ademais, fustigá-lo. É o que faz Asghar Farhadi, nos dias de hoje no Irã, conquistando merecidos prêmios internacionais, além da indicação ao Oscar.

A Separação levou três Ursos no Festival de Berlim de 2011: dois de prata, para melhores ator e atriz, e o de ouro, de melhor filme, além do prêmio do júri ecumênico. Recebeu, ainda, o prêmio de melhor roteiro do American Film Institute (AFI), junto aos críticos de Los Angeles e Boston. Venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, além de outros 17 prêmios em festivais de cinema pelo mundo. Merece tudo isso, sem sombra de dúvida.

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A Separação expressa um país desorientado (Por Pedro Martins Freire – publicado no Diário do Nordeste)

Um compêndio de transgressões. Assim se pode definir A Separação, o filme do iraniano Asghar Farhadi, a sensação do cinema oriental na atualidade. Expressa assim, a afirmação pode insinuar que Farhadi esteja execrando o seu país, expondo-o de forma pejorativa. Não é o caso.

A Separação não se trata de um filme que detrata a grande nação criada a partir de Ciro, o Grande, que unificou diversos pequenos países e deu-lhe o nome de Pérsia. Na recente história do Irã de 1935, após diversas interferências do governo dos EUA em função do petróleo, é, hoje, controlada por um regime teocrático de aiatolás em uma república fundamentalista islâmica, sendo vista pelo ocidente como um perigo para a paz mundial em razão de seu polêmico programa nuclear.

Internamente, o Irã vive um grande conflito. Intelectuais são perseguidos, artistas burlam as leis para dar continuidade ao processo de criação, a literatura, a música e a internet são censuradas, além da repressão rígida às manifestações populares.

Em 2011, o cineasta Mohsen Makhmalbat foi condenado a não mais exercer a sua profissão e, em seguida, a produtora de cinema do país, a Casa de Cinema, foi fechada e está sendo reformulada pelo governo.

Em A Separação, Farhadi expõe a complexidade de seu país e que ele tem problemas, revela um povo desorientado, que a religião controla o Estado, sendo o medo algo interno em cada iraniano. Mas, terá o Irã, o país, a ex-Pérsia, culpa de ter um governo como o que tem? É claro que não.

Farhadi deve ter visto Morango e Chocolate (Cuba, 1994), de Tomas Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabio, os quais, através da história da amizade entre dois homens, um deles homossexual, expõem o sistema repressor que controla o país há 53 anos, mas, ao mesmo tempo, fazem uma declaração de amor à nação cubana.

Asghar Farhadi repete, aqui, a fórmula utilizada por Alea e Tabio, servindo-se de imagens e diálogos sob metáfora para expor uma realidade e, ao mesmo tempo, isentar a sua nação e o seu povo. As ditaduras falam por si.

É por isso que se torna impossível uma análise de A Separação se está não for de cunho político. Trata-se de um drama político disfarçado de drama familiar e social sobre um casal em processo de divórcio. O divórcio é utilizado como uma metáfora para expor um país em estado de desorientação – e do qual não tem culpa. As ditaduras falam por si.

As transgressões

Daí, A Separação ser um compêndio de transgressões. É fácil observá-las durante o seu desenvolvimento, sejam em imagens, sejam em diálogos. Ao ver o filme, observe algumas delas:

– Na cena inicial, quando Nader (Peyman Maadi) e Simin (Leila Hatami) divergem frente ao juiz, uma mecha do cabelo dela escapa do véu e vê-se que está pintado de roxo;

– Na mesma sequência, ela diz que quer levar a filha, Termeh (Sarina Garhadi), de 11 anos, para o exterior, onde terá maiores oportunidades, sinalizando que isso o país não lhe oferece ou oferecerá;

– O motivo do pedido de divórcio é que o marido não quer acompanhá-la. O motivo da recusa dele, o pai (Ali-Asghar Shahbazi) sofrer do mal de Alzheimer, é a metáfora de um país doente e desorientado, em processo de perda da memória. Nader expressa os impossibilitados de deixar o país;

– A realidade do país e questionada quando Simin afirma, perante o juiz, que “não quero que minha filha cresça nessa situação e tenho direitos”. Simin é posta como a mulher consciente e à frente de seu tempo, efetivando as mudanças e que se preocupa com o futuro das novas gerações;

– As novas gerações são os filhos ainda não adolescentes. É a geração que “ainda não entende” o que está se passando, como ela coloca como defesa de levar a filha consigo;

– Ainda na sequência, a pergunta do juiz para Simin, “você quer dizer que todas as crianças deste país não têm futuro?”, serve para reforçar o caráter metafórico dos diálogos, como o citado acima. O juiz, por sua vez, expressa a figura fria das leis vigentes do país;

– A roupa das mulheres não escapa. Em outra cena forte, Nader diz não saber se Razieh (Saret Bayat), a mulher contratada para cuidar do pai dele, estava grávida, por causa da roupa feminina. “Com esse traje como é que se pode ver?”, pergunta ele;

– Ainda com a personagem Razieh (Sareh Bayat), merece extrema atenção o momento em que ela terá de banhar o pai de Nader, preocupada, liga para alguém (certamente algum órgão do Estado) e pergunta se é “pecado” tirar as vestes de outro homem – mesmo inválido. O ato, consumado, liga–se à religião, pois é de desobediência ao Alcorão;

– A religião ainda se faz presente quando Razieh, negando ter se apropriado do dinheiro da casa de Nader, jura por Imam Hussain, terceiro filho do Grande Profeta do Corão e responsável pelo restabelecimento da religião e das leis islâmicas. A religião como opressão pela verdade;

– Em outro momento, Simin está na varanda enquanto Nader entra na casa. Ela está quase de costas para a sala e em dado momento sua mão faz um movimento na pia – ela está apagando um cigarro;

– Mulher já pode dirigir no Irã? Sim. E Farhadi demora-se em mostrar Nader, senão me engano por duas vezes, a personagem dirigindo com competência. Para reforçar a transgressão, lembremos que, em setembro do ano passado, a saudita Shaima Ghassanyia mulher foi condenada a 10 chibatadas como punição;

– Há, ainda, um diálogo sobre a divisão de classes e uma exposição da violência machista, expressada pelo marido de Razieh, Hodjat (Shabah Hosseini).

Essas foram algumas das transgressões que observei no filme. Claro, pode haver outras.

Farhadi não apresenta diretamente a questão da violência doméstica, mas na sequência antecede ao desfecho em aberto, a discussão entre Razieh e o marido, ela grita desesperada “não me bata”.

A Separação engloba, em uma história tão complexa quanto o Irã, a busca aos ideais humanistas de direito e liberdade. Expressa, ainda, as dificuldades da razão frente às obrigações criadas pelo próprio homem, o encontro das aspirações, desejos e ideais frente às velhas tradições e, com invulgar ousadia, as religiões utilizadas como instrumento de controle e poder.

Expondo a complexidade de uma sociedade desorientada e na incerteza de seu futuro, A Separação merece toda essa premiação e elogios com os quais vem sendo recepcionado em todo o mundo. Um filme para se ver com atenção redobrada. Há muito a descobrir em uma história complexa de um país no qual os livros são “guardados” no armário.


O DUPLO

O Duplo

O Duplo no Festival de Curtas 2012 (PorAndré Dib)

O evento promovido pela Associação Kinoforum é o maior festival de curtas na América Latina e durante oito dias se tornou um grande ponto de encontro. Entre os convidados estava Charles Tesson, diretor da Semana da Crítica de Cannes, que trouxe para São Paulo uma amostra do evento deste ano, entre os filmes, o paulista O Duplo, de Juliana Rojas.

Ano passado, Rojas dirigiu com Marco Dutra o longa Trabalhar Cansa, instigante incursão nas amarguras da classe média utilizando como interlocutor o cinema de suspense e terror. Desdobramentos sobrenaturais destoam dos filmes brasileiros que abordam questões sociais, normalmente ancoradas no realismo.
Em O Duplo Juliana vai além e insere cenas de violência explícita e carnal. No curta, uma professora do ensino fundamental fica perturbada ao encontrar seu doppelgänger (em alemão, duplo maldito) na escola onde trabalha. Mais do que o resultado sangrento, interessa o exame do comportamento humano a tensão construída entre o suspense e rompantes de medo.

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O Duplo no Festival de Cannes 2012 (Por Neusa Barbosa – publicado no Cineweb)

Na seção paralela Semana da Crítica, o curta-metragem brasileiro O Duplo, da diretora paulista Juliana Rojas (Trabalhar Cansa) recebeu uma menção especial no Prêmio Descoberta Nikon, concedido por um júri presidido pelo cineasta português João Pedro Rodrigues e integrado também pelo crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho. A diretora já fora premiada nesta seção, em 2007, com o curta Um Ramo, codirigido por Marco Dutra.

O Duplo é baseado no mito nórdico do Doppelgänger, um ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica a uma pessoa que ele escolhe ou que passa a acompanhar, assumindo o negativo da pessoa para tentar exercer sobre a mesma uma influência nefasta.

Aliando o sobrenatural ao cotidiano banal, O Duplo investiga estados internos das personagens. Silvia (Sabrina Greve) é uma jovem professora do ensino fundamental. Certo dia, sua aula é interrompida quando um dos alunos vê o duplo da professora andando no outro lado da rua. Silvia tenta ignorar a aparição, mas este evento perturbador passa a impregnar seu cotidiano e alterar sua personalidade.
O curta tem fotografia de Flora Dias e o desenho de som de Daniel Turini e Fernando Henna (premiados no Festival de Paulínia 2011 por seu trabalho no longa-metragem Trabalhar Cansa).

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O Duplo – a afirmação de Juliana Rojas. (Por Cid Nader – publicado no Site Cinequanon)

Aceitado definitivamente o fato de que Juliana Rojas optou por realizar cinema que transita sobre o fantástico, o amedrontador – num país que tem o mestre Mojica e que mesmo assim abdica da possibilidade de apostar mais no modelo – fica evidente demais o quanto sua trajetória vem ganhando em diversas camadas de densidades. Imageticamente suas composições de quadros têm ganhado mais nuances e clarezas nas opções que vão dos enquadramentos aos cortes, tanto quanto se nota cada vez menos “pudor” estético no momento de relatar ao visual o que tentava muito mais por “insinuações”. O ritmo, o andamento – e isso já havia se dado num salto inacreditável no seu primeiro longa (juntamente com o parceiro Marco Dutra), o Trabalhar Cansa -, que sempre foram os maiores responsáveis para que os climas desejados se estabelecessem, recebem cada vez mais atenção e cuidado, com a certeza de que o “despudor imagético” mais aflorado é uma bem-vinda e valiosa “muleta” (no melhor dos sentidos) para ajudar na caminhada das histórias.

Aceitado definitivamente que Juliana quer transitar por esse modelo de cinema, nota-se que o amadurecimento, a bagagem, lhe permitem a cada novo trabalho o afastamento de modelos externos que serviam como únicas/maiores sensações de segurança no que iniciava, fazendo notar que já começa a imprimir marca mais autêntica e sua, mais única e, melhor, de ótima qualidade. Há mais erudição abastecendo suas ideias, tanto quanto mais preocupações com situações corriqueiras ladeando os estranhamentos.

Buscar um ser da mitologia do medo como é o Doppelgänger, para além de evidenciar preocupação para a criação de base mais complexa para o que irá narrar, eleva O Duplo à categoria rara de curtas que podem se notabilizar pelo vasculhar dos interiores mais entranhados do inconsciente, para extrair medos que são tão raros quanto as poucas águas profundas de alguns desertos, sem deixar de cutucar os pavores que resultam do que se vê a olhos nus, inocentes, menos exigidos.

A mistura de elementos chavões à erudição optada – crianças (que sempre criam boa liga em filmes de medo), mulheres que interagem cada uma com variações típicas das que são exploradas quando se quer criar uma mitificação do universo feminino, vazios físicos ambientais (com recantos e sombras propícios para que seres não daqui se insinuem), sexo com pegada mais arriscada do que é comum… -, boas atuações, edição sem riscos (e sem comodismos, já que sustentada pelas costuras justas após cortes secos), e a crescente sensação de que algo poderá ocorrer repentinamente para matar qualquer um de susto fatal (mesmo que essa “catarse” não venha a ocorrer, ou sim…), revelam uma diretora em pleno estado de certezas, no qual domina o que quer será o visto quando projetado.

P.S.: interessante é notar o quanto esse curta de Juliana parece melhor a cada revisão. Muito mais do que o filme crescer é notar que há nele diversas complexidades, de construção, encenação, desenho de criação, de preparação e concretização, que são evidente mérito de alguém que atingiu patamar de maturidade raro – apesar de ainda ser tão jovem. Para mais do que se fixar como criadora em modelo raramente executado no país (e muito menos, “bem executado”), nota-se alguém que aproveitou a proficuidade para abastecer-se dos domínios e técnicas.

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