Duas vezes melhor filme e uma menção honrosa

Koza, de Ivan Ostrochovský

Koza, de Ivan Ostrochovský

João Nunes*

No ano passado, presidi o júri do Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) do 3º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. E fui presidente do mesmo júri na quarta edição do evento que aconteceu na capital paranaense entre os dias 10 e 18 de junho. Com uma ou duas ressalvas, acredito que a curadoria elegeu dez filmes de qualidade para a mostra competitiva e compôs uma seleção melhor que a de 2014, entre os quais, neste texto, destacarei dois: Koza (Ivan Ostrochovský), que ganhou o prêmio do júri oficial e do júri da Abraccine, e A Misteriosa Morte de Pérola (Guto Parente e Ticiana Augusto Lima), ganhador de menção honrosa do júri oficial.

Koza

A dupla premiação de Koza demonstra a força desta modesta coprodução entre Eslováquia e República Checa, híbrido de ficção e documentário – tendência que se observa em todo o mundo cinematográfico atual.

Mas há que se valorizar o esforço do diretor em ser minimamente original, pois ele toma um homem que existe de verdade, Peter Baláž, ex-pugilista eslovaco (hoje com 41 anos), que competiu nos Jogos Olímpicos de 1996 em Atlanta (EUA), e o transforma e personagem ficcional.

Na República da Eslováquia, provavelmente todos o conhecem – e até pelo apelido Koza que empresta o título ao longa. Porém, fora do país (no Brasil, por exemplo), o nome dele não diz nada; porém, a falta desta informação não afeta a nossa compreensão do filme. Para nós, Koza seria basicamente uma história ficcional saída da cabeça do diretor, que o roteirizou ao lado do também eslovaco Marek Leščák.

E, na ficção temos a seguinte plot: um ex-boxeador volta a lutar para conseguir dinheiro que permita à mulher fazer aborto. Para isto, ao lado de um empresário que agencia as lutas, ele inicia uma turnê pelo país. Com este fio narrativo, Ostrochovský constrói um belo filme.

Curto (75 minutos), enxuto, repleto de pausas que valorizam a narrativa porque são parte dela, poucos (mas precisos e cortantes) diálogos, e situações críveis: nada que não caiba numa ficção, nada que contrarie a realidade. E embarcamos neste road movie, uma coleção de pequenos insucessos do protagonista. Ele só perde porque está decadente e não tem capacidade física de enfrentar atletas mais jovens.

Há momentos preciosos de penúria (dividir a mesma cama de um hotel barato com o empresário) e singeleza (roubar o pirulito do empresário a fim de experimentar um pouco de doçura a uma vida tão amarga) que dão o tom à história de um perdedor. No entanto, ele desperta empatia por causa da predisposição obsessiva em alcançar o objetivo de ganhar o dinheiro de que necessita.

Para narrar esta história comum, mas cativante, o diretor evita planos mirabolantes, ou experimentalismos de qualquer natureza ou algum hermetismo que exija esforço do espectador. Ele vai direto ao ponto naquilo que se propõe. A sofisticação reside no modo como narra: usa o poder do cinema para dizer o que pretende sem necessitar de muitas palavras, ou seja, a prioridade narrativa se concentra nas imagens.

Pois vem de uma sequência de imagens sem palavras e na qual ouvimos apenas o som ambiente o momento mais marcante e, não por acaso, o desfecho. Não vou descrevê-la porque teria de revelar um fato decisivo. Mas basta dizer que, enquanto Koza luta fora do quadro, vemos o empresário refugiado no vestiário ouvindo o alarido da torcida – que tem peso fundamental na compreensão do que será o final. Difícil encontrar grandeza naquilo que aparenta ser ordinário.  Pois Ostrochovský consegue construir um plano simples, mas com alcance narrativo comovente. E extraordinário.

A Misteriosa Morte de Pérola, de Guto Parente e

A Misteriosa Morte de Pérola, de Guto Parente e Ticiana Augusto

A Misteriosa Morte de Pérola (Guto Parente, Brasil)

Confesso meu ceticismo quando, há uns dois ou três anos, Guto Parente me contou que iria para a França estudar e aproveitaria para realizar um filme, ao lado da mulher e parceira Ticiana Augusto Lima. Não porque duvidasse da competência dele, mas por pensar nas dificuldades em concretizar um projeto circunscrito apenas a duas pessoas. O resultado surpreendente se vê em A Misteriosa Morte de Pérola, no qual Guto acumula seis papéis: diretor, roteirista, ator, montador, diretor de fotografia e responsável pelo som. Ticiana se encarrega de outras tantas tarefas.

A surpresa começa com o fato de estarmos diante de um suspense, gênero do qual o Brasil não tem tradição. Guto e Ticiana desprezam a falta de tradição e constroem um suspense digno porque não há tosquices (sabidamente propositais, muitas vezes) nem se pretende meramente copiar os similares americanos nem abusar dos clichês ou do humor. Pelo contrário, a dupla encara a proposta com seriedade. Usa, sim, a gramática própria e se apropria de clichês e até do humor, contudo concebe um filme que faz o espectador acreditar no que vê e se envolver nele, o que implica em sustos, tensões e identificações – a solidão resultado de um exílio, por exemplo.

Começam bem pela escolha do cenário, a casa alugada na pequena cidade francesa para onde os diretores foram estudar. Eventualmente, vemos o espaço externo do lugar (sempre à noite), o que desperta sensações nada agradáveis no espectador. Entretanto, a maior parte do tempo a ambientação ocorre nos interiores da casa, por si só, catalisadores de medos e de solidão. Ticiana interpreta uma garota que mora sozinha numa cidade da França onde faz curso de arte.

A maneira como filmam permite ao espectador fazer um mergulho na intimidade de Pérola e na vivência dela ao experimentar a solidão e o medo. Quase não existem vozes – uma e outra vez a ouvimos ao telefone. No restante do tempo, as vozes vêm da TV (como na bela imagem da projeção de um filme na vidraça), ou de professores na escola – e sempre em francês. Uma trilha que não apenas combina com o gênero, mas tem papel narrativo preponderante exacerba a atmosfera que se completa com sons de portas e janelas e outros ruídos assustadores. Tal atmosfera pode ser apenas criação da cabeça da personagem, assim como a figura fantasmagórica que ela vê.

Ao permitir essa possibilidade (de que pode ser fantasia da cabeça da personagem) o filme se abre ainda mais. Sim, porque o roteiro é aberto a todo tipo de questionamento, pois não sabemos o que está acontecendo de fato e nem saberemos. Este não saber criado pelo roteiro super-dimensiona o mistério. O que Pérola vê? E de onde vêm essas visões e esses barulhos? E o que representa o personagem que se mascara e que, posteriormente se apossa da casa? São questões que intrigam e dão peso à narrativa.

Há uma violência calculada própria do gênero; porém, não repugnante. Assim como o suspense que se cria não cresce no nível do insuportável. A sutileza se torna, portanto, a arma da direção para realizar um filme contido e com climas de tensão na medida certa. Elogiável que este tenha sido o bom resultado do trabalho de duas pessoas a um custo irrisório e que eu vi, antecipadamente, com ceticismo.

* Crítico de cinema do Correio Popular de Campinas, presidente do júri do Prêmio Abraccine no 4º Olhar de Cinema e secretário-geral da Abraccine

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