Panorama 2015: um balanço

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Boi Neon, de Gabriel Mascaro

Por Cid Nader*

Acompanhar a alguma Mostra ou Festival na condição de jurado da Abraccine impele muito mais do que ao isolado exercício e ato de escrever e elaborar sobre os filmes vistos – algo que realmente poderá tocar ou alcançar leitores e autores das obras analisadas numa escala que de alguma maneira dependerá do poder de alcance de nosso reconhecimento, de nossa capacidade, mas que realmente nos permite refratados do contato ou possíveis ruídos provocados pelo que escrevemos, se assim o desejarmos – à obrigatoriedade do convívio, do gesto da escolha causando in loco a reação, do estar e perceber burburinhos que nos alcançam pré, durante e logo no momento da divulgação do resultado: coisa que é comum quando topo outros júris, mas que no da entidade parece causar algo a mais. Para alguém, como eu, que raramente busca aproximações ou interações durante os eventos, justamente pra poder me dedicar muito mais à análise dos trabalhos, já que adepto da necessidade da urgência nesses instantes – há de se responder ao apelo curioso de quem vive o calor da situação; à tentativa de “pesca” do impacto que a obra suscitou, por parte do realizador -, o fato de estar “julgando” infere proximidade e discussão com outras ideias, que normalmente são de processamento interior, e que só depois de razoavelmente maturadas – mesmo que maturação rápida – iriam “ao ar”, já em texto.

Para quem abdica até dos debates sempre na fé de que a obra deva falar por si, já sem o auxílio de quem a criou, trocar ideias em plenos processos dos eventos ocorrendo me é mais complexo. Mas topar a empreitada, por outras, com júri em que se pode notar riquezas diversas entre o pensamento acadêmico na comparação com o que seria do crítico – sim, plenamente consciente e feliz de que nem uns nem outros são hegemônicos na maneira de compreender o cinema, mas certo de que as bases de trânsito pelas obras têm elementos fundadores da mesma espécie – fez mais uma dessas experiências ganho, para além de todos meus “dramas interiores”. Foi boa a empreitada nesse sentido de aprendizado e trocas de impressões: notar um(a) mais impregnado da visceralidade na compreensão de algum trabalho, outro(a) bem mais afeito à comparação (referência), ou mais um pleno de dados e ideias construídas por acumulação, por exemplo, retirou muitas das certezas que evidenciei em cada crítica que escrevi logo após o filme visto.

Algo que se adensou na hora da escolha, quando contaminados pelo poder do Boi Neon (vencedor para a gente), logo antes de nos reunirmos para a votação definitiva. Continuo achando o filme do Gabriel Mascaro poderoso, mas noto algumas “suspeitas” que ganharam corpo no momento de escrever sobre. Continuaria com meu voto, mas porque Aspirantes não concorria mais para a gente, já que levava no mesmo instante o prêmio de nossa entidade na Mostra SP (é de se repetir que não pode haver repetição de premiação: o que valia também para o Para Minha Amada Morta, por ter sido nosso vencedor no “Festival de Brasília do Cinema Brasileiro”): o filme de estreia de Ives Rosenfeld preenchia esse campo da pulsação novidadeira que creio deva sempre instigar um crítico.

O Festival – no campo da Mostra Competitiva – contou com bons longas-metragens, sim, mas decepções, também. Bastante diverso no seu modo de escolhas, talvez mais impactante nos curtas-metragens escolhidos (algo até meio comum nesses momentos de nossa cinematografia, onde justamente os longas mais instigantes costumam brotar das mãos de quem iniciou no curta). De todo modo disponibilizo três textos críticos que fiz para o site Cinequanon: obviamente, o do vencedor, Boi Neon; o que seria do meu escolhido, caso possível, Aspirantes; e mais um, o baiano Tropykaos, que anda rendendo até hoje bastante polêmicas (texto original, com dois P.S. repletos de dúvidas).

Tropikaos, de Daniel Lisboa

Num primeiro instante, pensar num filme vindo do Rio de Janeiro pra cima (geograficamente falando) que embuta em sua trama personagem que sofre demais com o calor, tendo de viver à base de ar-condicionado porque não renderá em seu trabalho (no caso, um poeta em defasagem com a produção – ???), porque sua genética não foi feita para tal, e ainda tendo na atuação pra lá de precisa de Gabriel Pardal algo que o faça um neurótico traumatizado com tal situação atmosférica, resulta certo alento de dinamicidade do desenvolvimento das situações, em boa percepção de humor  veloz conduzindo (e segurando) trechos extensos (com rápidas estocadas), e até um “me sentir” representado, diante do que é esse cultuar pró calor, tão vigente nesse grande quinhão do país: em se pensando na Bahia, então…

Num instante precedente a Tropykaos (ao primeiro instante, esse já surgido diante da obra rolando em tela), pensar num filme (principalmente longas-metragens) baiano, remete a tempos antigos, onde a abordagens de teor político (preferencialmente contestadores na veia), social, antropológico, criou boa parcela do mitológico no que refere à nossa cinematografia (e fica interessante notar na apresentação pela equipe, antes da exibição, referencias desse trabalho ao que seria do Cinema Marginal, outro momento mitológico, que andou por boa par de tempos em paralelo com aquele cinema baiano, ambos revolucionários, mas por vezes antagônicos em alguns conceitos: enquanto o executado na Bahia era absolutamente brasileiro em todos os aspectos, o marginal era brasileiro, mas calcado em irreverência que tinha fortes raízes “anárquicas” de fora daqui: mas sem encontrar realmente nada de Marginal neste daqui). E quando se compara tal instante ao que tem resultado vindo da Bahia, com a exceção de Navarro, a perda de foco, de identidade se faz presente da pior e mais assustadora maneira possível.

E temos o filme, em si, que se faz por humor, bom, de sacadas, de nenhuma gargalhada dada ou sendo tentada arrancada à fórceps do espectador, o que já por si só conta pontos; de condução segura das lentes (e lá vamos notar Pedro Urano nos créditos finais), que desvendam interiores escuros a ponto de fazê-los angustiantes sepulcros barulhentos que são assim por parte do tempo porque é quando se consegue o refresco da temperatura, que sabem como afoguear mais ainda o clima de claridade quando nas ruas, diante da estátua de Castro Alves, com o marzão ou as ruas entupidas, na obtenção (por vezes até estanhas) de ângulos inusitados; e como obra de “evidente tom camuflado” para contestar mesmices políticas ou de comportamento e, uníssono da sociedade (e tome pessoas felizes em conjunto diante de um sol que é propagandeado como a alegria maior; e tome um poeta sem inspiração para sequer um poema, porque é de se cumprir por um edital público; e vamos a um baile “oficial” de abertura de carnaval – que deveria ser do povo -, tomado por gentes das mais diversas caracterizações do que seria o conjunto de formação da sociedade baiana; e ainda a alusão ao que é dessas novas religiões que exploram – no caso, aqui, uma mais complexa ainda em seu embuste, porque há de divinizar o sol -, aproveitando-se o diretor para cultuar figuras sim importantes ainda restantes do que era de tempos um tanto atrás, valendo-se de Bertrand Duarte e, mais particularmente, do genial Edgard Navarro ).

P.S. (alguns dias depois e muitas coisas ouvidas): quando conversei mais a fundo com a primeira pessoa da Bahia (fazia parte do júri da Abraccine), durante o 11º Panorama Internacional Coisa de Cinema, onde vi ao filme, sua reação foi de indignação diante dele, percebendo-o preconceituoso, filme de burguês que se colocava à parte das pessoas e das coisas de lá. Para mim, desde o início, desde a frase “acho que não estou preparado geneticamente para essa cidade”, dita pelo protagonista numa consulta com um médico, tudo soava como chiste, como brincadeira de um cineasta querendo ser engraçadinho e talvez se colocando como um ser que não suporta calor e a “mitológica” alegria de sua terra (até aí, justo que alguém queira caminhar fora dos padrões). No dia seguinte, num debate em Cachoeira (braço do festival, que ocorre com amparo do pessoal da Universidade do Recôncavo), a coisa pegou: os ataques dos alunos ao diretor foram duros, cobranças na chincha e acusações sem meio termo de racismo. Tentando então me colocar no lugar dos que perceberam agressão do filme (notaram que nas cenas das praias negros eram mostrados sob pensamentos excludentes, as festas, o mar, as baianas vestidas a caráter eram tratadas como atipicidades), consigo entender a indignação. Estamos num momento atrasadíssimo do país sendo alcançado, quando racismos, sexismos e afins, finalmente andam ganhando voz e espaço aos gritos dos atingidos. São instantes necessários, mas também plenos de não permitir palavras a quem oprime, num fenômeno mundial de imposição, sem chances. Pode-se, a partir daí, cair-se mo mesmo risco do que isola, quando verdades só existem de um lado do muro. Confuso, tentando entender se o clamor no tom da grita assumido, consigo imaginar-me como o que não está do lado “atingido” e evidentemente sem condições plenas de compreensão da dor, mas recuso me ver como um alienado, que nada percebeu. Confuso, imagino o filme sendo selecionado para o Panorama e Janela do Recife (dois festivais rigorosos na curadoria, e de gente absolutamente atenta às questões sociais) por algum mérito… Como cinema funciona: sem ser genial nem nada. Como questões, se incomodou tanto e em tal grau de indignação, me obrigo a ficar mais atento, e tentar uma revisão. De toda forma a crítica continua, e esse p.s, surge talvez como um intervalo para um segundo tempo.

P.S2: mais um tempo.decorrido e ouço um pouco – pergunto na realidade – de amigos que acabaram de ver ao filme no Janela do Cinema (Recife). E o tom de indignação parece vigorar mais forte. Talvez somente uma revisão para tentar perceber se Tropikaos não deixa o setor de “filme ok”, para pensá-lo como realmente merecedor de tantos questionamentos. De toda forma, atingiu um grau de discussão que por suas funções cinema/estética/técnica não alcançaria: e se isso se deu da forma que anda se dando é de se atentar mais. Vale lembrar que a Universidade do Recôncavo, onde se deram as discussões mais fortes, é campo de posicionamentos políticos bem possantes, de questionamentos raciais vigorando e sendo seu maior acento; vale lembrar que as pessoas com quem conversei e o detrataram são razoáveis e lúcidas nas suas elaborações… A uma nova chance de revê-lo, para notar, mais “contaminado”, todas as questões aventadas e elevadas ao patamar de acusações. Enquanto isso, texto original (sempre justo que permaneçam) e poréns por aqui.

22356340228_5d0d63a1a6_bAspirantes, de Ives Rosenfeld

Ives Rosenfeld é mais um dos diretores egressos do universo do curta-metragem: e também, de muitos trabalhos nas entranhas da confecção cinematográfica, quase sempre agindo nas questões do som, e não na realização. Desembarca nesse mundão da direção de longa pela primeira vez, e deixando bem nítido que alguns experimentos, algumas ousadias notadas, carregavam o frescor da liberdade dos curtas, talvez de quem se abasteceu de muitas experiências (talvez até cinéfilas) antes desse passo (e que fique sempre nítido que do curta para o longa é um passo, para uma outra direção, e não um salto: já que curtas são de riqueza toda particular e desafiadora). Num modo sucintíssimo, poder- se- ia dizer que Aspirantes é ligeiro e extremamente denso em sua contenção planejada de não desperdício de espaços.

A história básica conta de Júnior, jovem que sonha como milhões em ser jogador de futebol, arriscando tudo, evitando trabalhos que aprisionem pra valer, na crença de que um dia conseguirá. No seu entorno mais próxima a namorada Karine, que acabou de engravidar (eles resolvem que terão a criança), e um amigo que, digamos, tem mais vontade/disposição na busca de seus objetivos. É da vida: tem gente que não necessita aditivos para “progredir”, tem gente que não deveria caber nesse mundo de tanta (estranha, acachapante, incisiva) competitividade: ainda, de leve, transitam por alguns momentos a mãe (e seu namorado) de Karine… O diretor, tanto quanto no tempo diminuto do filme, conteve sua história num pequeno grupo, muito mais ainda no casal, e mais ainda na figura de Junior, o que, num primeiro estágio facilita o duro campo das encenações no cinema, enquanto, por outras, exigiu atenção redobrada aos contornos das personalidades criadas, que imprimiram força ao filme, e revelaram dois atores jovens esbanjando qualidade rara (a cena de discussão dura entre os dois próximo do final chega a causar espanto – nesse quesito atuações -; as estranhamente calmas reações do “futuro” jogador, quando a mãe de Karine e seu namorado falam de um emprego formal, com aquela noção adulta das necessidades, que vão sendo perdidas com o tempo…).

Mas, Aspirantes é muito mais do que atuações, muito mais do que personagens desenhados com esmero, muito mais do que uma história simples e precisa: é filme de quem sabe o que fazer com suas lentes, de quem sabe como editar o que obteve, de quem aplicou dinamismos (sim, o filme se vale de diversos modos de fluxos dinâmicos, não se mantendo numa mesma toada). Já logo no início, numa longa sequência de rua, com os dois amigos que sonham ser jogadores caminhando bêbados na rua se fazendo com a câmera perseguindo-os, captando respirações e suores, imprimindo em tela sensação de proximidade muito similar ao que fazem os irmãos Dardenne, para restar a esperança que esteticamente o filme se desenvolverá bem. E isso avança, com diversas sequências alongadas, nas quais o enquadramento alterna cenas onde um desfocar antecipa o próximo campo, ou quando as lentes lentamente se aproximam do alvo enquadrado (e daí à sensação constante muito particular da íris humana quando busca a aproximação gradual em momentos de não necessidade da velocidade); ou ainda ao mais belo momento técnico/estético que se dá com suave movimento em 180 graus, que no início tem montanhas como pano de fundo, para encerrar com o mar em seu lugar, sem que o centro da atenção quase se desloque em tela, de precisão e beleza… E em meio a tudo isso, a forte e impactante cena da rua, do carro que passa, do…

Num filme como esse realizado, por diretor novato no formato, que retrata de algum modo um universo jovem (quase pós-adolescente) fica sempre o desejo de que o final se faça preciso, que não haja algum escorregão que comprometa… para mim, quase ansiedade. E não que haja o equívoco final, mas há a evidente busca de algo como catarse, que no final das contas, no finalzinho mesmo, não compromete não… Filme que de vidas simples e complexas, e de respeito técnico com a arte.

Boi Neon, de Gabriel Mascaro

Filmes que permitem restar dúvidas por tempos após visto, mais do que complexo por tais dúvidas resultarem de desacertos ou indefinições, por vezes carregam isso como virtude, ao jamais deixarem claro que sua história ou atos de confecção pretendiam tentar fechar ideias, conduzir as sensações do espectador. Cinemas que provoquem deveriam ter cota garantida no mercado – e nada contra o entertainment, desde que cinema à vera -, pois é daí que se percebe grau de conhecimento do realizador, já que gritar todo mundo sabe, fazer cinema comum alguns, também, mas provocar com ferramentas tão, digamos, precisas, para restar sensações que perdurem ainda em provocação (não em raiva contra a coisa ruim), poucos.

Desde que vi ao Boi Neon, de Gabriel Mascaro, e passados muitos dias, provocação e dúvidas sobre o que restou (e restaram muitas sensações, muitas significações) são “palavras” de ordem quando repenso no filme. Com certeza absoluta há ali a provocação, que deriva do campo do mote: alçar a campo de compreensão maior uma trupe que transita por vaquejadas conduzindo animais (que serão, afinal de contas, maltratados para deleite de alguns, enquanto outros tratados como reis e rainhas pois serão leiloados para milionários), e introduzindo suas ações na trama, no que transcorre em tela, ao modo de comportamento brutal dos bichos (os seres humanos dessa trupe agem de forma que parece moldada pelo tempo ao modo naturalmente brutal dos animais, e pelo modo de tratamento duro que esses humanos dedicam aos bichos como forma de trabalho comum, com mercadoria que é de ossos, carnes, pulmões e reações), por si só, na criação dos personagens e na exigência dura das atuações para botar mais fé ainda nessas composições, estabelece quase que todos os 2/3 iniciais num ambiente estranho, porém onde há de se viver, trabalhar, sonhar, trabalhar, comer, trabalhar, comprar calcinhas ou matérias para costura, e trabalhar um tanto mais; ambiente em que suor, bosta de bois e cavalos, dureza no trato (ou melhor, rudeza, já que há um sentido de união quase familiar na trupe), são o dia-a-dia, sem choros ou reclamos, a não ser o da menina, filha da “dona da trupe”, que se permite sonhar por verbo aberto (aliás, menina de impacto, um elo entre o automático das ações dos outros e um algo de infantil/pueril/sonhador; aliás, ela que ao lado do que sonha ser costureiro, outros sonhador, a seu modo, com quem mantém maiores tempos de escape no relacionamento, maior intimidade, e campo onde surgirá uma quebra quando um outro elemento que despertará desejo estranho surge – desvia-se de alguns sonhos, entra um outro modelo, e o afeto/liga de quem mais se permite menos brutalidade transfigura); há o tesão incontido, que quando permitido ao sexo se dá ou por desenfreamento do querer, ou na forma (forte, complexa, rara e bonita) de união impensável, muito das entranhas da psique, na rara cena da fábrica de tecidos, à noite, já quase ao final da jornada…

Com certeza absoluta há ali a provocação que se faz pelos modos de construção cinematográfica: a luz que permeia boa parte das sequências noturnas (na vaquejada, nos leilões, na imagem da mulher com cabeça de cavalo e corpo tentador, na fábrica citada acima) remete ao que é do onírico, daqueles sonhos que nos marcam pela vida inteira nos conduzindo por limbo físico, incertos, mas de iluminação lusco-fusco vinda do artificial, não da oclusão solar, e é luz obtida com intenções apropriadas para significar ás lentes que a repassarão como marcas a não serem facilmente apagadas de nossas retinas; os intensos momentos de trato com os bichos, além de revelarem treinamento dos atores para lidarem com as situações da forma mais natural possível, só atingem o impacto imaginado porque lentes atentas e elaboradas são executadas para que o dinamismo e força dessas situações não desperdice uma rebraba sequer do entregue a cada quadro, gerando cenas e sequências que não permitem desgrudar os olhos da tela; ou as passagens que se dão entre a estrada e o acampamento, das arenas à cidade das calcinhas, nos “estábulos” onde se lida com os animais, os momentos que parecem tão desumanos com os bichos (por muitas vezes preenchidos com situações documentais), num ir e vir narrativo que é descontínuo e mesmo assim dialogante entre si; são pequenos exemplos dentro de um trabalho que é atento e concreto na construção com o que já surge concreto na captação, mas que não é de fluxo acomodado, e sim instigante.

Mas os dias com Boi Neon insistindo aqui nas lembranças realçam algo que sutilmente cutucava desde seu término, remoendo dúvidas sobre se muitos dos atos provocativos não seriam de outra origem, como confecção de momentos fetiche. O avançar da história entope o filme – quase num crescendo acumulativo – de sequências e instantes que parecem querer mais mesmo é satisfazer esse quinhão humano que refere ao que definimos superficialmente por fetiche (que para a psicologia cumpre funções de adequação dos cantões cerebrais, numa outra escala e alcance, mas com o mesmo poder do que é de origem fabular). E estão ali no filme de Mascaro figurinhas e situações que por vezes parecem de caderneta: a grávida que se encanta (e encanta) o Iremar (Juliano Cazaré, tratador e costureiro); o banho entre homens pelados, sob aquela luz que mais marca pelo trabalho, como ato que surge do ande e vai ao nada; o tesão desenfreável da dona da trupe (Maeve Jinkings ou, Galega) diante da novidade que surge (e daí à cena da depilação); o encantamento súbito da menina; as revistas usadas para masturbação, corte e costura; a própria criação do personagem que surge sonhando ser costureiro num ambiente tão avesso…

Uma certeza de autoralidade demonstra continuidade ações do diretor: a observação exercida sobre a burguesia que frequenta esses locais, retomando muito do que foi o início da carreira de Mascaro, quando realizou filmes que saíam da ordem natural de trânsito (“câmeras emprestadas”, depoimentos sequestrados), com ações estéticas em busca de trazer ao chão o muro que isola setores de poucos da sociedade brasileira quanto ao restante comum de sua população. No semiárido nordestino há uma produção em expansão, um polo industrial, os ricos que investem em fecundadores e parecem estar fora da lógica local, ou se sim, como os seculares exploradores. Num filme que inicia em “meio a” e encerra “em meio de”, pensado como um corte, tal atitude construtiva juntamente com os aspectos técnicos, com trazida sutil da questão dos domos do pedaço, e da brutalidade cedendo vagarosamente espaço aos afetos (e aí, nesse ceder, uma sacada, realmente, uma inquestionável razão de existir, tematicamente). Corte…

*editor do site Cinequanon

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