A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) recebe com indignação e tristeza a notícia do cancelamento da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, prevista para setembro deste ano.
Criado em 1965, e interrompido somente durante a ditadura militar, a história do Festival de Brasília se confunde com a do cinema brasileiro. Ao longo de seis décadas, tornou-se um espaço de descoberta, debate, resistência e reflexão sobre a produção audiovisual do país, acompanhando suas transformações estéticas e políticas, além de contribuir para a formação de gerações de realizadores, críticos, pesquisadores e espectadores.
O cancelamento de uma edição por mau uso de recursos públicos não pode, portanto, ser tratado como a simples suspensão de um evento no calendário cultural. O Festival de Brasília é uma instituição do cinema brasileiro e uma política pública consolidada, cuja continuidade deve ser compreendida como responsabilidade do Estado.
A situação se torna ainda mais grave porque a 59ª edição já estava em andamento. As inscrições foram abertas em março; filmes foram inscritos e selecionados; equipes trabalharam durante meses para a realização do Festival, com base em um planejamento estabelecido com a participação do próprio Governo do Distrito Federal. A interrupção neste momento atinge trabalhadores, realizadores e todo ecossitema do audiovisual, sem falar no público que há décadas reconhece o Festival como parte da vida cultural de Brasília.
A Abraccine mantém uma relação histórica com o Festival de Brasília, acompanhando suas edições, promovendo o exercício e a reflexão sobre a crítica cinematográfica, organizando o júri da crítica e participando ativamente dos debates que o Cine Brasília acolhe como um de seus espaços mais importantes. Por isso, este cancelamento também nos atinge diretamente.
Lamentamos profundamente que um festival que resistiu a tantas transformações políticas, econômicas e sociais do país seja impedido de realizar sua 59ª edição por falta de recursos públicos.
A Abraccine manifesta sua solidariedade aos profissionais envolvidos na realização do Festival, aos cineastas e equipes dos filmes inscritos e ao público. E se soma às vozes que defendem a preservação e a continuidade do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Festivais não são apenas vitrines para filmes. São espaços de memória, circulação, encontro e construção da cultura cinematográfica de um país. Preservar o Festival de Brasília é preservar uma parte fundamental da história do cinema brasileiro.


