Longas em competição: panorama inventivo

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“Mate-me, por favor”, de Anita Silveira da Rocha

Por Adalberto Meireles*

O 11º Panorama Internacional Coisa de Cinema manteve a já reconhecida tradição de exibir, na competição de longas, um recorte da produção de filmes brasileiros que iniciam carreira no circuito dos festivais. Contemplou o cinema inventivo, caracterizado por títulos e realizadores preocupados em investigar a linguagem cinematográfica, mas não se deixou dominar por experimentalismos que por vezes esbarram nas próprias limitações estéticas.

No tocante ao engenho e à arte, há que se notar a presença de Aly Muritiba e seu elogiável desprendimento ao fazer uma espécie de mea-culpa em relação ao curta “Tarântula”:  “Acho o  filme lindo, mas a direção de arte é excessivamente bonita. Olhando hoje como realizador,  acredito que a gente deveria ter pesado um pouco menos a mão para que não subjugasse outros elementos do filme”.

A afirmação foi feita logo após a sessão que exibiu o curta e outro filme de Aly, o longa “Para Minha Amada Morta”, exercício estilístico com elementos do western e do thriller convencional construído em torno da tensão que envolve um homem em busca de vingança. Um filmaço seguido de perto por “Boi Neon”, em que Gabriel Mascaro transita com especial desenvoltura entre polos extremos (de ternura e hostilidade) e dá um salto em relação ao seu primeiro longa de ficção, “Ventos de Agosto” (2014).

“Mate-me Por Favor”, de Anita Rocha da Silveira, é uma fábula sobre conflitos tenros, com história dominada por atmosfera de suspense e mistério em torno de assassinatos que acontecem perto de uma escola no Rio de Janeiro. A sensação de descoberta permeia o filme, que se equilibra durante quase duas horas ancorado na experiência de quatro garotas impulsionadas por sentimentos diversos. Primeiro longa de Anita, sinaliza para uma produção de filmes sobre adolescentes que destoam do trivial normalmente servido ao segmento.

“Aspirantes”, de Ives Rosenfeld, mergulha no universo dos jogadores de futebol que estão em busca de um lugar ao sol. Narrativa simples e concisa (cerca de 70 minutos), conduz com habilidade a trajetória pessoal de Júnior (Ariclenes Barroso), que está desempregado, mora com um tio alcoólatra e persegue o profissionalismo ao lado do colega Bento (Sergio Malheiros).

“Tropykaos”, de Daniel Lisboa, vai na contramão de uma Salvador vendida como terra da alegria e da felicidade, por meio da história de um poeta castigado pelo sol inclemente, que tenta consertar seu ar-condicionado e é cooptado pelo governo para participar da abertura do carnaval da cidade. Influências assumidas à parte – “Meteorango Kid” (1969), de André Luiz Oliveira, e “Superoutro” (1989), de Edgard Navarro -, o filme é um exercício imperfeito sobre o desconforto e funcionalmente movido pelo caos, pela transgressão e pelo sentimento de revolta contra o status quo.

Tão simples quanto o título, “Seca”, de Maria Augusta Ramos, introduz um elemento diferente que permeia a narrativa discreta e dá conta dos conflitos e dificuldades por que passam os moradores do sertão nordestino: o carro-pipa. “O Prefeito”, de Bruno Safadi, busca intimidade com o público por meio do atrito. Poeira, pedras e escavadeiras tomam literalmente a paisagem do centro do Rio de Janeiro na tentativa de fazer uma sátira concreta em torno do ideal separatista de um prefeito da ex-capital federal.

olmo-e-a-gaivota5Um gesto de preparação  – Em “Elena” (2012), a cineasta mineira Petra Costa incursionava com habilidade por um universo pessoal delicado ao investigar o mistério em torno do suicídio da irmã. Em “Olmo e a Gaivota”, não foge ao particular. Concentra-se na vida de um casal de atores do Théâtre du Soleil, a italiana Olivia Corsini e o francês Serge Nicolaï. Eles se preparam para a montagem da peça “A Gaivota”, do russo Tchecov, mas a mulher descobre que está grávida.

Dirigido em parceria com a cineasta dinamarquesa Lea Glob, o filme revela sua natureza hibrida desde a nascente. É fruto da colaboração entre a  Zentropa Enterteinments, do também dinamarquês Lars von Trier, a portuguesa O Som e a Fúria e a brasileira Busca Vida Filmes – tendo o ator e diretor norte-americano Tim Robbins como produtor executivo – e trabalha no limite entre a realidade e a ficção.

“Olmo e a Gaivota” acompanha o cotidiano do casal nos meses seguintes. Mergulha na intimidade de Olivia, que tem o período de gestação exposto como jamais se viu no cinema, e desnuda por completo a mulher. “É um tema muito pouco retratado, apesar de todo ser humano existir através da gravidez”, afirmou a diretora brasileira ao participar do Panorama Coisa de Cinema, em Salvador.

Como se entendessem a necessidade de dirigir um olhar diferenciado para o fato e sua natureza, não deixando de revelar a beleza intrínseca ao gesto recorrente e peculiar que cerca a espera de um filho, Petra e Lea vão além do óbvio.

O filme pode ser visto como  a representação da vida (não à toa, ganhou o prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio), mas aparece como a encenação do cotidiano de Olivia – e do casal – esgrimida na fronteira do cinema com o teatro.

Ao fundar essa relação, as diretoras friccionam as linhas narrativas, que se encontram quando Olívia, em sua solidão, se vê refletida em duas personagens, também atrizes, de “A Gaivota”. A  mulher foi duramente confrontada ao descobrir um problema na gravidez que a obrigou a permanecer  em repouso durante o período de gestação, impedindo-a de atuar, como esperava, até as vésperas da estreia.

Olivia é questionada também sobre a inadequação de interpretar a atriz  de Tchecov.  A impossibilidade abre uma fresta para que a mulher se revele no estado de isolamento absoluto. “Sinto que tem um alien dentro de mim”, diz, em determinado momento,  dessacralizando o discurso de encanto e ternura que domina período tão característico.

Em “Tio Vania em Nova York” (1994), o francês Louis Malle, que morreu em 95, despediu-se do cinema ao acompanhar um grupo de teatro preparando texto clássico (não por acaso) de Tchecov.  “Olmo e a Gaivota” é na verdade um gesto contínuo de preparação para a estreia. Petra e Lea fazem do tempo de gestação o ensaio. Olívia não abandona o palco jamais.

* Jornalista e crítico de cinema do jornal A Tarde

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