No banco de trás da História

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Paulo Henrique Silva*

Cada vez mais a ideia de documentário como algo que, obrigatoriamente, precisa “informar”, como uma grande reportagem, reverenciando principalmente nomes e fatos históricos, do passado e do presente, vem sendo substituída por um caminho oposto: o de “não informar”, privando o espectador de elementos caros ao jornalismo, que, em tese, tem como bandeira o preenchimento de todas as lacunas.

Vencedor dos prêmios do júri Abraccine e do júri oficial do 21º Festival É Tudo Verdade, o longa-metragem “O Futebol” chama a atenção justamente por privilegiar as reticências. Tendo como pano de fundo a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, o filme de Sergio Oksman não se ilude com o “país do futebol” ou com a alegria que parece contagiar a todos na época da competição.

Embora “O Futebol” tenha sido concebido também com um caráter celebrativo, com o futebol unindo pai e filho (o diretor) que não se viam há anos, o destino caprichosamente não obedece a essa lógica e trata de criar um enredo completamente contrário: os protagonistas não precisaram esperar o 7 a 1 para conhecerem a “tragédia” – não coletiva, punitiva e autoexplicativa.

O fracasso brasileiro entrou para a História, mas essa constatação não interessa a Oksman. O futebol, como um todo, como aquela alegoria de um povo alienado (mostrado por Joaquim Pedro de Andrade em “Garrincha, a Alegria do Povo”), ou como algo lúdico, que mexe com sentimentos ufanistas e competitivos, passa ao largo da narrativa do documentário, propositadamente.

Não vemos os campos de batalha. Os capítulos recebem como títulos os confrontos, mas nunca sabemos direito os resultados. A sequência mais exemplar disso é quando pai e filho literalmente se encontram na periferia de uma partida do Brasil, a algumas quadras do palco da contenda. Dentro do carro, eles tentam decifrar alguns gritos e reações que vêm do estádio – posição que, muitas vezes, o público se vê diante do filme.

O futebol, tão reforçado no título, surge desses ecos, dessas propagações sem identidade, evidenciando uma forma lateral de olhar para os fatos históricos. Negar o que vem de lá é corajoso, não simplesmente por ser um ato de rebeldia, um sinal de desobediência aos padrões estabelecidos – ao documentário clássico, por extensão. A oposição talvez seja em relação à necessidade de balizarmos por uma certa beleza contemplativa.

É por isso que Simão, o pai, está sempre nos lugares mais feios, como seu passadista escritório, recheado de palavras cruzadas já feitas, a garagem do prédio e um boteco. O carro é o principal cenário. A câmera não conseguir ir muito além daquele lugar contraditório, que se movimenta ao mesmo tempo em que seus personagens parecem estanques, presos à sua incomunicabilidade.

O futebol, a Copa do Mundo, se torna uma espécie de código dessa falta de palavras, dessa falta de sentimentos entre pai e filho. Ele aparenta ser tão mecânico e artificial quanto as engrenagens que os fazem se distanciar, instalando uma parede invisível que nem a proximidade gerada pelo apertado carro é capaz de vencer. É sobre essa tragédia que “O Futebol” se debruça.

Entendemos as razões daquela relação “não acontecer”, mas até mesmo elas se tornam menos importantes diante daquele corpo a corpo que nada gera, que sucumbe apesar de nossa torcida. Nesse caso, sim, o filme faz jus ao título, ao igualar a expectativa da plateia por um desenlace feliz à paixão cega dos torcedores, que nunca esperam outro resultado que não a vitória de seu time.

E o único fato emotivo que o longa se permite, cada vez mais se dirigindo a um tom minimalista, não vem necessariamente dele, mas de um elemento que ocorre à revelia dele (do diretor, que jamais poderia conceber tal desfecho ao filme e a si). Incorporado à narrativa, fecha com precisão a ideia do que pode representar essas ausências, quando levamos o nosso olhar para um outro lado.

* crítico do jornal Hoje em Dia (MG) e presidente da Abraccine

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