Saber contar uma história curta – ou como as brechas permitem chegar à luz

Roni Filgueiras*

O filósofo Paul Ricœur, segundo a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, pensou a História como uma espécie de ficção que se aproximaria “do tipo de construção de intriga presente na narrativa literária, mas construindo uma ilusão controlada, pelos traços ou fontes e pela pretensão de verdade”. A definição pode balizar o que se viu em inúmeras produções nacionais nesta 21ª edição do Festival É Tudo Verdade, que marca a maioridade civil da mostra. Salta aos olhos em vários filmes a temática sobre a História recente, o que pode ser encarado como uma tentativa de dar conta de um passado que ainda bate à porta. Uma espécie de expurgo do bode na sala, do qual precisamos dar um destino sob a ameaça de termos de viver o resto da vida com um pregador de roupas no nariz. Aqui, a História com H maiúscula serve ao cinema, à arte. E não o contrário.

O que se viu na seleção de curtas-metragens nacionais foi sobretudo um cinema de afetos e de memórias. Com destaque para os que pretendiam dar conta de uma experiência que pode ser observada sob a lupa de uma nova História Social. A que “privilegiou a experiência de classe em detrimento do enfoque da luta de classes, das práticas cotidianas, da visão do homem comum sobre o seu ambiente”, como descreve Pesavento.

Dentro dessa perspectiva, “A Culpa é da Foto”, de Eraldo Peres, André Dusek, Joédson Alves (DF), “O Oco da Fala”, de Miriam Chnaiderman (SP) e o ganhador do prêmio Abraccine “Praça de Guerra”, de Edi Junior (PB), se assemelham. Nos três, os realizadores dão voz àqueles que se viram diante da brutalidade de uma ditadura que ainda hoje arreganha suas presas: do episódio em que fotógrafos da grande imprensa se rebelaram contra o presidente Figueiredo ao deitar ao chão suas câmeras; passando pelo relato de vítimas da Ditadura militar em São Paulo; até o depoimento quase anedótico de um grupo de amigos que criaram um foco de guerrilha na pequena Catolé do Rocha, na Paraíba, nos anos 1960. Histórias e memórias de gente e corpos comuns e nada dóceis.

Também do cotidiano, do que acontece entre quatro paredes, de fragmentos biográficos das gentes são tecidas as narrativas de “Abissal”, de Arthur Leite (CE); “Aqueles Anos em Dezembro”, de Felipe Arrojo Poroger (SP); e “Buscando Helena”, de Roberto Berliner e Ana Amélia Macedo (RJ). São micronarrativas íntimas (Leite e Poroger constroem suas ficções tendo como personagem seus avós; e Berliner e Macedo refazem o dia em que conhecem a filha adotiva) que extraem sua força de afetos plenos de domesticidade. Nos três filmes são as dinâmicas familiares que dão suporte para voos para o autodescobrimento. Num exercício de linguagem em que ao se perceberem a partir de um fora pudessem refletir melhor sobre si e sobre o outro. Esse outro que limita e dá a identidade de quem o filma.

Txai Ferraz, Lisi Kieling e Carlos Adriano mostram a vida como arte, a ética da estética, “um irreprimível querer viver”, como pensado pelo sociólogo Michel Maffesoli. A vida para seus personagens é resistência: o jovem trans da periferia (“Fora de Quadro”, PE); o músico ativista da sustentabilidade (“Vida como Rizoma”, RS) e a biografia de grandes poetas (“Sem Título # 3: E para que Poetas em Tempo de Pobreza?”, SP). Todos encarnam o desvio da Sociedade do Controle. A curadoria do É Tudo Verdade foi feliz ao sublinhar um cinema diverso, feito em várias partes do país por cineastas jovens e provocadores que querem celebrar e afirmar a vida, a memória e os afetos.

* jornalista e mestranda do PPGCOM UERJ

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