Brasileiro volta a exibir domínio absurdo do cinema em ‘Aquarius’

lulaterra e sonia braga_cred Victor Jucá

Foto: Victor Jucá

Pedro Butcher*

Que “Aquarius” seja um filme sobre resistência nesse momento muito particular da história brasileira pode ser uma coincidência circunstancial – que aumenta, sim, a importância do filme –, mas não tira dele uma força que sobreviverá a esse momento.

Depois da tensão compacta de “O Som ao Redor”, Kleber Mendonça Filho volta a mostrar um domínio absurdo das ferramentas do cinema para construir uma tensão muito semelhante, ainda que queime mais lentamente (como bem definiu o crítico estrangeiro Robbie Collin, “Aquarius” é um filme “slow burning”).

Com o mesmo senso de enquadramento raro, um uso do som e da música de tirar o fôlego e um ritmo que desafia a maré dominante dos tempos acelerados, “Aquarius” é, antes de tudo, um estudo de personagem.

E que personagem. Clara, jornalista e crítica musical aposentada, é a última moradora de um prédio antigo da orla de Recife. Todos os outros cederam às investidas de uma construtora, venderam seus apartamentos e se mudaram dali. Clara, não. Ela e a construtora travam uma espécie de guerra surda.

O tempo de “Aquarius” é o tempo de Clara, e quem estiver disposto a se entregar a esse tempo poderá ter uma das mais raras e prazerosas sensações que o cinema pode dar, que é a de quase entrar na pele de um personagem.

O trabalho de Sônia Braga – e do conjunto de atores que a cerca – muito contribui para essa sensação. Com o perdão do clichê, é uma entrega “de corpo e alma”. Uma compreensão de que um personagem não é só o que diz ou o que pensa, mas também, e sobretudo, um corpo. No caso de Clara, o corpo marcado de uma mulher de 65 anos, que ainda jovem enfrentou um câncer.

Em determinados momentos, os diálogos de “Aquarius” são de uma obviedade desconcertante. As discussões de Clara podem soar, às vezes, como um “Brasil for dummies”. Mas essa é, justamente, uma das maiores qualidades do filme: ter a coragem de discutir questões do país quando isso virou quase um tabu no cinema, e com uma franqueza que esfrega na cara aquilo que nós mesmos, brasileiros, temos tanta dificuldade de enxergar.

* Pedro Butcher é crítico de cinema e doutorando na Universidade Federal Fluminense; texto originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo. 

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