“Aquarius” na Terra do Sol

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Foto: Victor Jucá

Luiz Joaquim*

Ainda que não estivesse nascendo em berço de ouro – como acontece nesse momento em que estamos publicando esse texto, com sua primeira exibição para a imprensa encerrada no 69ª Festival de Cannes –, o terceiro longa-metragem (segundo de ficção) de Kleber Mendonça Filho, “Aquarius”, já teria um lugar na história da cinematografia brasileira.Isso porque há uma combinação político-cultural pela qual chega “Aquarius” da mesma envergadura que chegava “Deus e o diabo na terra do sol” há 52 anos.

Enquanto o filme do pernambucano, dotado de forte carga ideológica, surge hoje para o mundo – cinco dias após a presidenta Dilma Rousseff ter sido afastada de seu cargo a partir de uma conspiração dos partidos de oposição, o filme mais famoso do baiano de Vitória da Conquista também foi exibido pela primeira vez – em 17 de março de 1964 – numa sessão fechada, no Rio de Janeiro, quatro dias depois do Comício da Central do Brasil realizado pelo presidente João Goulart, que seria afastado dali a duas semanas de seu cargo por meio de um Golpe Militar.

E, assim como “Deus e o diabo…” assombrou a todos por mostrar o óbvio no que diz respeito a questões da reforma agrária (e não apenas isso), tão em voga no Brasil daquele ano, Aquarius deverá encantar a todos em função de uma muito bem delineada personagem feminina, sexagenária, determinada a nunca renunciar daquilo que acredita ser o correto, mesmo que para isso precise lutar sozinha contra um gigante milionário em recursos financeiros e políticos.

Soa familiar?

“Aquarius” encantará não apenas por isso. Ainda como “Deus e o diabo…”, o filme pernambucano tem sua sedução própria também pela estética. Estética esta bastante distinta da obra cinemanovista, que fique claro.

Mendonça Filho, o cineasta – não o atual ministro da Educação e Cultura -, no que diz respeito às opções artísticas na verdade apenas reafirma aquilo que já vem desenhando ao longo dos últimos 13 anos com os seus curtas-metragens, e que foi cristalizado no bem sucedido longa anterior, “O som ao redor” (2012).

Um plano: a crítica de música aposentada Clara (Sônia Braga, em estado de graça) cochila em sua rede, que está pendurada na varanda de seu apartamento com vista para o mar da praia de Boa Viagem, Recife.

Enquanto em primeiro plano vemos o rosto sereno de Clara, ao fundo vê-se no calçadão da praia as pequenas figuras de Geraldo (Fernando Teixeira) e Diego (Humberto Carrão), representantes de um construtora que usará de estratégias legais e ilegais para tentar fazer com que Clara lhes venda seu apartamento, o único ocupado neste antigo prédio dos anos 1940 onde ela reside desde a juventude.

Por melhor que seja aqui descrito, o plano ainda guarda uma atmosfera de tensão que não cabe numa tradução por letras. Ela é própria da sinestesia cinematográfica, que Mendonça conhece e constrói bem, particularmente para criar expectativas e seus medos subsequentes. Com apenas esse plano, a platéia de “Aquarius” já pode entender que ali algo perigoso está a espreita, e o que está por vir será tenso. O espectador, portanto, não irá sossegar até o desfecho final.

A obra-prima dentro da obra – Como em “O som ao redor”, “Aquarius”também vem apresentando-se por capítulos. E sua primeiro parte – O cabelo de Clara – é uma pequeno pérola, uma pequena obra-prima, redonda, dentro de todo o contexto do longa-metragem.

Na seção O cabelo de Clara, que se passa em 1979, conhecemos um pouco do espírito juvenil da protagonista (na pele de Bárbara Colen), ali já apontando para a mulher que ela viria a se transformar no futuro.

A seção também constrói de maneira contagiante a ideia de que há uma carga de energia própria que um ambiente gera quando é cenário de convivência amorosa por muitos anos. Este capítulo 1, portanto, serve-se como aperitivo ao público para entendermos as razões do carinho sentido pela Clara madura com o ambiente que a fez ser ela quem ela é.

É também por O cabelo de Clara que Sônia Braga tem sua primeira entrada em cena de “Aquarius”. Para tanto, Mendonça Filho e seus fotógrafos Fabrício Tadeu e Pedro Sotero (este último, o mesmo de “O som ao redor”) criaram uma moldura comovente, na qual Sônia vem da sombra para a luz – alegorias sobre sua volta ao cinema brasileiro a partir deste plano deverão esborrar de tanto aparecer nos textos a respeito que serão escritos daqui por diante.

Com Sônia na cena, completamente à vontade, ela, com um simples gesto, amarra o presente de Clara com o passado da Clara dos 1970, a mesma menina que apresentava aos amigos, no toca-fitas do carro, a nova música do grupo Queen. É perfeito.

No presente – O enredo criado por Mendonça Filho guia “Aquarius” principalmente em função da quebra de braço entre Clara e a construtora que quer derrubar seu pequeno prédio e construir mais um edifício de dezenas de andares na orla recifense.

Só isso já seria – da forma como Mendonça conduz – interessante o suficiente para distrair e agradar seu público. Mas, assim como em “O som…”, o realizador cria uma dúzia de personagens satélites aos quais dá tanta força quanto dá a sua protagonista. A inteligência aqui está no fato óbvio de que, quanto mais verossímeis relações Clara tiver com coadjuvantes críveis, mais verossímil será a própria Clara.

É o que acontece. Seja no relacionamento harmonioso com a secretária que lhe ajuda em casa, Ladjane (Zoraide Coleto, roubando algumas cenas); seja na conversa franca com os filhos Ana Paula (Maeve Jinkings), Martin (Germano Melo) e com o sobrinho Tomás (Pedro Queiroz); no banhos de mar que toma sob o olhar do salva-vidas Roberval (Irandhir Santos); ou seja ainda no bate-papo leve com as amigas numa festa no Clube das Pás, no Recife.

Dessa maneira, Clara vai ganhando corpo e tornando-se concreta em nossa percepção. Se não como a pessoa que somos, ao menos como a pessoa que achamos que deveríamos ser.

A sequência no Clube das Pás, inclusive, poderá remeter a comentada sequência da reunião de condomínio de “O som ao redor”, particularmente pela eloquência de uma conversa coletiva, e da bela solução encontrada pela montagem de Eduardo Serrano.

Em seu manancial de pontuações sócio-culturais, “Aquarius” ainda abre espaço para tópicos como o sexo na terceira idade; tradições familiares que estão sumindo; discriminação pela orientação sexual, namoros virtuais; e até a atual decadência da imprensa corporativa.

“Aquarius” estreia no Brasil no segundo semestre de 2016, com distribuição da Vitrine Filmes. E preparem-se: a polêmica não será pouca.

* crítico de cinema e programador do Cinema do Museu (Recife); texto originalmente publicado no Cinema Escrito
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