Sonia Braga brilha em “Aquarius”

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Foto: Victor Jucá

Mariane Morisawa*

“Aquarius” , primeiro filme brasileiro falado em português a participar da competição do Festival de Cannes em oito anos, foi recebido com oito minutos de aplausos na sua sessão de gala na tarde desta terça-feira, além de lágrimas de Sonia Braga.

O segundo longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho, que conta com uma atuação poderosa de Sonia Braga, fala de memória, história, resistência e especulação imobiliária. Como em seu trabalho anterior, “O Som ao Redor”, o cineasta faz um panorama agudo da sociedade pernambucana – e brasileira, no fundo. Só que, em vez de utilizar múltiplos personagens, seu foco é em Clara (Sonia Braga), uma crítica musical aposentada. Nesse sentido, “Aquarius” é um estudo de personagem mais tradicional. Clara se recusa a abandonar o edifício antigo em que mora, na praia de Boa Viagem, apesar do constante assédio de uma construtora, que deseja derrubar tudo para erguer uma torre moderna no lugar. Clara é o último obstáculo, a única moradora que ficou no prédio.

A personagem é apegada ao passado, sem exatamente ignorar o presente e o futuro. Está cercada por seus discos de vinil queridos, mas também ouve música no telefone. Ainda sente falta do marido, morto anos atrás, mas isso não a impede de embarcar em pequenas aventuras amorosas e sexuais. É uma personagem de afetos, sempre cercada pelos amigos e pela família, incluindo sua empregada Ladjane (Zoraide Coleto) e o salva-vidas Roberval (Irandhir Santos, sempre incrível). Por isso, não quer abrir mão do apartamento onde viveu bons anos e onde cresceram seus filhos. Ali estão suas memórias, sua história. Clara, que venceu um câncer, é de luta e de falar o que pensa diretamente, com certa arrogância às vezes, o que a coloca em rota de colisão com Diego (Humberto Carrão), o neto do dono da construtora. Apesar do jeito aparentemente afável, Diego está determinado a tirar do papel o seu primeiro projeto na empresa da família, o Novo Aquarius.

“Aquarius” pontua suas emoções, atmosferas e memórias com um bocado de música, o que faz sentido dada a profissão da personagem. O filme começa ao som de Hoje, de Taiguara, exibindo fotos antigas do Recife. Há canções de Roberto Carlos, Maria Bethânia e Queen, entre outros. Objetos e lugares também podem ter o efeito de despertar memórias e sentimentos. Numa sequência em flashback, logo no início, o espectador conhece a jovem Clara (Bárbara Colen) na festa de sua tia Lucia (Thaia Perez). Uma cômoda faz a septuagenária lembrar de noites quentes com seu amante, agora morto. São momentos especiais, que mostram o domínio técnico e narrativo do diretor. Kleber Mendonça Filho tira o máximo proveito da relação privilegiada que Sonia Braga tem com a câmera. Um prêmio para ela ou para o filme não parece uma ideia nada absurda.

A crítica internacional recebeu muito bem “Aquarius”. Jay Weissberg, da Variety, chamou Sonia Braga de “incomparável” e escreveu que Mendonça Filho é “uma grande nova voz no cinema brasileiro, alguém capaz de capturar a totalidade da sociedade brasileira numa única rua residencial do Recife”. Para Jordan Mintzer, da Hollywood Reporter, Sonia Braga brilha. O crítico foi elogioso, mas escreveu que “Aquarius” é mais clássico na composição e narração do que “O Som ao Redor”, o que pode desapontar quem esperava algo mais experimental. Peter Bradshaw, do jornal inglês The Guardian, deu quatro estrelas e definiu o filme como “uma história belamente observada e surpreendente”.

* texto originalmente publicado no site da Veja

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