Um balanço porque balanço é movimento

Cesar Zamberlan *

maxresdefault

Depois de ter visto, analisado e discutido com os colegas do júri todos os filmes que fizeram parte da mostra competitiva brasileira do É Tudo Verdade, chega a hora de fazer um balanço do panorama que nos foi apresentado e alguns pontos merecem ser destacados. Como os colegas já trataram do conjunto dos filmes, vou me ater aos dois filmes escolhidos.

Começo pelos curtas. Numa visão geral, o saldo desta competição é negativo, o conjunto de filmes não trazia muitas novidades, e a escolha acabou ficando entre filmes que, na sua essência, trabalharam de forma mais criativa e arriscada com o tema escolhido, fugindo de formas mais fáceis e, até mesmo, engessadas.

Experimentação e ousadia, num momento que a produção é facilitada e barateada graças ao suporte digital, são extremamente salutares. Curiosamente, nem sempre é esse o caminho trilhado e poucos riscos são assumidos, fazendo com que muitos filmes novos repitam velhas e, muitas vezes, desgastadas imagens. A questão não é apenas o buscar o novo pelo novo, nem inventar a roda, mas gerar um movimento: uma crise que seja, imagens que promovam alguma reflexão num mundo tão saturado de imagens.

Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano, filme por nós escolhido, trabalha com material de arquivo, mas aquilo que para muitos pode parecer uma facilidade, se apoiar em imagens já criadas, está longe de ser uma verdade porque é preciso dotá-las de um novo sentido, ressignificá-las. Longe, portanto, de ser um apoio ou uma muleta, essas imagens já dadas se apresentam, sim, como um grande desafio. E, ao usá-las para inventariar um pensamento crítico, uma trajetória, fazendo uma homenagem a um nome fundamental da nossa cinematografia, o diretor vai além: cria um diálogo entre dois pensadores essenciais, Paulo Emílio e Mário de Andrade, num rico casamento entre poesia visual e sonoridades.

Há no curta, mais que um registro de imagens, que Paulo Emílio talvez endossasse como parte das suas preferidas, uma conversa imaginária entre dois pensadores do Brasil, suas visões de brasilidade e suas formulações a respeito de nossas expressões artísticas. Carlos Adriano, ao promover esse encontro, nos oferece uma oportunidade rara – e nostálgica –  de pensar artisticamente o país, seus encontros e desencontros, montando um mural sonorizado de nossa formação, dos nossos traços mais genuinamente locais e como nos apropriamos e nos fizemos também pelas imagens que descobrimos fora do Brasil – no caso, o casamento Vigo e Paulo Emílio.

A poesia e força do curta nos coloca dentro do filme e, pelo filme, vagamos e corremos, como muitos personagens dos planos selecionados, em busca de um lugar incerto, em busca de um caminho que parece sempre um caminho e nunca um destino certo.

Errante é também o filme escolhido entre os longas e média. Errante porque se permite imperfeito e porque ao buscar um lugar, seja um espaço, a tribo ou a cidade, seja uma linguagem, mais documental, mais ficcional, acha-se sempre num entre-lugar.

A Terceira Margem, de Fabian Remy dialoga com outro grande pensador do Brasil, Guimarães Rosa. Mas o encontro aqui é de outra natureza, é achado pelas circunstâncias relacionadas ao processo de construção do filme e não provocado intencionalmente. Trajetos se fundem e ganham sentidos diversos na busca por uma identidade. Procura-se, num primeiro momento, o branco cooptado pelos índios, e o que o filme encontra é o índio cooptado pelos brancos. São ambos, para usar um termo de Alfredo Bosi que trata bem deste encontro, como flechas opostas, não preocupadas aqui com o sagrado, como no ensaio de Bosi que trata da catequese dos índios por Anchieta, mas, sim, tragadas pelo acaso do destino que os fez transgredir, voluntaria ou involuntariamente, as margens protegidas do espaço que lhes foi berço.

Em contato com a outra margem, tornam-se estrangeiros, passam a ser híbridos. E sendo ao mesmo tempo uma coisa e outra não são nem uma coisa e nem outra. A relação especular – para fazer menção a outro texto fundamental de Guimarães Rosa, O Espelho – revela, como no curta de Adriano, a busca por uma identidade escorregadia, sempre num lugar adiante.

Curiosamente e invertendo o sentido mais conhecido das flechas, resta ao índio a possibilidade de um retorno, e o filme deixa em aberto o seu caminho. Já o branco, que motiva a procura inicial do filme, só ganha sua identidade de branco, que pode ser pensada aqui e materializada no plano final do próprio documento, o RG, quando morre. Vivo, era um estranho e singular caso de colonização às avessas. Um Brasil ao contrário, o que nos leva ao encontro de outro Andrade, Oswald, e ao poema piada Erro de português que subverte o mito fundador: “Quando o português chegou debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português”.

* Cesar Zamberlan é crítico e um dos fundadores do Cinequanon; Membro do júri Abraccine no 22º É Tudo Verdade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s