Festival de Brasília: Um balanço

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Por Amanda Aouad*

O Festival de Brasília terminou com uma sensação de urgência das causas sociais. Um Festival que sempre teve um viés político, em sua edição histórica de 50º edições, trouxe, em sua maioria, obras que discutiam questões raciais, violência contra a mulher e questões da periferia.

O grande vencedor, Árabia, traz essa voz do homem pobre, operário, ex-presidiário, viajante em busca de oportunidades de uma maneira muito pulsante. O ator Aristides de Souza nos entrega uma interpretação verdadeira e emocionante, construída principalmente através de suas expressões em cena e da narração em voz over que conduz a narrativa. Como se contasse para nós sua história, Cristiano rememora sua vida até aquele momento. E, ao dar a voz ao protagonista, os diretores conseguiram resolver bem o chamado “lugar de fala”. O filme ganhou cinco Candangos: melhor filme pelo júri oficial, melhor ator, melhor montagem, melhor trilha sonora e melhor filme pelo júri da crítica.

Já o melhor filme pelo júri popular foi o baiano Café com Canela, que levou ainda o Candango de melhor atriz para Valdineia Soriano e roteiro. A obra traz um frescor novo as questões discutidas em Brasília esse ano. Protagonizado por duas mulheres negras sem estereótipos, lidando com temas universais e falando sobre afetos. Outra palavra de ordem neste festival. A comoção com a obra veio também como uma resposta ao filme de Daniela Thomas que foi exibido antes e gerou muita discussão pela maneira superficial como retrata as personagens negras. Mas o público foi mesmo conquistado por esse sentimento verdadeiro que a história é capaz de passar com uma narrativa gostosa de acompanhar. Um filme que emociona.

Apesar de uma sensação de decepção, o filme de Adirley Queirós levou o candango de melhor direção, melhor som e melhor atriz coadjuvante para Jay Batista. Era uma vez Brasília é um filme com problemas estruturais, mas é mesmo inegável o talento de seu diretor. Além disso, traz as questões já debatidas em sua obra sobre a segregação das cidades satélites e os problemas sociais da região. Aqui, o cineasta ainda traz um viés político nacional em busca de um diálogo mais universal. é compreensível que o júri tenha lhe dado o prêmio de direção, ainda que Affonso Uchoa e João Dumans, diretores de Arábia, a meu ver, merecessem mais.

A verdade é que o conjunto de filmes da competitiva nacional esse ano não era dos mais inspirados. Temos boas obras, outras nem tanto, mas, com exceção de Arábia, nenhuma unanimidade capaz de arrebatar a admiração de público e crítica com tanto entusiasmo como em outros anos. A exemplo da própria obra anterior de Adirley, Branco Sai, Preto Fica.

Entre os curtas, a safra parecia mais frutífera com excelentes obras como Tentei (melhor filme pelo júri oficial), A Passagem do Cometa, Inocentes, Torre ou Mamata (melhor filme pelo júri da crítica). Já o júri popular consagrou o curta Carneiro de Ouro, de Dácia Ibiapina, que tem como seu principal trunfo o personagem retratado: Dedé Rodrigues, cineasta popular do Piauí que dirige filmes com poucos recursos e muita criatividade, fazendo sucesso com obras como a trilogia “Cangaceiros Fora de Tempo”. A inteligência da diretora está em mesclar muitas cenas dos filmes com os depoimentos do cineasta que arrancam gargalhadas da plateia. Dedé esteve em Brasília e aproveitou para vender seus DVDs por lá também.

As temáticas políticas, sociais e de gênero também foram o tom dos debates dessa edição. Tivemos mesas para discutir a questão racial e de representatividade no cinema, da mulher na crítica ou da própria crítica no universo digital. Isso só para dar alguns exemplos. Foi a primeira vez também em 50 edições que uma mulher deu uma Master Class no Festival. E para compensar já foram duas: Anna Muylaert e Laís Bodanzky.

No fim, Brasília deixa um saldo positivo. Aponta para mudanças no cenário audiovisual e traz à tona questões antes negligenciadas. Cinema também é política, representatividade conta e alguns filmes conseguiram trazer um frescor a esse debate com belas obras. Porém, alguns filmes acabaram injustiçados em debates que cobravam deles o que não poderiam dar. O mais emblemático foi o que aconteceu no debate de Vazante de Daniela Thomas, porém, Construindo Pontes e Pendular acabaram sendo cobrados também por isso, curiosamente três filmes dirigidos por mulheres, mas esse já seria outro assunto.

Agora é acompanhar como se comportará o cenário brasileiro após esses nove intensos dias e se as mudanças propostas serão perenes, porém, sem esquecer o cinema e sua capacidade nos encantar e emocionar com técnica, estética e boas histórias. Que possamos viver a diversidade sempre.

* Amanda Aouad é crítica cinematográfica. Texto originalmente publicado no CinePipocaCult.

Outros textos da autora sobre o Festival:
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/cafe-com-canela.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/pendular.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/mamata.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/construindo-pontes.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/o-no-do-diabo.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/por-tras-da-linha-de-escudos.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/era-uma-vez-brasilia.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/sororidade-e-palavra-de-ordem.html
http://www.cinepipocacult.com.br/2017/09/arabia.html

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