Memórias e traumas de herança: os resgates familiares e as marcas da violência no ETV 2018.

Nayara Reynaud*

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Se lhe perguntassem qual foi o tom da seleção desta 23ª edição do É Tudo Verdade – não só os títulos das competições brasileiras de longas, médias e curtas-metragens que ficaram a cargo da avaliação do júri Abraccine –, a melhor resposta seria dizer que foi um festival de valorização da memória familiar e da violência. Amir Labaki, diretor do evento, já avisava na coletiva de imprensa que os documentários deste ano seguiriam o legado do gênero como preservação da memória coletiva, fazendo desse resgate uma forma de exposição de questões do passado que ecoam no presente.

Essa urgência em tratar de temas atuais, que resultou até na premiação do filme Auto de Resistência, cuja contundência da denúncia de Natasha Neri e Lula Carvalho ao dar rosto e vida aos jovens vitimados em ações policiais no Rio de Janeiro impactou a plateia e o júri oficial, não só suscitou essa busca simultânea por problemas hereditários no seio de uma família e de um país, como a preferência por representá-los através de pessoas comuns em detrimento dos retratos de figuras célebres, tão recorrentes na filmografia nacional.

A obra que melhor sintetiza essas tendências da seleção é Elegia de um Crime, último capítulo da “Trilogia do Luto” de Cristiano Burlan, em que o cineasta revolve os sentimentos e memórias de seus três entes queridos, falecidos em circunstâncias não naturais. O longa que encerra esse ciclo tão pessoal dele é uma busca pelas lembranças de sua mãe, morta em 2011, e pelo paradeiro do ex-parceiro dela, que a assassinou dentro de casa, em Uberlândia, e permanece foragido. Ao pontuar mais um episódio da tragédia particular de sua família, marcada pela violência, o diretor, outra vez, estabelece um paralelo entre seu drama individual e graves questões sociais, neste caso, especialmente a violência contra a mulher, que era uma sina na vida de Isabel e continua a ser a de tantas outras brasileiras.

A imagem, ou melhor, o imaginário de familiares que partiram também rondou os curtas-metragens brasileiros, começando com o premiado pelo júri Abraccine: em Inconfissões, a diretora Ana Galizia traz à tela as fotos e filmagens feitas pelo tio Luiz Roberto Galizia, utilizando vários artifícios narrativos através do desenho de som, trilha sonora, montagem e narração de cartas e documentos para recriar a trajetória do ator, pesquisador e diretor de teatro, falecido em 1985, e abordar, de forma indireta, a AIDS que o vitimou. Enquanto a sobrinha recria a identidade dele a partir do material de arquivo recém-descoberto, um neto usa os tradicionais vídeos caseiros da família e as gravações em áudio com a avó para dar vida à Casa de Catharina, agora vazia, na simples e tenra homenagem de Felipe Arrojo Poroger à dona daquele lar. A figura da avó que não conheceu, mas de quem herdou o nome, move a pernambucana Tila Chitunda em sua viagem a Angola registrada em Nome de Batismo – Alice, que acompanha a busca de uma filha de refugiados da Guerra Civil Angolana por suas origens e sua descoberta de que a bestialidade da escravidão existia além dos colonizadores europeus, dentro dos reinos africanos da qual sua própria família guarda essa realeza maculada.

Até na competição internacional, houve esse resgate pessoal em Amor É Batatas, documentário em que a holandesa Aliona van der Horst visita seus parentes na Rússia, à procura das mazelas do regime soviético de Stalin, especialmente a fome que sua mãe, que fugiu da União Soviética através de um casamento, nunca quis lhe deixar por herança. Encontra ali, nas tias ainda vivas ou falecidas, outras maneiras com que lidaram com os traumas daquela época de penúria e opressão, e igualmente o incômodo por estar mexendo no passado.

Incômodo também é o que causa, mas na plateia, o brasileiro Auto de Resistência, ao ver a dor das mães que perderam seus filhos e não querem que eles sejam esquecidos nas estatísticas, algumas desculpas esfarrapadas da defesa dos policiais e um sistema que estimula esta letalidade nos agentes públicos, particularmente os cariocas neste retrato, expondo os mesmos ao perigo e às consequências desta guerra urbana. Ao lado de Missão 115, se destaca como uma continuação de um legado letal que perdura no país, quando o documentário de Silvio Da-Rin relembra o caso do atentado no Riocentro, em 1981, promovido por um grupo de militares, que tinha apoio de civis igualmente insatisfeitos com a Abertura promovida pelo então presidente-general João Figueiredo e temerosos de perderem seus privilégios. Não coincidentemente, a Ditadura permeou a narrativa de vários selecionados deste ano, em que se completa o cinquentenário do AI-5, ato institucional que marcou o recrudescimento do regime militar.

Isso se refletia no aumento da censura, que marcou a carreira do diretor Neville D’Almeida, como conta o longa de Mario Abbade, Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos – cujo formalismo pouco transmite o espírito de seu personagem retratado, diferentemente do que Clara Lazarim consegue captar da natureza da cantora Tetê Espíndola no curta Tetê. A repressão fazia tantos, seja no Brasil ou em outras nações latino-americanas que estavam vivendo também sob ditaduras, se exilarem como o argentino Fernando Birri, cineasta e fundador de escolas de cinema que é foco de Amarra Seu Arado a Uma Estrela, da compatriota Carmem Guarini. A violência não apenas atinge quanto é passada pelos militares como lição a ser reproduzida pelos índios no registro histórico de Arara: Um Filme Sobre um Filme Sobrevivente, curta de Lipe Canêdo que resgata imagens antigas gravadas pelo antropólogo Jesco Von Puttkamer, na formatura da Guarda Rural Indígena, em Belo Horizonte, no ano de 1970.

A agressão não é física, mas não por isso menos cruel no etnocídio que destrói culturas indígenas, representado por Luiz Bolognesi em seu longa – agraciado pelo júri Abraccine – Ex-Pajé através da figura de Perpera, antigo líder religioso da tribo Paiter Suruí, que, após o pastor dizer que “pajé era coisa do Diabo”, vive dividido entre frequentar a igreja para não ser rejeitado pelos seus e o medo dos espíritos que estão bravos com sua conduta.

Essa violência que não se manifesta fisicamente também aparece, em certa medida, no uruguaio A Flor da Vida, em que é o tempo que devasta a saúde e o amor dos octagenários do documentário de Claudia Abend e Adriana Loeff – o mesmo tempo que rege a Espera de Cao Guimarães em seu filme-ensaio sobre esses espaços vagos e as expectativas criadas ao esperar –; e até nos curtas. Está na desigualdade social que degrada a humanidade dos catadores de lixo, que Maria Tugira Cardoso, a Catadora de Gente da obra de Mirela Kruel, busca resgatar através no conhecimento. Está na exploração da imagem infantil nos moldes adultos que corrói a infância das meninas de Mini Miss, observação de Rachel Daisy Ellis dos bastidores de um concurso de beleza, em que encontra na caçula, de apenas três anos de idade, a resistência, seja do imaginário de criança que ainda enxerga o Lobo Mau ou no seu grito final de revolta e libertação.

* Nayara Reynaud foi membro do júri Abraccine no 23º É Tudo Verdade.

Cobertura completa do Festival feito pela crítica no site Nervos.

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