Agnès Varda, a catadora de imagens

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THE GLEANERS AND I, (aka LES GLANEURS ET LA GLANEUSE), director Agnes Varda, 2000. ©Zeitgeist Films

Luiz Zanin*

Em seu documentário As Praias de Agnès (2008), a diretora belgo-francesa Agnès Varda traça um panorama real (e imaginário) da sua trajetória. Tanto de vida como cinematográfico. Mesmo porque, no artista, as duas dimensões se confundem. No filme (lançado em ótima cópia em DVD pelo Instituto Moreira Salles), Varda fala da influência das praias e do mar em sua vida. Mas conta também como passou da fotografia ao cinema, como foi o relacionamento com o marido, o também cineasta Jacques Demy, e quais foram suas relações com a nouvelle vague. É um belo autodepoimento, testemunho de vida livre e criativa.

Agnès, nascida em Bruxelas, na Bélgica, e radicada na França, pode ser considerada, na verdade, precursora da nouvelle vague – o movimento cinematográfico que, liderado por nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, revolucionaria o cinema dos anos 1960 em nível mundial. O movimento eclode no final dos anos 1950, virada para os 1960. Mas, já em 1955 Agnès realizaria La Pointe Courte, seu filme de estreia e todo construído em “espírito” nouvelle vague. Fala de um homem que volta para passar alguns dias de férias em sua cidadezinha natal – um vilarejo de pescadores em Sète – e lá se reencontra com sua mulher. Através do casal, todo o ritmo do cotidiano de pescadores impregna a trama, mesclando ficção ao documentário.

Essa busca do detalhe, da grandeza que existe nas vidas “menores”, ou mesmo nos lapsos de tempo reduzidos que podem resumir uma vida, a levam a uma brilhante ficção como Cléo das 5 às 7. O que significam essas cifras? Simplesmente o tempo que uma cantora belíssima terá de esperar para receber o resultado de exames clínicos que dirão se ela está mortalmente doente ou não.

A vida errante de uma jovem (interpretada por Sandrine Bonnaire) compõe a trama de Sem Teto nem Lei (Sans Toit ni Loi, 1985), história pós era hippie, mas ainda impregnada da dor daqueles que buscam um espaço de liberdade numa sociedade controladora.

Vidas pequenas, muitas vezes às voltas com circunstâncias que não podem dominar, como a doença, a vontade de liberação, ou mesmo a imposição dos seus próprios desejos. E sim, a dor da perda, que não pode ser apagada, mas encontra alívio quando tratada sob forma de arte. Assim é que, como parte do luto pela perda do marido, Agnès lhe dedica nada menos que três filmes: Jacquot de Nantes, Des Demoiselles ont Eu 25 Ans e L’Univers de Jacques Demy. O primeiro, em especial, é comovente em seus detalhes. Por exemplo, ela registra Demy, já muito doente e próximo da morte, feliz com um pulôver que ganha de presente da esposa. Ele o veste e o arruma no corpo, carinhosamente e com vaidade, olha-se no espelho e agradece. Um pequeno gesto de amor.

Pequenos gestos, aliás, pequenas coisas, objetos recolhidos, fotos esparsas, imagens perdidas que podem compor todo um painel social, ou todo um perfil humano – eis aí o universo de Varda. O cineasta é um colecionador de imagens, como ela afirma em um dos seus mais belos documentários, Les Glaneurs et la Glaneuse (2000). Como traduzir “glaneur”? É um catador, aquele que recolhe qualquer coisa que possa lhe servir para algum propósito, um objeto quebrado, uma peça desemparelhada do todo, um resto a que ninguém mais dá importância. O Catador e Eu. No filme, ela se compara a esses colecionadores maníacos, capazes de dar utilidade aos restos a que ninguém mais presta atenção. Assim é o cineasta. Transforma sobras em arte, em grande arte. Pelo menos assim é esta cineasta, alguém que se ocupa das pequenas coisas e das pessoas comuns e as torna igualmente grandes.

*Texto originalmente publicado no Caderno 2 do jornal Estado de São Paulo.

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