Dossiê 43ª Mostra SP: Debates

Dois Papas (Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Argentina), de Fernando Meirelles

“São personagens muito bem explorados, capazes de manter o interesse e a atenção, independentemente de filiações religiosas, posições filosóficas ou políticas, que nos movam. Porque as questões que o filme levanta, afinal, interessam a todos.”
Antonio Carlos Egypto

“Toda a rivalidade entre os dois expressa-se numa série de diálogos inteligentes, não raro ferinos, traduzindo com clareza as posições em jogo. Se, de imediato, todos podem ter sua simpatia pelo argentino, o filme trabalha com eficiência no sentido de humanizar também a figura do papa alemão.”
Neusa Barbosa

“Meirelles, apesar de seguir a linha de fazer seu trabalho sem grandes transtornos com os produtores, parece ter tido abertura para acrescentar seu tempero em uma história que oferecia todos os elementos para cair nos piores clichês. O ritmo lembra muito seus trabalhos publicitários e o próprio Cidade de Deus, porém um degrau abaixo.”
Bianca Zasso

“O filme ganha quando destaca a pequenez de seus protagonistas diante da história longeva da instituição da qual fazem parte e as diferenças, quando se trata de postura e de opinião, entre ambos.”
Isabel Wittmann

“Se fosse necessário destacar apenas um momento do filme, poderia ser o da confissão, em que a narrativa respeita o rito do sacramento da confidência – que há alguns séculos é uma prática privada -, funcionando como um recurso dramatúrgico providencial.”
Ivonete Pinto

Honeyland (Macedônia do Norte), de Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska

“O choque entre estes dois mundos sustenta uma narrativa que, em vários momentos, nem parece um documentário – o segredo está no tempo que os diretores, que vieram ali fazer apenas um vídeo, dedicaram à sua incrível personagem, passando ali três anos. Isto lhes permitiu não só traçar um perfil, mas descortinar todo um modo de vida que é difícil crer que permaneça ainda. Mas ele vive.”
Neusa Barbosa

“Com um fotografia que realça a aridez do cenário, e que vai ganhando tons mais opacos com a chegada do inverno dentro do filme, Honeyland pode até pegar o espectador menos informado de surpresa e se deixar apreender como uma ficção e não um documentário.”
Bianca Zasso

“Honeyland surpreende ao construir uma narrativa muito bem desenhada pela montagem, como se esta trajetória tivesse sido ser roteirizada e controlada pelos diretores.”
Bruno Carmelo

“Com sua camisa amarela cor de mel e sua saia floral, junto com o lenço colorido amarrado aos cabelo, Hatidze é uma figura marcante, e a fotografia a captura integrada ao espaço natural, seja aparecendo minúscula na imensidão do campo, seja de perfil no lindo céu do entardecer, com as cores do céu marcadas contra o negrume do contorno.”
Isabel Wittmann

“O efeito dessa combinação é a empatia do público pela jornada da heroína solitária em questão, mais ainda quando Hatidze passa a reavaliar a sua própria vida no terceiro ato, sem perder sua essência e ética.”
Nayara Reynaud

“Em alguns momentos é muito claro que a presença dos diretores está bem demarcada, por mais que eles nunca falem com Hatidze ou insiram uma narração externa àquele mundo.”
Barbara Demerov

Mente Perversa / Head Burst (Alemanha), de Savas Ceviz

“Mente Perversa tem consistência em sua abordagem de um tema tão complexo, mas comete alguns deslizes que atrapalham a imersão completa do público na trama.”
Bianca Zasso

“Ceviz reduz seu filme a uma sessão voyeurista da tortura alheia – a tortura de Markus diante dos garotos, e a do público de um homem prestes a estuprar uma criança a cada instante, durante cem minutos de duração.”
Bruno Carmelo

“A fotografia de Anne Bolick se destaca. Com planos distantes e uma câmera que se movimenta lentamente, acompanha o personagem em suas atividades mantendo o mesmo senso de distanciamento que temos em relação a elas.”
Isabel Wittmann

“Se Ceviz evita os julgamentos anteriormente, ao final, o cineasta prefere a condenação mais vil e simplista possível para uma questão tão complexa e pertinente.”
Nayara Reynaud

Parasita (Coreia do Sul), de Bong Joon-ho

“O filme consegue intrincar todos esses elementos dos diferentes gêneros cinematográficos com bastante competência, sem artificializar as passagens de um a outro registro e sem perder o ritmo. Ao contrário, o ritmo só cresce após cada reviravolta.”
Antonio Carlos Egypto

“Parasita tem um ritmo avassalador, que deixa o público inquieto, pensando – afinal, como tudo isto vai acabar? O filme é uma pancada. Uma não, várias, a ponto de deixar o espectador atordoado, mas feliz, se apreciar o vigor e a criatividade da obra, em que a violência que existe é plenamente justificada.”
Neusa Barbosa

“A suspensão da realidade é exigida da audiência do início ao fim. Nada que ocorre se passa por um registro realista. Por outro lado, o filme se propõe a discutir a luta de classes fortemente calcada num cenário contemporâneo.”
Robledo Milani

“E se o filme começa como uma comédia, apostando nos truques e trapaças dos Kim, logo se desdobra para o horror e para o drama, as únicas formas possíveis para lidar com a injustiça e o descaso.”
Isabel Wittmann

“Em seu transitar entre gêneros, algo caro ao diretor, verdadeiras pérolas estão escondidas, como toda a sequência da enchente. Um tour de encher os olhos de qualquer cinéfilo.”
Cecilia Barroso

Wasp Network (França, Brasil, Espanha, Bélgica), de Olivier Assayas

“Não é apenas um filme de ação e política, no entanto, o que se vê. É um conceito humanista de cinema, que dá complexidade aos personagens, fala da relação dos ativistas, de um lado e de outro, com suas mulheres e crianças, das preocupações que, pela esquerda ou pela direita, atingem todos.”
Antonio Carlos Egypto

“Levar para as telas uma grande obra literária é uma tarefa, muitas vezes, ingrata. Se o livro adaptado tiver sua construção baseada em muitas pesquisas e dados, a jornada para contar uma boa história sem deixar de centralizar o espectador dos acontecimentos que a percorrem ganha uma dose extra de dificuldade.”
Bianca Zasso

“O atropelamento do ritmo decorre não apenas da adaptação literária incapaz de sacrificar elementos, como também da vontade de representação mais ligada à quantidade do que à capacidade de desenvolver cada um deles. Como consequência, tem-se um filme frio, nos quais os grandes atores em tela parecem intercambiáveis, sem traços de personalidades marcantes.”
Bruno Carmelo

“Apesar do tema complexo, Assayas consegue garantir uma certa ambiguidade ideológica, que faz com o filme não seja simplista quando se trata da política que aborda.”
Isabel Wittmann

“É o típico filme de encomenda que, neste caso, tornou-se uma armadilha: Assayas adapta com fidelidade o material original para as telas, mas é justamente isso que lhe tira a personalidade”
Rafael Carvalho

“Sobrecarregado por essa complexidade narrativa e sociopolítica, Olivier não encontra espaço para desenvolver os personagens, seja na verborragia dos diálogos do seu último e diametralmente oposto Vidas Duplas (2018) ou na introspecção de outros trabalhos anteriores, apesar do bom elenco que tem em mãos”
Nayara Reynaud

“Seu novo filme e os personagens que nele habitam podem ser comparados a uma teia de aranha em que todos estão ali, juntos, mas de forma nada organizada.”
Barbara Demerov

 

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